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A chuva fustigava o telhado da cabana com uma violência que parecia querer lavar um pecado antigo daquela madeira

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A chuva fustigava o telhado da cabana com uma violência que parecia querer lavar um pecado antigo daquela madeira. Dentro daquela estrutura de dois andares, isolada no coração de um vale de carvalhos, o silêncio nunca era apenas ausência de som; era uma presença asfixiante que me vigiava. Eu continuava deitada, observando os veios do teto, sentindo uma pulsação rítmica sob minha pele — um chamado que falava de horizontes em chamas —, mas a voz de Gael sempre agia como um balde de gelo sobre o meu fogo interno.

— Nossos pais nos abandonaram porque você é difícil, Yully — ele costumava repetir, enquanto me forçava a manter a coluna ereta até que minhas vértebras clamassem por misericórdia.

Lembrei-me de um jantar, meses atrás, quando deixei um talher cair. O som do metal no chão pareceu um tiro. Gael não gritou; ele apenas inclinou a cabeça, a expressão de uma piedade doentia. "Você é meu projeto, Yully. Um centímetro de gordura, um movimento impuro, uma falha na sua pele... e o mundo vai te devorar. Eu sou o único que te mantém inteira." Eu sentia um ódio que me queimava as vísceras, um desejo de ver aquela cabana arder, mas logo em seguida o medo me paralisava. Ele era meu carcereiro, meu carrasco, mas era a única mão que eu tinha para segurar no escuro. Se eu o perdesse, quem me encontraria?

Hoje eu completo dezoito anos. Gael nunca suportou me olhar nos olhos no meu aniversário; para ele, eu não era uma irmã, eu era uma vitrine de perfeição absoluta. "Um milímetro de fraqueza é o fim, Yully", ele dizia, enquanto me forçava a correr quilômetros sob a chuva até que meus pulmões pedissem trégua. Ele me queria impecável... rápida o suficiente para que nada pudesse me tocar sem a permissão dele.

No cercado da residência, algo interrompeu minha náusea matinal: um envelope de papel grosso e vermelho na caixa de correio. Reconheci a caligrafia elegante na hora: era da minha avó. Gael jurou que ela morrera há anos, mas aquela letra estava pulsando de vida. O ódio por suas mentiras finalmente transbordou. Entrei em casa, escondi o envelope sob o assoalho solto do meu quarto e disparei para a floresta. Eu precisava de ar. Precisava que a chuva lavasse o cheiro de controle de Gael da minha pele.

O verde da mata me engoliu. Eu corria com a agilidade letal que ele me impusera, mas o som dos pássaros cessou abruptamente. O silêncio tornou-se denso. Um arrepio na nuca me avisou: eu não estava sozinha.

Um galho estalou. Calculado.

Imaginei ser algum lobo ou animal selvagem da região. Avistei um carvalho ancestral e, em um movimento fluido, pulei para agarrar o primeiro galho firme, tentando me içar para longe do solo.

Mas o "animal" foi mais rápido.

Antes que eu pudesse me firmar, senti o deslocamento de ar. Uma mão imensa e possessiva fechou-se em volta da minha cintura com a força de uma prensa. O susto foi um choque elétrico. Fui arrancada do ar, mas em vez de ser jogada ao chão, fui prensada com violência contra o tronco rugoso da árvore.

Meu Destino AmaldiçoadoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora