Capítulo 4.

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          Os dias haviam se passado, e ninguém havia perguntado por Katherine, nenhum policial havia batido em sua porta, nem mesmo o barista Harry, da taverna que Doyle costumava frequentar, perguntou sobre como estava indo o casamento — coisa que ele sempre fazia no mesmo segundo que Alexander sentava-se próximo ao balcão. Ogamas havia ajudado a alma de Doyle por algum motivo, e ele mesmo sabia disso, mas não iria enfrentar o animal de natureza, tal vez, demoníaca. Depois do episódio constrangedor com a governanta, já não tocou no nome da falecida mulher outra vez.

          Havia dormido bem, como se o próprio Morfeu tivesse ninado-o para que descansasse; bem, na verdade, estava adormecendo maravilhosamente bem desde que matara Katherine. Edgar estava batendo as asas para fora do quarto quando o seu dono abriu os olhos azuis pela primeira vez no dia. Era o casamento da filha de Hortensius. Levantou-se despindo-se da preguiça matinal e lavou o rosto, secou-o e saiu dos seus aposentos para o quarto de vestir, a fim de escolher vestes que pudessem impressionar o caro amigo.

           Alexander era vaidoso, então, fazia questão de apresentar-se como um homem elegante e culto, talvez, iludir tanto a visão daquele que o vê, para que constatem que ele poderia ser, sim, um nobre inglês. Vestia-se de preto da cabeça aos pés, mas decidiu escolher uma camisa branca para contrastar com o colete preto, assim como o restante dos tecidos.

          Tendo banhado-se, colocou suas vestes previamente escolhidas e sua cartola. As ervas que colocara em sua água quente fizeram um ótimo trabalho em perfuma-lo, e os cabelos negros haviam acordado bem alinhados. Pronto para cavalgar até o palacete em que aconteceria a festa, entrou nos seus aposentos mais uma vez, em busca de um pássaro de penas incrivelmente negras, Edgar, que lhe acompanharia durante a viagem. Não demorou para que ele voltasse para o ombro de seu mestre, o saudando, dizendo seu nome.

"Alexander" crocitou o corvo, que fez o homem assustar-se. Não era de sua ciência o fato de que corvos podiam falar, tal qual papagaios.

          Ficou paralisado por alguns minutos, processando o fato de que o bicho de estimação havia acabado de falar seu nome. Fez carinho nas penas brilhantes e saiu do cômodo. Um de seus empregados, ao vê-lo descer as escadas, perguntou-o:

— Devo dispensar os empregados esta noite, patrão?

— Por que  eu iria dispensá-los pela noite, Ernest? — Ao final dos degraus, parou de frente para o grisalho.

— O senhor não vai... — ele limpou a garganta, certamente, buscando coragem — trazer alguma dama?

          Teria caído na gargalhada se não tivesse raciocinado e concluído que, na cabeça dos seus subordinados, não era um viúvo, e sim, solteiro. O mesmo jovem Doyle que costumava encher sua casa de prostitutas e barris de vinho. E por quê não voltar aos seus bons tempos? Mas, não. Não naquela noite. Não iria trazer nenhuma das convidadas do casamento de uma desconhecida para sua cama.

— Não irei. Mas... — ponderou — estão dispensados esta noite. Não sei a que horas volto, talvez apenas pela tarde de amanhã.

— Como quiser, senhor. Boa festa — Ernest entregou o envelope do convite ao homem mais alto à sua frente e sumiu pelos corredores.

          Doyle enfiou o papel no bolso interno do casaco pesado que havia colocado, já que o céu não estava límpido, e um vento frio corria, tanto que, assobiava entre as frestas das janelas e portas de sua residência. Alexander foi até o estábulo e acordou sua égua, fazendo carícias na crina escura, e tomando as rédeas da mesma para que ela o acompanhasse e fosse até a porteira, onde finalmente montou, com Edgar empoleirado em seu ombro direito. Não demorou para que começasse a cavalgar.

Arrependimento e SacrifícioOnde histórias criam vida. Descubra agora