Capítulo VI

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Gettin heavy with the devil, you can hear the wedding bells 

Going to Hell, The Pretty Reckless

Ezra’s POV

Foi preciso ter muita, mesmo muita, força de vontade para não voltar e acabar com o filho da puta mal-agradecido do Benjamin. Ele merecia, por atacar o que era meu e tentar tirar o que me pertencia por direito, o que me fora dado. Qual era a dele? A pequena humanazinha era minha e só minha, apenas eu tinha qualquer poder sobre ela. Era a mim que ela seguia, a mim que satisfaria quando chegasse a hora. Sim, essa hora chegaria, apenas esperava pelo momento certo e, aí, ela pagaria por todo o trabalho que me dava. Pagaria por tudo. Pagaria por andar daquele modo, por falar daquele modo, por cheirar daquele modo, por me olhar da porra daquela maneira. Era só esperar que confiasse em mim. Ela tinha de querer, não sou do tipo que impõe, pelo menos fisicamente.
E ela quereria, mais cedo ou mais tarde, e sentiria tudo aquilo que eu sentia constantemente, desde o primeiro fodido momento que colocou seu adorável pé em minha casa.
Deixei ela em seu quarto, com uma ordem dura para que não o abandonasse, a não ser que eu o ordenasse, e entrei em meu. Já vivia naquela casa há mais anos do que conseguia contar. Mesmo antes do apocalipse, já era minha. O portão na cave fora a mais-valia que tornara possível minha fuga do inferno e ficara em segredo por muito tempo, até entrar em cena Fontes e, depois, Eliel.
Eliel era uma coisinha deliciosa que me servia excepcionalmente bem. Quando precisava de alívio e satisfação, ela estava sempre presente para tratar de mim e, sendo sincero, fazia isso como ninguém. Contudo, o bom trabalho dela não significava que não pudesse ter outras companhias e diversões e, no momento, a humanazinha despertava minha curiosidade mais do que qualquer outra. Talvez fosse devido a seu cabelo flamejante e rebelde, ou a seu ar de aparente fragilidade. Mas, enquanto havíamos estado juntos no inferno, me senti mais homem do que nunca e não me refiro a Homem, de humanidade, mas a homem, estado anatômico.
Me livrei da roupa que vestia, a atirando para qualquer lado e me deitei. Minha cabeça doía, como raramente acontecia, provavelmente, por falta de energia. Na manhã seguinte, seria preciso me alimentar. Talvez a humanazinha se disponibilizasse…
Dei uma gargalhada baixa e seca só de pensar nessa possibilidade. Sugar sua energia quente e humana, enquanto beijava novamente aqueles lábios vermelhos. Sabia como ela reagiria, tal e qual como fizera no inferno. Responderia, sem se importar se eu era demônio, anjo ou humano. A facilidade com que os humanos podiam ser manipulados era tão… tentadora.
Quando dei por mim, percebi que já estava adormecido. Nunca tinha consciência de desligar, nunca. Simplesmente, acontecia e apenas quando acordava é que dava conta que dormira, provavelmente, porque meu estado de sono era bastante parecido ao de vigília, ao contrário do dos humanos. No entanto, naquela noite, senti plenamente que dormia. Primeiro, apareceram apenas flashes e jogos de luz, demasiado rápidos para serem percebidos. Depois, veio o som, muito estridente para ser entendido. Eu tentava compreender o que acontecia, mas apenas quando a imagem congelou consegui.
Era um portão, um portão qualquer que me era desconhecido, logo, não era nenhum dos muitos portões do inferno – esses conhecia como cada pena de minhas asas. Sem qualquer força física presente, um som metálico se espalhou em minha cabeça e o trinco do portão se abriu. As duas grandes portas de grades negras e muitíssimo trabalhadas se afastaram, criando uma passagem. Tentei entrar, mas uma presença invisível me impediu. Forcei, mas, mesmo assim, nada. O que quer que ali estivesse, era mais forte do que eu e, não me querendo gabar, eram poucos os que o eram, mais precisamente, eram apenas quatro.
No momento seguinte, estava sentado, em minha cama, com uma camada de suor em todo meu corpo. O que significava aquilo? Eu não sonhava. Nunca. Sonhar era muito humano, muito medíocre para alguém como eu. Sonhar significava um apagão total que não era admissível, um estado de relaxe total cujo luxo eu não possuía. Sonhar era uma fraqueza e eu não era fraco.
Poderia ser uma mensagem? Portões, poder… poderia?
Não, não podia ser. Preferia mil vezes que fosse um sonho à segunda opção e isso era preferir muito.
Tinha de ter a certeza. Tinha de sair.

Entre Anjos e DemôniosOnde histórias criam vida. Descubra agora