01. Bartender

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Daphne

Daphne não conseguia se concentrar em nada. Tudo o que tocava dava errado. Era um daqueles dias em que teria sido melhor se render aos encantos da cama e sequer ter se levantado. A noite anterior havia sido longa, com Sean reclamando a madrugada inteira por falta de ar, a bombinha tremendo nas mãos infantis e os olhos castanhos saltados pelo esforço. Não havia sono depois de tanto desespero.

O médico continuava a dizer que o ambiente hospitalar serviria apenas para deixar o garoto mais nervoso, então tudo o que Daphne podia fazer era esperar até que o ar voltasse aos pulmões do irmão enquanto seu próprio coração era espremido pelo medo de perde-lo. Não haveria mais nada para ela se aquilo acontecesse. Era tudo o que lhe havia restado, e tudo o que importava.

As crises nem sempre duravam pouco tempo. Não eram raras as noites nas quais os irmãos sequer chegavam a dormir. Ainda assim, Daphne nunca o deixava sozinho, mesmo que para isso houvesse desistido dos turnos noturnos no bar, que costumavam render muito mais dinheiro do que os diurnos, geralmente o dobro de seu modesto salário. Com eles, ela estaria um passo mais perto de arcar com os custos de um transplante na Columbia Britânica; contudo, não tinha a coragem necessária para deixar o irmão sob os cuidados do homem que chamavam de pai, homem este que, na melhor das hipóteses, estaria tão chapado que não notaria um touro convulsionando diante de seus olhos. Por hora, o coração de Sean teria de aguentar um pouco mais.

Era cruel, na verdade, pensar sobre como o coração de uma criança podia parar de funcionar de forma tão impiedosa, gradativa e lentamente, bem quando suas maiores preocupações deveriam ser arranhões e hematomas vindos de jogos de hóquei e futebol.

Eram nestas desventuras que Daphne pensava enquanto girava uma garrafa de cerveja nas mãos, os olhos fixos no nada. A bartender também não prestava atenção na letra da música que soava das caixas de som do bar; era penas uma melodia abafada por pensamentos barulhentos demais – Sean; as lembranças do diagnóstico; os olhos de sua mãe, trêmulos e marejados; a serenidade do médico em explicar a situação e esclarecer os riscos; a confiança momentânea de seu pai ao lhes dizer que tudo ficaria bem. Tudo havia mudado muito rápido.

— Ei! Daph! — chamou um companheiro de trabalho, estalando os dedos em frente ao rosto da bartender em uma tentativa de chamar sua atenção. Ela piscou algumas vezes antes que conseguisse focar no rosto firme e nos olhos verde mar de Frederick.

— O que foi? — perguntou, franzindo o cenho em irritação por haver sido tirada tão abruptamente de seus devaneios. O rapaz deu um sorriso fraco e seus olhos assumiram uma gentileza que Daphne achou não merecer. Tentou se lembrar de que o pobre coitado não tinha culpa de nada. Tratou de sorrir, esperando que ele enxergasse o pedido de desculpas silencioso em seus olhos.

— Você está bem?

— Só... pensando um pouco. — Ela suspirou, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha antes de olhar para o ambiente a sua volta, tão cheio de pessoas tão barulhentas, exatamente como um bar deveria ser. Forçou um sorriso animado. — Mas estou muito bem. É sexta-feira, não é?

— Claro... — ele revirou os olhos, desacreditando da declaração da bela garota perturbada à sua frente. Bagunçou os cabelos da amiga em um gesto brincalhão, arrancando mais uma careta mal-humorada dela. — Nesse caso... acho que você devia atender aquele velho insuportável que pediu uma cerveja há mais de meia hora.

— Pediu? — Daphne arregalou os olhos, buscando o tal senhor, que tinha uma expressão nada contente no rosto enrugado. Ela jogou a cabeça para trás, impaciente. — Droga, Fred! Por que não me avisou?

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