Ela cresceu acreditando que o mal era uma herança.
Um sangue antigo.
Um erro que precisava ser controlado.
Uma maldição que jamais deveria despertar.
Durante anos, lutou contra os sussurros da escuridão dentro dela. Contra a sensação inexplicável de...
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O silêncio que se seguiu ao massacre dos rebeldes era tão pesado que o som da minha respiração, agora profunda e gélida, parecia o único sinal de vida naquela clareira morta. Miguel permanecia estático, uma estátua de luz opaca, enquanto Aszel continuava de joelhos, a cabeça baixa diante da criatura que ele mesmo trouxera à vida.
Eu olhei para o anel de Gael no meu punho. O metal cravado na minha nova pele de porcelana era um lembrete constante de que minha dor foi o alicerce do plano dele.
— Dois anos, Aszel — minha voz saiu como um sussurro de navalhas. — Por dois anos, eu vivi o luto de uma irmã que viu o sangue do próprio irmão decorar as folhas da floresta. Eu não procurei por ele. Eu não tive esperança. Por que eu procuraria um morto? Você me fez aceitar o vazio. Você me fez acreditar que eu estava sozinha no mundo para que a sua mão fosse a única que eu pudesse segurar.
Uma lembrança me atingiu com a força de um soco.
Uma noite, logo no início do treinamento, eu desabei em prantos no meio do pátio da mansão. Aszel se aproximou, não como um general, mas como um refúgio. Ele me abraçou por trás e sussurrou no meu ouvido: "O que o destino leva, a força reconquista. Deixe Gael descansar, Yully. Eu estou aqui agora."
Naquele momento, eu achei que era amor. Agora, eu percebia que era contenção. Ele estava apenas fechando as janelas para que eu não visse a luz lá fora.
— Você me deu conforto enquanto escondia o anel dele no peito — continuei, caminhando ao redor dele, minhas asas de obsidiana se arrastando no chão com um som metálico. — Cada carícia sua foi construída sobre o silêncio daquela mentira.
Aszel finalmente levantou o rosto. A agonia em seus olhos vermelhos era palpável, mas minha confiança estava pulverizada como as cinzas dos demônios ao nosso redor.
— Eu não menti, Yully... — ele tentou dizer, mas o nome soou errado.
— Não use esse nome! — rugi, e o chão tremeu. — Yully morreu quando o sangue dela lavou este círculo. O que está diante de você é o resultado da sua manipulação.
Parei na frente dele, olhando-o de cima. A majestade da Rainha Lilith emanava de mim como um frio absoluto. Eu sabia que precisava dele. O trono do Inferno ainda era ocupado por Adão, e as legiões de Aszel eram a única força capaz de romper os portões da Capital das Sombras.
— Eu preciso do seu exército, General. Preciso da sua lealdade estratégica para arrancar Adão daquele trono e tomar o que é meu por direito. E você vai me dar isso.
Ele inclinou a cabeça, uma submissão amarga.
— Tudo o que é meu é seu, Lilith. Sempre foi.
— Então aqui está o seu pagamento — sibilei, inclinando-me para que ele sentisse o cheiro de morte e poder que agora exalava da minha pele. — Nós vamos nos casar. Diante de todo o Inferno, você será o meu Rei Consorte. O mundo verá a união perfeita entre a Herdeira e o seu General. Mas saiba de uma coisa, Aszel... este casamento é um tratado político. Um contrato de guerra. Nada mais.