Capítulo 8.

10 1 0
                                    


          As gargalhadas do casal enamorado preenchia os espaços vazios das árvores que seguiam até a clareira. Doyle conseguia ouvir a voz doce de Eden ecoando pelos troncos, e seus pés amassando a grama, contudo, tudo que seus olhos captavam da mulher eram os cabelos loiros esvoaçantes e a barra da saia de seu vestido longo. A corrida dos dois chegou ao fim quando Alexander saiu debaixo das copas das árvores e chegou até a margem do pequeno lago. Mas algo lhe parecia estranho, não a via em lugar nenhum, não escutava mais sua risada ou seus cabelos dourados refletirem a luz tímida do sol.

          Olhava em volta. Seus olhos azuis estavam aflitos, e seu cenho franzido em preocupação. A voz do homem começou a esbravejar em busca de uma resposta da jovem moça, que continuava em silêncio. Não havia a possibilidade de se perder, afinal, a vegetação não era densa, e a caminhada não tomou muito tempo dos dois. A confusão apenas crescia em seu interior enquanto andava com passos largos ao redor das águas quietas da clareira. Alexander passou ambas as mãos pelos cabelos, e virou seu corpo novamente para o conjunto arbóreo que se agigantava atrás de si; logo, ouviu uma risada. Uma risada que já conhecia, mas não lhe fazia sentir graça alguma, não era sinônimo de nada bom, mas sim, de morte. Se tratava dele, Ogomas.

          "Não, não pode ser. Ele não estaria aqui, ele não me perseguiria. Por que o faria, afinal?" pensou o homem. Cismado e torcendo para que tivesse chegado a uma conclusão precipitada, girou seus calcanhares, enquanto seu rosto se mantinha em hesitação, pois não queria ser amaldiçoado com a face do monstro novamente. O pesadelo daquela manhã não havia sido o bastante? As orbes azuis encontraram a pele viscosa e a cabeça calva do ser místico maléfico, que de alguma maneira, ainda detinha algum poder sobre ele, o fazendo cair em truques mentais, e agora, aparentemente, ilusórios. Doyle estufou o peito de coragem, se aproximando da água do lago, que agora, estava escura e cruelmente fria.

— Onde ela está!? Responda-me agora, criatura insolente! — de seus lábios, a fúria era perceptível, pois o homem impunha toda a raiva que tinha nele, afinal, estava se sentindo profundamente enganado. E não tolerava ser feito de tolo.

— No seu lugar, não ousaria me ofender... sorte a sua que eu não me sinto afetado pelas palavras de um homem capaz de matar a própria esposa por terras miseráveis. — mesmo grande e gordo, a criatura híbrida, serpentinosa e abominável, o lago parecia acomodá-lo bem. Uma névoa havia invadido o cenário que, mesmo nublado, não parecia deprimente, então, Ogomas continuou: — Venha procurá-la, homenzinho. 

          A provocação do atormentador demorou a ser levada a sério por Doyle, pois, como ela poderia estar ali? Havia perdido-a de vista, havia procurado sua risada e observado cada canto de sua paisagem, o que seus sentidos tinham deixado passar? E então, o surreal lhe invadiu os sentidos. Na superfície da pequena clareira, rostos humanos boiavam com as bocas abertas e olhos revirados, mostrando apenas a parte sem cor, algo que deixava-os com um aspecto ainda pior. As botas do lorde entraram na água, encharcando seus pés, e logo suas panturrilhas. Olhava em volta, vasculhando a água, e para sua surpresa, encontrou um rosto familiar, e não era o que estava à procura, era o de Katherine. Aproximou seu rosto de forma curiosa, e ao se aproximar além da conta, o cadáver de sua falecida esposa direcionou as íris castanhas para o marido, e de sua garganta, um grito agudo escapou. Grito este que poderia estar preso em seu corpo e alma desde que o próprio Doyle tinha enterrado uma adaga em seu peito, e jogado seu corpo ao inferno.

           Não parecia ser humano, não se assimilava com a voz de Katherine, mas entrava no organismo de Alexander e afetava seus tímpanos, lhe causando uma dor extrema, tontura e agonia. As mãos do homem taparam seus ouvidos a fim de proteger-se daquele barulho estridente. Começou a caminhar para o centro do pequeno lago, fugindo daquele fantasma, enquanto chamava por Eden; mas, algo segurou sua panturrilha, impedindo que avançasse mais e se distanciasse dos berros angustiantes. Enquanto fazia um esforço desgastante para tentar livrar suas pernas do domínio desconhecido, chamava, ainda, pela moça que o acompanhava instantes atrás. Precisava ser ainda mais forte, ou quem sabe até bruto, pois o seu inimigo o puxava com muito êxito, e obtendo sucesso em imobilizá-lo. Irado, completamente cansado de ter sua sanidade testada, Alexander reuniu forças do cansaço, e em um movimento ágil, sentiu algo se desprendendo do fundo das águas, e lentamente deixar os músculos do rapaz se mexerem sem contratempos. Ainda sim, quando o inglês deu seu próximo passo, caiu em um buraco.

          Toda a sua infância havia se passado naqueles campos, banhava-se ali desde que aprendera a nadar, ainda muito pequeno, e nunca havia percebido uma zona tão profunda, e mesmo sabendo como nadar e boiar, a força que residia no fundo daquele vazio o puxava com veracidade, buscando o sofrimento de Doyle. Estava sufocando rapidamente, seus pulmões estavam enchendo-se das águas de onde cresceu, de onde guardava memórias afetivas, mas, que estavam tão enterradas no fundo de sua alma, que apenas ressurgiram diante da face horrenda da morte. Pouco o importava morrer, não havia ninguém o esperando ao voltar para casa, mas encontrar Eden, isso sim, o importava. Como poderia ter sido tão incompetente em fazer com que ela escapasse de seus sentidos? Gradativamente, o lorde sentia-se desligando de seu corpo.

— Alexander! Oh, céus, Senhor Doyle! Por favor, me ajude, Ernest, rápido...

          Escutou uma voz distante, e animado com a possibilidade de ainda existir uma saída para aquele pesadelo, abriu seus olhos azuis, e pasmo, percebeu que estava encarando as pedras que se amontoavam no fundo do lago. Mas as águas não estavam turvas nem escuras, enxergava nitidamente, poderia até descrever o que captava para um artista, e ele reproduziria exatamente o que de seus lábios lhes descrevessem. Desajeitado, tossindo, e completamente perturbado pelo que havia acabado de acontecer, Alexander levantou sua cabeça. Estava deitado de bruços as margens das águas, e mesmo que seu corpo só estivesse da cabeça a sua cintura dentro d'água, toda a extensão de seu corpo estava inteiramente encharcada, e onde haviam o agarrado, um rasgo tinha sido feito na calça de linho. Doyle levantou, ainda expulsando o líquido que tinha invadido seus pulmões. Ernest, vendo seu patrão pingando, e avaliando que aquela não era uma boa condição para estar debaixo de um céu nublado, logo estendeu o roupão que providenciou quando a convidada foi buscar ajuda.

          A senhorita Hortensius havia realmente se distanciado de Doyle. Tinha em mente esperar um pouco atrás de um tronco largo e aparecer magicamente para assustar o novo namorado, porém, ao deixar seu esconderijo e ir de encontro a ele, o homem estava petrificado. Não mexia um músculo, e seus olhos estavam estáticos, sem vida. Ao menos piscava ou mexia o peito, indicando que respirava. Segurou seus ombros e começou a chacoalhar o mais alto violentamente, impedindo que ele começasse a andar em direção ao lago, já que julgou — corretamente — que não era um bom estado para um banho. Como se soubesse o que estava acontecendo com seu dono, Edgar chegou na cena batendo suas asas sobre a cabeça de Eden, observando com seu ar de sabichão. A loira pediu por ajuda, mesmo que soasse tolice esperar uma ação eficaz de um corvo.

           O pássaro usou seu bico para segurar a calça do humano, impedindo, por alguns segundos, que ele desse um passo. A senhorita Eden, no entanto, corria até a casa em busca de funcionários para ajudar. Explicou que o patrão queria mergulhar sob condições inoportunas, e que precisava de suporte para resgatá-lo daquela situação, Ernest, então, foi o primeiro a ser contatado, e julgado o suficiente para auxiliar a moça naquela situação inusitada. Ao retornar à pequena clareira onde deveria ter permanecido com tranquilidade e sem imprevistos, o inglês estava caído, todo ensopado, afogando-se. Senhorita Hortensius não tinha a impressão de que o homem com quem estava se envolvendo era um suicida, mas, parecia doente. Atarantado com algo que aprisiona sua mente, e isso, na sua conclusão, provocava reações impulsivas. O corvo voou para o antebraço de Eden, pois Ernest o espantou com o roupão. Ambos chamavam pelo patrão, mas só depois de alguns minutos, a lamúria da filha do banqueiro foi ouvida.

— Precisas ir embora, — foram as primeiras palavras que Alexander disse após se recuperar da tosse — agora, senhorita. 

Arrependimento e SacrifícioOnde histórias criam vida. Descubra agora