Ela não assiste animes e eu não uso social

8 0 5
                                    

Abro a porta do apartamento logo depois de subir seis lances de escadas até o terceiro andar, jogo a mochila no canto da sala e... oh por favor, não se iluda com meu apartamento, não é grande. É pequeno, pouco mobiliado, com móveis em tons amadeirados, ele teria uma aparência minimalista se não fosse pelos desenhos nas paredes (todos coloridos) e as plantas, mais especificamente suculentas, cactos e plantas carnívoras, elas são mais fáceis de cuidar e eu posso me esquecer de regá-las ou adubá-las alguns dias e mesmo assim elas não morreram. Na cozinha, igualmente minúscula, tem garrafas pet com temperos plantados, essas plantas estão ali para me lembrar de ser responsável, e também para me poupar de ter que sair às 7 horas da noite para comprar salsa!
Me dirijo ao chuveiro e permito que as gotas pesadas e frias (Afinal hoje é uma noite quente, uma ótima oportunidade de economizar energia) levem pelo ralo todo o calor que abrazava meu peito e as pontas dos dedos, tais que só queriam tocar a pele dela. Escoro na parede, o frio da água não é algo ruim. Já na cama, encaro o teto, ele está muito vazio, talvez eu desenhe algo... hm... um polvo talvez, polvos são incríveis, eles são fortes mas flexíveis, mas um polvo sozinho seria mais solitário que um teto vazio. Um polvo com alguém? Dois polvos? Não, polvos são solitários, então ele precisa de uma distração, mas o que? Pincéis e tinta? Não. Algo do mar, como um barco, bússola ou âncora? Ele é um polvo gigante? Já sei! Estrelas! Existe combinação mais perfeita e mais distante do que mar e céu? Um polvo com estrelas, sol e lua! Bom, esse pensamento quase me fez esquecer a dor nas costelas, vai ser osso para dormir, ela bateu bem nas costelas esquerdas, o lado que eu uso para dormir. Apanhei um travesseiro e o abracei, talvez ajude. Ajudaria mais se fosse ela. Como é possível? Na hora que ela me atropelou, aquela moça loira era só uma mulher aleatória com cheiro engraçado, mas quando me lembrei, ela passou a ser simplesmente a garota que eu me apaixonei. E minha mãe que costumava me dizer que crianças não se apaixonam, não amam, bem, essa teoria acaba de cair por terra, eu ainda me lembro do ciúme que senti quando ela começou a namorar na escola. E a sensação boa que era estar com ela, ela era bem esquisitinha, mas quem disse que eu era dos normais?
As pálpebras estavam pesando.

* * *
O despertador tocou, já são 6 horas, eu sei que ontem às 6 horas eu já estava na rua mas isso era para impressionar a" novata misteriosa" , agora ela já sabe o tipo de cara que eu sou, chegar cedo seria um desperdício. Levantei com o estalo das costas me avisando que dormir do lado direito vai envelhecer minha coluna no mínimo uns 5 anos. Hoje não vai ter exercício. Engoli um remédio para dor, talvez eu tome mais um depois do café. Os pães de queijo e o suco desceram mal não era bom nem mesmo o jeito que eu me sentava para comer. Pensando bem, foi bom ela não ter vindo ontem, seria uma droga com as costelas assim e eu queria aproveitar todo o momento, cada respiração, cada... preciso me distrair. Troquei de roupa mas o tempo se arrastava, vou ler algo, agarrei uma revista de mangá, comecei a folhear e levaram 10 minutos até que eu notasse que estava lendo do lado errado.
Finalmente os ponteiros do relógio me empurraram para fora do apartamento, agarrei a bike e acenei para a Marshmallow, antes de subir e pedalar até a loja. Gabriela já estava lá, e pelo jeito B.B. arranjou alguém que ama café tanto quanto ele, o grandalhão abasteceu a caneca da moça com um ar bastante satisfeito.
_Então, me diz, Gabi... _"Gabi? Estão íntimos. _ Qual seu anime preferido?
_Eu não assisto animes. _ direta e serena, ela levou a caneca até a boca e tomou um gole de café como se estivesse sendo revivida.

_O que? É sério? _Eu podia ver o espanto nos olhos do meu chefe.
_ Sério, não tenho paciência, as vezes assisto filme. Gostei de alguns da Marvel.
_Só?! _Eu sabia que o assunto o escandaliza de verdade quando ele parava a caneca de café há alguns centímetros do bigode platinado.
_Sim.
_Não creio! _ Sua mão estalou na madeira do balcão_ Então você precisa assistir "One Piece"! É engraçado, tem uma história top, enredo top...
_E mil episódios literais. _Cortei-o.
_Mil?!_Gabriela quase cuspiu o café.
_Mas isso é só um detalhe. _O Barba rosnou pra mim.
_Um detalhe que pesará bastante quando você chegar no Episódio 100 e perceber que acabou finalmente de ver 10% da saga.
_Eu não vou ver isso.
_Mas... mas..._ B.B. estava a ponto de infartar . _ Você trabalha em uma loja de artigos majoritariamente otakus! _Foi incrível vê-lo juntar "majoritariamente" e "otakus" na mesma frase.
_Hm... _ A última golada de café se foi. _ mas eu sou a caixa, eu lido com o financeiro! Ele que atende os clientes! _Ela apontou em minha direção.
_Ela está certa.
_Eu vou embora. _ Ele se foi, não sem antes agarrar a sua garrafa de café, aquilo era seu tesouro. Rimos um pouco e depois eu fui tirar o pó das figuras de ação enquanto ela contava as notas no caixa. Estava até silencioso quando ela começou um assunto depois de raspar a garganta:
_Como foi a noite?
_Solitária, eu diria.
_"Tô" falando das costelas.
_Dói ainda. _Sorri.
_Hm. Eu não imaginava que você mudaria tanto.
Parei de tirar o pó e me virei ainda sorrindo:
_Mudar?
_É, fisicamente você mudou muito, cresceu! Quero dizer, é óbvio que você cresceu, eu também, mas está muito diferente, e o seu jeito, ainda é o mesmo mas... a forma como vc tá lidando... eu não sei.
_Vamos, fale pra mim.
_Eu sabia que vc mudaria, mas achei que vc seguiria o principal.
_Vai fala.
_Ta ok, você encara o sexo como diversão barata, tô certa? Tipo, banaliza.
_Mas quem disse que eu banalizo?
_Foi o que pareceu.
Me virei para a estante e sua poeira:
_Bem, não sou assim. _Olhei por cima dos ombros apenas para me deparar com seu olhar na gaveta. _ Eu sou o tipo que gosta de enxergar beleza e arte nas coisas. Corpos são arte. Curvas, ângulos, músculos e ossos, manchas e pintas, cores e sombras, isso me atrai, eu não nego. Porque é arte. Quando vejo alguém atraente de alguma forma, eu quero me aproximar, e se possível tocar. E eu posso fazer isso quando me deixam, você me entendeu. É gostoso, eu não vou negar, eu quero mesmo sentir e ouvir. É dança, é música. É envolvente. _Dei uma pausa e me curvei para olhá-lá, sua mão repousava na cintura e seus olhos me encaravam como se ela estivesse me lendo. _ Jamais banalizei o sexo, tanto é que acho pornô tosco. Eu admiro tanto o sexo que não me importaria de fazer tds os dias, talvez... E com a pessoa certa, fica melhor ainda.
_Tá.
_"Tá " o que?
_Tá bom. Eu não acho que você esteja errado por achar assim, o sexo é realmente uma arte, é uma união de carnes. Uma arte feita por Deus, é uma aliança entre pessoas, se usado corretamente, faz a gente ver a grandeza de Deus. Mas essa beleza está justamente em seguir as regras, essas ditas por Deus. Quando falo regra, parece algo ruim ou muito chato, como algumas regras humanas, mas essas são para mostrar o sentido, não é uma arte abstrata, é algo que se encaixa, as peças se encaixam no tempo certo, vira algo belo, mas quando feito fora disso, se torna vulgar e banal, deixa de ser aquilo incrível que é, pra se tornar algo que você pode fazer ou alcançar com qualquer um, mas não é pra ser assim. É pra ser algo feito entre pessoas que agora são um entre si. Fora disso, você só está sentindo prazer enfiando uma parte sua em outra pessoa, é sem sentido. _Enquanto falava ela estava totalmente absorta nas próprias palavras, não sei explicar, como se o que ela dissesse não viesse só dela, mas ao mesmo tempo fizesse parte dela. Foi uma declaração solene. Me fez até esquecer que estávamos numa loja nerd/otaku vazia. Ela então suspirou ao final das palavras e relaxou a postura, empurrando os cabelos pra trás.
A prateleira das Figuras já estava limpa então passei para as outras. Ainda havia uma coceira no ar, dava para sentir, quando cheguei na última prateleira eu finalmente soltei:
_Me convença.
_Hm?
_Me mostra que tá errado isso, que é errado eu fazer sexo fora do casamento. Vamos, me diz por que eu não posso colorir em alguém que não casou comigo. _Por que eu ainda tô insistindo nisso?! QUAL O MEU PROBLEMA?!
Seu verde olhar vagou por mim surpreso:
_Bem, nenhum argumento filosófico vai te fazer mudar de idéia. _O que? Ela não vai insistir? Defender uma tese ou sei lá o que?!_ Humanamente falando você está certo.
_Isso... não faz sentido, se eu tô certo por que você insiste nisso?
_Escuta, pra você entender isso, você vai ter que reconhecer o próprio Deus. Não faz sentido se você não reconhecer ele como alguém maior.
_...Anh... me explique Deus.
_Eu não posso, assim ele deixaria de ser Deus. A beleza do evangelho é ser algo que um ser humano não poderia inventar. _A essa altura eu estava confuso, mas o clima estava incrivelmente solene, e ela parecia notar. Então sorriu deixando uma leve risada passar pelos lábios._ Olha que filósofa! Hahaha! Ai, ai. Pois bem, você vai ter que se abrir ao ponto de não ser o dono da razão, pra poder entender.
_Hm. _comecei a ruminar o que ela disse. Talvez fizesse sentido.
Parti para a prateleira de sapatos. Ainda não havia ninguém na loja, e nenhuma pessoa do lado de fora parecia tentada a entrar.
Resolvi reorganizar a prateleira, estava muito tedioso daquele jeito, vou colocar por cores.
Hmmm... Deixar de ser o dono da razão... isso foi um desafio? Eu curto desafios.
_Então, moça, pelo nível do seus argumentos você ainda vai na igreja.
_Sim, não na de antes, afinal, nós nos mudamos. Mas sim, vou, gosto de ir. E você?
_Ah, não. Já faz muito tempo que não sei o que é pisar em uma. _De repente me imaginei pisando em uma igreja, tipo um gigante, num desenho animado... quase ri. Droga, odeio pensamentos retardados, mas faz parte..._ E também, faz muito tempo que não sei o que é usar uma roupa social. Acho que nem lembro mais o cheiro que essas coisas costumavam ter. Eu não uso roupas sociais.
_Por que? E... não precisa usar social... Nem eu sei qual foi a última vez que usei.
_ ok. Não procurei uma igreja para ir. E com o tempo... _Me levantei com a mão no lado. _Com o tempo, acho que virou uma dúvida, eu olho ao redor e não consigo imaginar como coisas tão bonitas surgiram do nada, como artista, é quase burrice querer acreditar nisso, mas... não sei... _Eu vou mesmo entrar nisso?
_Não sabe o que? _Ela inclinou-se sobre o balcão.
_Não sei se acredito naquele Deus pessoal, perto. É estranho essa ideia.
_Me parece reconfortante. _Deu de ombros.
_Talvez. _Massageei os ombros e me inclinei sobre a ponta do balcão, segurando o pano eu o deslizei sobre a superfície até que eu estivesse a centímetros da Gabi, que se afastou com as sobrancelhas retas balançando a cabeça. Então ergui o pano mostrando a sujeira que se escondia entre os mosaicos do balcão.
_Mas... _Eu vou mesmo continuar esse assunto tosco?! _Também pode ser assustador.
_Como?
_Um ser superior, íntimo o bastante para saber o que penso e desejo, mas que não conversa comigo, fez questão de guiar alguém para que esse alguém escrevesse que eu não posso me satisfazer, satisfazer esses desejos, falo de desejos da forma mais pura possível. _Sorri enquanto ela apoiava a mão na perna (e que perna...) E balançava lentamente a cabeça.
_Sim, tem um ser superior que criou esse universo inteiro, ele sabe o meu nome e o seu nome, Ele vive dentro de todos os que aceitam o filho dele... A primeiro olhar não faz sentido, não é pra fazer, não foi um ser humano que pensou isso e colocou a própria lógica física num assunto não físico. Não faz sentido por que se fizesse, novamente digo, ele não seria Deus. A gente pensa dessa forma deturpada por que caímos, é a consequência do que aconteceu no início, você sabe bem da história, afinal você passou a infância ouvindo isso. Um Deus maravilhoso que criou um mundo perfeito, o primeiro casal que conversava diretamente com ele, amigos é a palavra. Um casal inteiramente livre pra fazer o que quisessem, e quiseram desobedecer. O que desenrolou dessa escolha é a consequência, toda escolha têm consequências, a questão é saber se está disposto a levá-las. E elas ecoam até hoje, aquela escolha trouxe morte pra tudo. Mas não vamos jogar a culpa só neles, nós também escolhemos nossos pensamentos, desejos e tudo mais, alguns são consequência dos nossos pecados. _Ela fez uma pausa e direcionou o olhar pra mim._ Ceder a esses impulsos é compactuar com aquela primeira escolha... quebrar a amizade igual eles fizeram no início... Haha, eu sou muito brisada, não sei se consigo explicar bem. Mas é isso, é alguém incrível, pessoal, poderoso o bastante para destruir tudo, mas amoroso e paciente a ponto de dar chances inúmeras e esperar, alguém autossuficiente mas que quer a amizade verdadeira de pessoas como nós. Nos preencher em nossos vazios.
_Duvido que ele possa me preencher assim. _Foi automático.
_Bem, Ele...
_Bom Dia! _Um cliente apareceu sorridente, devo confessar, é raro ver um adolescente sorrindo assim estando sozinho, geralmente eles sorriem em bando.
Eu deveria parar de falar dos adolescentes como se eles fossem bichos num documentário! Qual o meu problema?! Eu só tenho 20 anos!
_Bom dia, em que posso ajudar?!_ Joguei o pano sujo para longe.
_To afim de umas roupas da hora pra fazer cosplay, não precisa ser algo muito igual, não, só roupas que lembram as do personagem! Sei lá, tipo isso... _ Puxei-o para a sessão de roupas e ficamos por lá por um bom tempo.

Como Sol e LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora