Dormiu como nunca havia dormido antes. Sentiu paz. O corvo continuava imponente no quarto, observando o humano com certo ar de cuidado; aquele pássaro era místico, talvez tenha sido um presente do universo para Alexander, que agora, estaria totalmente sozinho no mundo. A luz que atravessava as cortinas dos aposentos do moreno finalmente incomodaram seus olhos, e Doyle acordou revigorado. De algum modo, os lençóis e suas vestes não estavam sujas de sangue, e nenhuma das jóias que Katherine costumava deixar no móvel de canto da cama estavam lá. Seria isso tudo obra de Ogamas?
Levantou-se de sua cama perturbado, e saiu às pressas dos aposentos. O corvo abriu as asas e voou em direção ao rapaz moreno, que descia as escadas até a ala das criadas, na esperança de ter uma conclusão lógica em relação ao sumiço dos pertences da mulher e principalmente, da inexistência do sangue que havia sido derramado naquela cama anteriormente. Ao avistar a governanta no corredor mais próximo, segurou a mulher baixa e velha pelos braços. Seus cabelos desgrenhados e olhos azuis esbugalhados o deixavam com a aparência de louco; e o corvo continuava a bater suas asas sobre a cabeça de Doyle.
— Onde está Katherine? — chacoalhou-a — Diga!
— Senhor Doyle! — praticamente cuspiu as palavras, assustada e confusa — Katherine? Quem seria Katherine, senhor?
— Como assim quem? Minha esposa — piscou lentamente, olhando de canto para o animal que acabara de se acomodar em seu ombro, soltando a governanta — Minha... esposa.
— O senhor deve estar confundindo a realidade com um sonho, senhor — ela forçou uma risada, e deu passos nervosos para trás, confundindo-se nas palavras — Posso preparar seu café da manhã? Ou chá? Estava subindo para avisar que tens visita.
— Visita? E quem seria? — perguntou, recompondo-se e abaixando os cabelos negros que estavam sobre a face.
— O banqueiro Hortensius... — a mulher julgou a aparência do patrão descaradamente e tomou as rédeas da rotina do mesmo — Vou preparar o chá e avisar que o senhor está acordando. Até mais, senhor.
Ela sumiu pelos corredores do casarão, deixando-o plantado com seus próprios pensamentos. Em menos de uma hora acordado, tudo parecia estranho, pensava que sua vida iria se complicar devido ao assassinato de Katherine, claro, porque ele seria o principal suspeito, mas, ela agora não passava de uma lembrança só sua? Se deu conta que aquilo era maravilhoso, tudo que precisava agora para que sua vida melhorasse seria dinheiro. Dinheiro.
Subiu as escadas novamente para o andar em que se encontrava o quarto de roupas, e encarou sua imagem visivelmente louca no espelho. Seu amigo corvo continuou em seu ombro, em silêncio e imóvel. Ele precisava de um nome, afinal. Doyle ergueu o antebraço e o pássaro voou para ele, ficando cara-a-cara com o dono.
— Seu nome será Edgar — nomeou-o, passando a mão livre nas penas completamente pretas do bicho.
Após aquilo, Edgar voou para a extremidade do espelho, e Doyle apressou-se em vestir-se de modo adequado para conversar com Hortensius e matar sua curiosidade. Há algum tempo, havia pedido um empréstimo ao banco de Londres, e, tendo Leon como amigo, achou que seria mais fácil que ele entendesse sua situação. Será que Ogamas havia lhe dado o que precisava, afinal? Será que amava, de fato, a ex mulher? O viúvo estava finalmente pronto, vestido adequadamente, ele desceu as escadas até a sala de estar confortável e bem iluminada.
Edgar estava empoleirado no ombro direito, como de costume, e o velho banqueiro empalideceu ao ver o corvo, soltando a xícara de chá na mesa de centro.
— Não se preocupe com o animal, não fará nenhum mal — Doyle estendeu a mão para que Hortensius a apertasse — Quanto tempo, Leon.
— É... — fez um esforço para levantar do sofá e apertar a mão do anfitrião, obrigando seus olhos a olharem para ele e não para o bicho de estimação — De fato, há muito tempo.
A governanta havia preparado um ótimo desjejum naquela mesa de centro, mas Alexander estava tão interessado no assunto que Leon trazia consigo que a comida não lhe pareceu convidativa o suficiente. Edgar voou do ombro do dono para além da janela que estava aberta, provavelmente não via nenhum perigo para proteger a seu mestre ali.
— Então, Hortensius, não esperava uma visita nesta manhã, mas deve ser um assunto urgente, se não avisou a vinda — o tom que usou beirou a reclamação, mas um sorriso simpático se formou enquanto ele se acomodava em sua poltrona.
— Ah, claro... Peço perdão por isso, meu caro. Não queria atrapalhar o começo do seu dia, mas como estava passando por perto, decidi ser uma boa hora — Leon sentou-se no mesmo sofá em que estava sentado antes de Alexander chegar, e tomou a xícara em suas mãos novamente — Sobre o empréstimo que havias me pedido há alguns meses.
Alguns papéis foram colocados em cima da mesa de centro, documentos e escrituras do terreno que Doyle tinha em seu nome. Ele olhou aquilo com as sobrancelhas erguidas, claramente em confusão.
— Nenhum dos papéis que lhe enviei são válidos? Veja bem, Leon, tudo que você pediu está aí...
— Entenda, Alexander — interrompeu, erguendo o indicador, o que deixou Doyle levemente irritado — Você nunca teve lucro com nenhuma das colheitas das suas terras em 5 anos. Não havia qualidade em nada no seu plantio.
— E mesmo assim você aceitou me atender pessoalmente.
— Ainda estou pensando no seu caso, mas não vim aqui pra isso.
— Oh, não? — então, ele ainda não tinha resposta do seu dinheiro ou não, mas ainda acreditava que conseguiria amolecer o velho até conseguir, Leon costumava ser bem solícito — E o que te traz até minha casa?
— Daqui a algumas semanas, minha filha mais velha irá se casar, e eu queria que você comparecesse até a festa. Até lá, eu terei pensado sobre a questão do empréstimo.
— Uma festa? — não se sentiu muito bem em aceitar aquele convite — Não será apenas para sua família? Não acho que seja adequado que eu compareça.
— Se eu estou lhe chamando, Alexander, é adequado. E não será apenas a família, chamei várias figuras importantes de Londres. Por Deus, Doyle, fazem anos que você não sai dessa cidade.
Desde que Alexander casou-se com Katherine, e se mudou para a casa que havia herdado, nunca mais saiu de Rye, no máximo, para pedir empréstimos em Londres — onde havia conhecido a ex-esposa, e, onde Hortensius morava. Quando era mais jovem, no início da vida adulta, onde a independência era algo novo, e tudo era muito boêmio, Alexander se aventurou em bordéis, bares, prostíbulos e tudo que poderia lhe proporcionar prazeres. Conheceu Katherine nessas indas e vindas nas ruas londrinas, e confundiu o desejo carnal com amor, afundando-se em um casamento.
Claro, uma festança de casamento não se comparava nada com os tipos de festas que costumava frequentar, mas aquilo traziam à tona lembranças trancafiadas nos confins de sua memória. Pensou por alguns segundos, encarando o homem na sua frente. O corvo voltou para a sala de estar, e Alexander ergueu o antebraço para que ele se empoleirasse ali.
— Tudo bem, Leon. Eu irei até essa festa. — achou a decisão mais sensata a se tomar, pensou na possibilidade da sua resposta, dependendo de qual fosse, influenciasse no seu possível empréstimo ou não.
— Ótimo, aqui está o convite, e, por favor... Fique a vontade para levar seu... — Hortensius levantou-se do sofá e colocou de volta a cartola que estava no colo, arrumou suas vestes e sorriu — bichinho de estimação.
Doyle apenas sorriu sem mostrar-lhe os dentes, fazendo carinho nas penas de Edgar, assistindo o amigo deixar a sala de estar apressado, talvez ainda temesse o corvo. Finalmente sozinho, ordenou que o pássaro trouxesse o convite deixado sobre a mesa de centro, e assim ele fez. Alexander abriu o lacre de cera prensado com o brasão da família, e retirou de dentro do envelope o convite, de fato, onde haviam todas as informações.
Conhecia as filhas de Hortensius apenas pelo nome, e sabia que eram jovens de idades parecidas, nada além disso. A que iria se casar se chamava Eugine, como tinha escrito no convite em uma caligrafia bem trabalhada. Enfim, depois de contemplar o papel, organizou-o como estava antes, e levantou-se para continuar seu dia.
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Arrependimento e Sacrifício
FantasyHá algum tempo atrás, nas terras inglesas, um rumor corria entre os marinheiros que paravam em uma cidade litorânea, afirmavam a existência de uma criatura mística e de natureza maléfica, que prometia dar qualquer coisa que os homens almejassem. Con...