Capítulo 16

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CAPÍTULO DEZESSEIS

TENTE novamente.— Sebastian ordenou.

Iris levantou as mãos mais uma vez na frente do corpo e tentou focar na água, imaginando-a se movendo de alguma forma, mas nada aconteceu.

Merda.

Ela sentiu vontade de gritar e colocar a frustração para fora.

O som de passos se aproximando fez com que desviasse o olhar do lago. Iris viu Lissa e Gabriel se aproximando.

— O que eles estão fazendo aqui?— Ela perguntou a Sebastian. Iris virou-se para ele abaixando os braços, sentindo as bochechas voltarem a corar, agora de vergonha por ter os companheiros de equipe ali enquanto fracassava.

— O treinamento será aqui hoje.— O Mestre virou-se para receber os outros dois.

— Iris.—  Gabriel começou se aproximando. Ele parou a alguns passos de distância e cruzou os braços na frente do corpo. A garota revirou os olhos.— Estamos no seu possível habitat natural?

— Óbvio que não. Afinal, um esquisito que nem você não seria bem-vindo.

Ao dizer aquilo, Iris se deu conta de que Gabriel não estava usando o colã ridículo dos dias anteriores. Desta vez, o príncipe vestia uma camisa de algodão branca e calça preta de tecido fino.

Teria ele percebido o quão patético era o colã?

— Não perca o foco, Iris.— Sebastian os cortou em suas farpas que já viravam costumeiras.

O olhar dela alternou entre o Mestre e o lago atrás deles.

—Eu...Eu...— 'Eu não estou conseguindo fazer isso', Iris queria dizer, mas seu orgulho era maior, e ela sabia que não conseguiria falar isso na frente de Gabriel e Lissa.

Eles eram tão bons.

Não era surpresa nenhuma que Iris era horrível e fraca, mas dizer isso em voz alta, na frente deles, seria o fim. Iris queria ter o respeito deles, mesmo negando que não, que não deveria se importar com o que eles pensavam. Mas ela os admirava, e queria que esse sentimento fosse recíproco. Mesmo trocando farpas com Gabriel, e o achando arrogante e mimado, reconhecia que ele era ótimo em ser um Dominator.

— Você continua treinando aqui, enquanto acompanho os outros.— Sebastian disse a ela.

— Isso não está dando certo.— A voz de Iris saiu entre dentes, esganiçada. Ela queria gritar com ele.

O olhar gélido de Sebastian a calou, fazendo-a engolir em seco.

Iris observou os três se distanciarem, deixando-a sozinha perto do lago que começava a irritar.

Ela fechou os olhos e tentou, de novo, esvaziar a mente, focar-se na água, na sua temperatura, densidade e cor. Entretanto, Iris sabia que, mesmo de longe, os olhos de Sebastian estavam sobre ela, assim como os de Lissa e o de Gabriel.

Ela estava muito consciente disso.

Iris tentou expulsar os pensamentos da cabeça, concentrando-se em movimentar a água. Ela abriu os olhos determinada e posicionou as mãos na frente do corpo.

Vamos lá. Vamos lá.

A cabeça da garota voltou a doer, e depois de algum tempo, Iris sentiu a visão escurecer.

Ela estava exausta.

Olhando para os companheiros de equipe, Iris os viu se aquecerem e depois começarem a praticar os golpes que Sebastian havia ensinado no dia anterior. Eles haviam treinado em casa, era óbvio, pois os movimentos chegavam quase a perfeição.

Iris sentiu-se encolher por dentro.

Enquanto eles treinavam duro todo o resto do dia de treinamento, ela havia capotado e só acordado de manhã. Em nenhum momento havia se quer passado em sua cabeça treinar depois do "expediente".

Eu preciso me dedicar mais., Iris pensou, chateada com aquilo.

Iris ficou no canto dela, tentando fazer a maldita água se movimentar, nem que fosse só um pouquinho, mas nada adiantava. Com o passar das horas, percebeu que na verdade só estava matando tempo, pois sua cabeça latejava tamanho o esforço mental que fazia, e ela se quer conseguia manter o mínimo de foco necessário.

Quando Sebastian os liberou, agradeceu aos céus e voltou para a Casa Aurora se rastejando, forçando-se a colocar um pé atrás do outro. Desta vez o cansaço que sentia não era físico, e sim mental, o que era mil vezes pior. Ela queria se dedicar mais, treinar mais, para, quem sabe, ser metade do que Lissa e Gabriel eram, mas estava acabada.

Sebastian tinha razão quando lhe cobrava mais resistência.

Ao passar pelas portas de entrada do prédio, Iris deu de cara com a Sra. Duncan, que a esperava de braços cruzados e batendo o pé.

— Boa tarde, Sra. Duncan.— Iris falou cautelosamente, sabendo que pela cara da velhota, não vinha coisa boa.

— Boa tarde, Sra. Duncan? BOA TARDE?— Vociferou.— Menina, você tem idéia de como fiquei preocupada com você ontem e hoje?— Ela começou um sermão, e Iris foi pega de surpresa.

Definitivamente não esperando aquilo.

Iris já estava até começando a refazer os passos, procurando algo que havia feito que a velhota poderia não ter gostado. Com certeza não tinha imaginado que a cara emburrada da senhora era porque estava preocupada com ela.

— Te chamei inúmeras vezes ontem no seu quarto, mas você não respondia. E hoje saiu tão cedo que nem pude ver se estava inteira.— A Sra. Duncan continuou a falar, e a única coisa que Iris conseguiu fazer foi soltar um sorriso bobo.— O que você está achando engraçado?— Ela apontou a bengala para Iris, semi cerrando os olhos ameaçadoramente.

— Nada, nada.— Iris logo tratou em dizer, dando alguns passos para trás discretamente antes que recebesse algumas bengaladas. Entretanto, o sorriso não saiu dos lábios da garota.— Eu só não esperava que a senhora se importasse tanto assim comigo.

— Ora, criança.— Ela falou aliviando um pouco o tom de voz e o olhar. A Sra. Duncan abaixou a bengala, fazendo com que Iris voltasse a respirar normalmente.— É claro que me importo. Me importo com todos os meus meninos e meninas. Vocês são como filhos para mim.

A velhota fez uma pausa para a analisar, olhando-a com aqueles olhos castanhos que agora transmitiam ternura e compaixão. Por um momento, Iris sentiu-se uma criancinha ouvindo um sermão de vó.

— Iris, sei que ser abandonada é difícil e doloroso, ainda mais na sua idade.— As palavras da senhora tocaram em uma ferida no coração de Iris que ainda sangrava.— Mas você não pode deixar de se cuidar, de se alimentar. Para se ter um bom empenho no treinamento, você não pode estar desmaiando de fome. Suba para seu quarto, tome um banho e desça para almoçar, por favor.

— Tudo bem, Sra. Duncan.— Iris achou a voz no fundo da garganta, e se viu segurando as lágrimas que umideceram os olhos.— Obrigada.

— Imagina, menina. Agora vá.

Iris obedeceu as ordens da velha e passou por ela com a cabeça baixa, indo em direção as escadas. A garota subiu os lances até seu andar com dificuldade. Além do cansaço físico e mental, as lágrimas grossas que escorriam pelas bochechas de Iris e embaçavam sua visão dificultavam todo o processo.

As palavras da Sra. Duncan haviam tocado em em assunto no qual ela vinha tentando não pensar, esquecer. Iris sabia que estava sendo tola. Nunca poderia esquecer a mãe ou o que havia acontecido entre elas.

Iris sentia falta dela. Muita.

Sentia falta do apoio, das palavras reconfortantes e do gênio forte de Érika, que até lembrava o da Sra. Duncan. Iris estava com saudades dela, de saber se estava bem, de ter um colo para deitar a cabeça e contar como estava sendo horrível no treinamento.

Iris entrou debaixo do chuveiro, e somente quando sentiu as lágrimas cessarem e os músculos relaxarem, desligou, vestindo uma roupa confortável.

Estava terminando de se arrumar quando ouviu alguém batendo na porta.

Miles.

***

Lost Mirror | Livro 1Histórias para pegar e não largar. Descubra agora