4

49 4 9
                                        


Já era noite quando subi no meu telhado e me deitei sobre as telhas frias para olhar as estrelas

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Já era noite quando subi no meu telhado e me deitei sobre as telhas frias para olhar as estrelas. Ali eu sentia que era o único lugar onde ninguém me via, ninguém me perturbava. O silêncio me abraçava de um jeito que a casa nunca conseguia. Até hoje lembro que foi procurando meu irmão que encontrei esse esconderijo.

— GAEL? Gael? Aonde você está? Eu não falei por mal, me perdoa... — soluçava enquanto corria pela casa. — Não vai embora, por favor... eu só tenho você!

Eu e Gael brigávamos direto quando éramos crianças. Ele, um adolescente imaturo tentando fingir que já era adulto. Eu, uma criança carente, querendo atenção o tempo todo. Eu o queria por perto. Ele me queria longe. Mas não importava a hora: se eu gritasse, ele vinha. Sempre vinha. Antes de dormir, ele dizia que eu era a cópia da mamãe. Eu me perguntava como ela era. Se eu realmente era parecida com ela. Não tínhamos fotos, apenas histórias e imaginação.

Naquele dia houve uma palestra sobre o Dia dos Pais na escola. Ele não foi. Fiquei sozinha numa sala vendo meus colegas abraçarem seus pais enquanto eu apenas observava. Até que um menino da minha turma se aproximou puxando a mãe pela mão e, olhando nos meus olhos, disse: — Você quer um abraço da minha mãe? Eu posso emprestar ela, já que você não tem uma.

Eu sabia que ele não falou por maldade, mas o desconforto no rosto da mãe dele me fez sentir pequena, exposta. Por que eu não tinha uma mãe? Por que ela me deixou? As perguntas ecoavam na minha cabeça enquanto eu corria para me esconder debaixo de uma mesa, tampando os ouvidos para não ouvir música, risadas, pais e filhos. Se ao menos Gael estivesse ali...

Quando tudo terminou, fui para casa e encontrei ele conversando com uma menina. Mesmo com os olhos inchados e o cabelo bagunçado, fui até ele. Eu era a família dele. Eu deveria ter sido prioridade. Mas aquilo... aquilo doeu.

Puxei a blusa dele. — Gael? Por que você não foi à minha apresentação? Eu te esperei no portão da escola até cansar... Eu estava ansiosa para entregar isso...

Estendi um cartãozinho com desenhos meus e dele. Uma cartinha feita com todo o carinho que cabia em mim.

— Yully, agora não. Depois conversamos. — Ele se virou para a menina, que nem me olhou.

Frustrada, entrei no meio dos dois. — Gael! Me escuta! Vamos pra casa, vai? Hoje é Dia dos Pais... passa comigo. Vamos ver um filme, brincar de pique-pega no campo ou plantar uma flor no jardim...

Ele me empurrou de leve. — Yully, já disse pra não me atrapalhar! Depois conversamos!

Meus olhos encheram de lágrimas. A menina, com roupas curtas e cheiro forte de cigarro, arrancou a carta da minha mão. — Fala sério, Gael, que coisa mais brega. Manda logo seu patinho feio pra casa pra gente voltar a fazer aquilo. — Piscou para ele, amassou minha cartinha e enfiou no bolso.

Meu Destino AmaldiçoadoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora