Daphne
O sol tocava ternamente o rosto e os ombros de Daphne, aquecendo a pele exposta que escapava da cobertura dos lençóis. Os braços ainda estavam agarrados ao macio travesseiro como a um bichinho de pelúcia. Sentia-se exausta, porém, confortada por aquela cama estranha.
Seus olhos se abriram por livre e espontânea vontade, sem que sono algum pesasse sobre eles. Foi assim, contudo, que aquele breve instante de paz se converteu bruscamente em uma dor de cabeça latente. Enquanto tentava se levantar, apoiando as palmas das mãos na beira da cama, Daphne se ouviu murmurar algo ininteligível. O mundo girou, um mundo que não era o seu. Com uma rápida olhada em volta, ela finalmente se deu conta da realidade. Não estava em seu quarto. Aqueles móveis sóbrios e bem conservados não se pareciam com seu armário surrado, assim como a cama e as paredes branquíssimas também não se assemelhavam em nada com a decoração alaranjada de casa. Aquele era um quarto de hotel, de um estranho, e ela havia dormido ali.
— Ah, não... — murmurou para si mesma. Afundou o rosto nas mãos, massageando as têmporas sem conseguir aliviar a dor. Não era um sonho. Estava no quarto do detetive da Polícia Real, Ian cujo sobrenome ela se esquecera.
Não havia sinal de qualquer alma além dela, nenhum som, cheiro ou visão que mostrasse rastro de vida. Ainda zonza, tentou firmar os pés descalços no chão de madeira frio, caçou rapidamente as roupas jogadas por ali e se apressou em direção ao banheiro, sem deixar de se perguntar por um segundo como havia concordado tão rápido em ir até a habitação de um completo desconhecido. A resposta veio rápido – uísque, vodca, café e uma pitada de carência. Lembrava-se do gosto das primeiras doses do uísque, de como lhe queimara todas as barreiras.
De resto, as únicas lembranças que tinha eram flashes rápidos de cenas borradas da noite anterior, sempre acompanhados de uma intensificação considerável na dor. Memórias das sensações de estar nos braços de Ian, do calor que os dois trocaram, do perfume floral e amadeirado que ainda dominava seus cabelos. Estranha e vergonhosamente, mal se lembrava do rosto do detetive, ou da conversa que antecedera tudo.
Enquanto julgava a si mesma por ter sido tão precipitada, consolou-se com os argumentos de que muitas mulheres já haviam acabado na cama de desconhecidos antes dela. Não era nenhum crime. Daphne apoiou as mãos na cuba de porcelana branca do banheiro e deu uma olhada no espelho. Estava com olheiras, fundas e escuras, a maquiagem estava borrada, deixando alguns rastros de preto perto dos olhos. Felizmente, o cabelo ficaria bem com uma escovada.
Tirou da bolsa a escova de dentes, um corretivo e lápis para disfarçar as olheiras depois que saísse do banho. Se Ian a havia levado até ali, certamente não veria problemas em compartilhar o chuveiro. Daphne ligou o aparelho em uma ducha fria para lhe devolver a sobriedade. Não se demorou muito, e logo estava se secando com uma das toalhas dobradas em cima da bancada de madeira creme. Vestiu-se e voltou para a frente do espelho. Mal teve tempo de esconder as olheiras com corretivo ou de passar rímel para abrir-lhe o olhar. Enquanto olhava a imagem destruída no reflexo, lembrou-se da verdadeira razão por seu ato ser tão reprovável. Sean. Ela o havia deixado sozinho, sem dar um mísero telefonema.
Enfiou as mãos na bolsa em uma busca frenética pelo celular. Quase derrubou o aparelho ao tentar firmá-lo nas mãos. A raiva que sentia de si mesma era imensurável, e seu coração deu um salto ao ver as oito chamadas perdidas do irmãozinho. A angústia tomou conta de seu peito, fazendo-a se sentir subitamente fraca. Imaginou pelo menos quinze tragédias que poderiam ter acontecido paralelamente à sua escapada. Sean poderia ter ficado preocupado, começado a ter crises sozinho ou saído por conta própria na rua.
Trêmula e tonta, Daphne pendurou a bolsa nos ombros e se apressou em busca da saída do apartamento, o celular ainda colado à orelha, esperando cheia de medo que os toques parassem e dessem lugar à voz de seu irmão.
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Hey, Bartender
Mistério / SuspenseA cidade de Nightville foi, por muito tempo, uma das mais tranquilas e pacatas do Canadá. No entanto, quando alguns criminosos começam a aparecer enforcados nos arredores e cidades vizinhas, o medo se faz rei nos corações de toda a população. Daphn...
