Ela cresceu acreditando que o mal era uma herança.
Um sangue antigo.
Um erro que precisava ser controlado.
Uma maldição que jamais deveria despertar.
Durante anos, lutou contra os sussurros da escuridão dentro dela. Contra a sensação inexplicável de...
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
As luzes de Civitas Arrogantia eram uma mentira dourada. Diferente da frieza militar de Aszel ou da crueza dos Rios de Lava, a cidade de Felix brilhava com um ouro pálido e doentio. Estátuas gigantescas de mármore negro ladeavam as ruas, todas esculpidas à imagem do seu senhor, observando os transeuntes com um desprezo petrificado.
Caminhei ao lado de Aszel pelas vielas periféricas, mantendo minhas asas recolhidas e o capuz das sombras escondendo meu rosto de porcelana. O barulho aqui era diferente; era o som de moedas trocando de mãos, sussurros de traição e o riso forçado de demônios que fingiam ser mais importantes do que eram.
— Olhe para este lugar — murmurei, observando um grupo de nobres que desfilava em carruagens puxadas por almas acorrentadas. — Felix transformou o orgulho em uma mercadoria. Ele acredita que, se tudo brilhar o suficiente, ninguém notará que as fundações estão podres.
— Ele é previsível, Lilith — Aszel respondeu, sua voz baixa e vigilante. Ele caminhava com a mão perto da adaga, mas seus olhos estavam em mim, não na multidão. — Felix só respeita quem o faz se sentir parte de algo maior. Ele quer estar no centro do palco, mesmo que o palco esteja pegando fogo.
Parei diante de uma fonte onde a água, enfeitiçada para parecer vinho, jorrava sem parar. Olhei para o reflexo de Aszel na superfície trêmula.
— Então vamos dar a ele o maior espetáculo que esta cidade já viu — eu disse, um sorriso lento e calculado surgindo em meus lábios. — Vamos casar aqui, Aszel.
Ele travou por um segundo, o choque atravessando suas feições antes que a máscara de general voltasse ao lugar.
— Um casamento político em Arrogantia? — ele questionou, baixando o tom. — Você disse que seria um tratado em Desiderii. Por que mudar o palco agora?
— Porque Felix é movido pela exclusividade — expliquei, voltando a caminhar. — Se casarmos no domínio dele, ele acreditará que foi escolhido. Ele pensará que a Rainha e o General de Gelo precisam da sua proteção e do seu solo para legitimar o união. Ele vai se sentir o padrinho da nova era do Inferno, o homem que segurou o mundo enquanto nós nos uníamos. Ele baixará a guarda porque o ego dele será o nosso escudo.
Aszel soltou um suspiro curto, uma mistura de admiração e cautela. — Você quer que ele acredite que temos uma lealdade cega a ele. Que ele é o nosso aliado principal contra Adão.
— Exato. Enquanto ele estiver ocupado organizando o banquete mais caro da história e se gabando para os outros domínios, nós faremos o verdadeiro trabalho.
Parei e fechei os olhos por um breve momento. Senti a conexão com o Abismo pulsar. No Inferno, as cidades são cheias de "espíritos vagantes" — almas tão insignificantes que ninguém nota sua presença nas frestas das paredes ou sob as mesas das tavernas. Com um comando mental silencioso, liberei pequenos fragmentos da minha essência, sombras quase invisíveis que se desprenderam das minhas vestes e se dissiparam pelo vento da cidade.