Ela cresceu acreditando que o mal era uma herança.
Um sangue antigo.
Um erro que precisava ser controlado.
Uma maldição que jamais deveria despertar.
Durante anos, lutou contra os sussurros da escuridão dentro dela. Contra a sensação inexplicável de...
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O mundo ainda girava ao meu redor, mas a sensação era estranhamente silenciosa. O lago negro refletia minha fúria, minha dor, e a lembrança do irmão que perdi. Cada músculo do meu corpo parecia latejar com a memória da mulher que destruiu tudo, que levou tudo de mim. Eu queria gritar, quebrar, desaparecer. Mas então, meus olhos caíram sobre algo que eu havia ignorado antes — a carta da minha avó, esquecida debaixo da cama.
Minhas mãos tremiam ao pegar o papel amarelado, amassado, mas ainda carregando aquele cheiro de tinta antiga que evocava lembranças de lar, de amor, de presença que atravessava anos. Abri e comecei a ler, e já nas primeiras linhas, um peso quase físico caiu sobre mim.
"Minha querida Yully,"
A letra firme e delicada ao mesmo tempo parecia me envolver, como se a própria avó estivesse ali, me segurando pelo braço.
"Sei que você ainda não compreende tudo que estou prestes a contar, mas chegou a hora de conhecer a verdade. Sempre soube quem você era desde o instante em que sua mãe faleceu. Quando você nasceu, trouxe consigo algo que existia antes do mundo, antes de qualquer trono celestial. Você não é apenas minha neta. Você é Lilith reencarnada."
Meu corpo congelou. Lilith. A palavra queimava meus lábios antes mesmo que eu pudesse processar. Cada frase parecia atravessar minha mente com a força de uma lâmina, lembrando-me de tudo: os mascarados, o lago negro, a dor, o poder que mal começava a sentir.
"Ser Lilith não é fácil. É dor, responsabilidade, poder e caos. Mas também é justiça, é força, é vida. Eu sempre fiz tudo que pude para te proteger, mas preparei você, em silêncio, para o que estava por vir."
Algo dentro de mim reagiu. Não era apenas medo; era raiva, dor, e um fio de prazer sombrio em perceber o quanto meu sangue carregava poder.
Então senti a presença dele. Aszel. Não invadiu meu espaço, mas estava lá, uma sombra firme e quente ao meu lado. Seus olhos negros, profundos e inquietos, brilhavam com intensidade, e sua postura — meio provocativa, meio autoritária — me lembrava que ele podia me subjugar, mas nunca me diminuiria.
— Encontrou a carta — disse, a voz baixa, com aquele tom sarcástico e desafiador que sempre me irritava. — Isso vai mudar tudo, não é?
— Não sei se quero saber — respondi, firme, segurando a carta como se fosse minha única âncora. — Não sei se consigo.
Ele sorriu, uma mistura de malícia e ternura que fazia meu sangue ferver. — Não precisa entender agora. Só sentir. Cada palavra é sua essência. Lilith não é só poder. É você.
Eu balancei a cabeça, negando, mas a carta não me deixava fugir:
"Você vai sentir medo. Vai querer desistir, se esconder, chorar. Mas nunca se esqueça: o mundo precisa de você. E você precisa se lembrar de quem é. Lilith não é só destruição. Ela é força. Ela é vida. Ela é justiça."