Capítulo 5.

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           Alguns dias haviam se passado desde o acidente na casa de Leon. Alexander estava se recuperando aos poucos do ferimento em seu abdômen, felizmente, a governanta tinha receitas de chás medicinais para a dor, e um contato de um bom médico. Mas o rapaz insistia em lembrar de Eden, de como ela havia sido gentil. Queria vê-la novamente, mas não podia simplesmente ir até a casa dos Hortensius novamente.

           O dia passou-se calmamente como todos os outros, pacato, sem nenhuma ocupação realmente boa. Não podia sair de casa para ir até o centro de Rye, afinal, ainda estava com a barriga costurada, e por não faltar muito para retirar os pontos, não arriscaria que a ferida abrisse novamente somente pelo tédio. Sem contar com o fato de que uma tempestade começou a cair em Rye após o pôr do sol, sem dar nenhuma pequena trégua desde que começara.

          Após tomar um chá de arnica — que não apetecia seu paladar de forma alguma —, se acomodou em seus aposentos com a companhia de Edgar, imponente ao lado de sua cama. Já faziam algumas horas que a lua tomava sua posição no céu estrelado, e Alexander ocupou-se com um livro antes de cair no sono com o objeto aberto sobre seu peito descoberto.

          Acordou com um vento frio soprando em seu rosto, ainda era madrugada, havia adormecido contra sua vontade. A vela que havia acendido no móvel de apoio ao lado da cama já havia sido totalmente consumida pela chama do pavio, e seu animal de estimação dormia profundamente. Esticou seus braços para espreguiçar-se, e logo deitar-se em uma posição mais confortável para voltar a dormir, e teria o feito, se não fosse um barulho estrondoso vindo do andar de baixo.

          Saltou de sua cama do jeito que estava, não se preocupou em colocar uma camisa ou casaco, se alguém estivesse tentando invadir sua casa, daria um jeito nisso. Alexander saiu de seus aposentos, desceu as escadas até o piso e antes de ir procurar de onde vinha o barulho — que naquela altura, estava ficando mais alto e mais intenso, era nítido que alguém estava tentando entrar a todo custo — foi até a sala de chá e pegou um espalhador de brasa da sua lareira. Se perguntou como nenhum de seus cavalos havia começado a relinchar, afinal, o estábulo não ficava muito distante da porta da cozinha que dava para os fundos da casa. Esgueirando-se pelas paredes, olhando de lado para a porta, esperou que finalmente a pessoa conseguisse arrombar a fechadura, que estava prestes a sair da madeira da porta. No momento em que a porta foi escancarada pela força do sujeito e pelo vento, Alexander surgiu na frente do invasor e ergueu o espalha brasa para amedrontar o sujeito de baixa estatura, que recuou, colocando os braços em frente ao rosto.

— O que você pensa que está fazendo!? Entrando na minha casa desse jeito, só pode estar louco! — gritava Alexander — Quem é você?

— Eden Hortensius, senhor! — gritou a voz feminina, tremendo. Não soube dizer se era de frio ou medo, talvez os dois — Mil perdões, não tinha como intenção roubá-lo ou perturbar seu sono...

— Senhorita Hortensius? — interrompeu a mulher e abaixou sua arma, que agora percebia que era um pouco patética — O que fazes uma hora dessas debaixo de chuva? Deveria estar em casa.

          Soltou o espalhador de brasa e de imediato, acendeu uma lamparina. A luz quente proveniente da chama de calor iluminou timidamente o cômodo e seu corpo tenso ao encontrá-la tentando invadir sua cozinha. Eden agora sabia o motivo pelo qual o morador sabia seu nome, e a confusão em sua cabeça foi amenizada, ainda se perguntava como o destino havia a colocado na porta dele. Não estava mais com medo de ser agredida, presa ou jogada para a chuva novamente, no fundo, estava agradecida por aquela tempestade ter feito com que eles se reencontrassem.

          Alexander não foi o único que passou os últimos dias pensando naquele episódio curioso da apunhalada com uma faca de cozinha. Do mesmo jeito que a face encantadora de Eden havia ficado marcada em sua memória, a mulher não conseguia parar de imaginá-lo com ela, no mesmo divã, conversando, rindo sobre o acontecido.

          Sonhou diversas vezes com a pessoa de Doyle, e agora, o olhando novamente, seu rosto masculino ainda era repleto de mistério e nobreza, suas costas eram da exata largura que havia memorizado, e suas mãos continuavam pálidas e alongadas. Não pode ignorar o fato de que ele estava sem camisa cobrindo seu peitoral, mas não foi um fator relevante para impedi-la de abraçá-lo.

Arrependimento e SacrifícioOnde histórias criam vida. Descubra agora