Ela cresceu acreditando que o mal era uma herança.
Um sangue antigo.
Um erro que precisava ser controlado.
Uma maldição que jamais deveria despertar.
Durante anos, lutou contra os sussurros da escuridão dentro dela. Contra a sensação inexplicável de...
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O tempo parou de ser contado por calendários humanos. Para mim, ele passou a ser medido pelo crescimento das minhas unhas, que agora eram mais duras que o normal, e pela forma como o luto por Gael deixou de ser um choro agudo para se tornar um frio constante. Dos meus dezoito aos vinte anos, eu fui desmontada e reconstruída. Eu não era mais uma órfã; eu era uma arma em fase de polimento.
O primeiro ano foi o batismo na frieza. Celeste me tratava com uma disciplina que beirava a tortura psicológica. Eu a odiava com cada fibra do meu ser. Toda vez que ela entrava no meu quarto com aquele sorriso de lado, eu via a mão dela amassando a carta do meu irmão.
— Uma rainha não se emociona, Yully. A emoção é um vazamento de poder — ela sibilava, enquanto me obrigava a caminhar por horas com livros pesados sobre a cabeça e um punhal escondido na manga, pronta para me atacar a qualquer momento para testar meus reflexos.
Ela me ensinou a Geopolítica do Abismo. Passávamos noites em claro estudando os Príncipes. Aprendi que Cole, o Príncipe do Orgulho, não suportava o silêncio — para ele, o silêncio de um súdito era o maior insulto. Aprendi que Helena, a Inveja, colecionava rostos de mulheres bonitas em potes de cristal em Civitas Vanitatis. Celeste me ensinou a mentir para quem inventou a mentira. Eu aprendi a sorrir para ela enquanto imaginava o dia em que eu a jogaria no poço mais fundo do Inferno.
— Por que me ensina tanto, se sabe que eu te odeio? — perguntei uma noite, enquanto limpávamos o sangue de um corte que ela me fez durante uma "lição de reflexo".
Celeste apenas inclinou a cabeça, os olhos negros brilhando. — Porque a antiga Lilith também me odiava. E foi esse ódio que a manteve viva por milênios. O amor amolece a pele, Yully. O ódio a transforma em escamas.
Quando completei dezenove anos, minha aura começou a oscilar. Eu tinha pesadelos com abismos de fogo e acordava com as pontas dos dedos chamuscadas. Miguel decidiu que era hora de intervir. Ele me levava para campos abertos ao amanhecer, onde a luz era tão pura que chegava a doer.
Miguel era meu mestre de Estabilidade, mas sua tutela era uma prisão dourada. Ele me ensinava a canalizar a energia celestial para abafar o rugido de Lilith dentro de mim. Mas havia algo perturbador no jeito que ele me olhava. Miguel estava obcecado. Ele agia como o "anjo bom", mas suas mãos demoravam demais na minha cintura quando ele corrigia minha postura de defesa.
— Você é tão perfeita, Yully... — ele sussurrou em uma tarde quente, o rosto perigosamente perto do meu. O cheiro dele era de incenso e algo metálico, como sangue limpo. — Se você me ouvir, se você se entregar totalmente à minha luz, eu posso impedir que aquela coisa lá embaixo te leve. Eu posso te fazer minha... protegida eterna.
Eu sentia nojo. Ele queria me "salvar" apenas para me ter trancada em uma gaiola de vidro, como um troféu de sua própria virtude. Mas eu aprendi a usar isso. Eu fazia o papel da menina grata, deixava que ele acreditasse que estava ganhando. Eu estava aprendendo os pontos fracos da luz, para que um dia pudesse apagá-la de dentro para fora.