Sol e Lua

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   Ao longe haviam alguns sons...
Tentei identificar, haviam zoados de carros passando, mas estavam distantes, também havia vento, ao longe uma música, uma música que eu conhecia bem, mas não sabia identificar, a música aumentava a cada segundo e a vontade era de quebrar o que quer que estivesse tocando isso. A cama estava gostosa! Me viro para o canto e dobro o travesseiro pra deixá-lo mais alto, era tão confortável, mas minha cabeça estava doendo. Nesse novo canto da cama sinto o sol tocar meu rosto de leve, a música ainda está lá, ainda me irrita, mas algo nela me assusta, o que é?
   _Ah... Island, desliga o celular! _Caio manda com uma voz preguiçosa. 
   _Do que está falando? E ... Por que tá na minha casa, Caio?
   _Você tem problema, cara? _Agora ele já está rindo. Ele é assim, uma hora sério  outra hora rindo... já tinha perdido a graça de dormir e me virei de barriga pra cima, encarando o teto avermelhado e descascado... avermelhado?! Meu teto é branco! A música finalmente fez sentido.
   _É  o despertador! _Pulei da cama à procura do celular.
   _É claro que é!
   _Droga! Estou atrasado! E que lugar é  esse!?
   _Ah, não gritem... _A morena de ontem rolou na cama onde eu estava.
   _O quê?! Por que está aqui?! Qual o seu nome?! Cadê meu celular!?!
   _Ok, meu nome é Lúcia, eu passei a noite aqui, e ele está na mesinha de canto.
   Deslizei até o celular para desligar o despertador, e só então notei que estava sem roupa. Senti as bochechas queimarem. E pelo jeito não fui o único que notou:
   _Não fica assim, bobinho, eu já vi tudo ontem. Não precisa se preocupar...  E foi muito bom se quer saber.
   Se a intenção era ajudar, Luna falhou miseravelmente. Minha cabeça doía e girava, as horas no celular me assustavam a cada segundo, eu precisava me vestir.
   _Droga, Caio, o que você fez comigo? _Achei as roupas.
   _Eu?! Eu não fiz nada! E como prometido, eu me mantive sóbrio, agora você... Ah, você  bebeu até perder o caminho de casa, literalmente!
   _Está louco!? CAIO EU NÃO BEBO! _Abotoei a calça. 
   _Foi o que pensei, mas isso tudo diz o contrário, viu!
   _Você é doente! É impossível, tudo o que eu tomei ontem foi suco, e... não! Você! _Me virei para Luana._ Lucíola!! Aquele suco não era suco!  _Me levantei com uma meia na mão,  queria jogar a meia nela! Não, eu queria jogar um trem nela! Aaah! MERDA!
   _Achou que fosse suco!? É por isso que tomou tão rápido! Achei que você fosse doido, mas tô vendo que é só lerdinho mesmo! _Riu. _ E é Lúcia. 
   _Não importa, Lúcia, eu não bebo! Por que ninguém me avisa de nada!? Agora atrasado! _Corri até a banheiro, mas me lembrei que aquela não era a minha casa, precisei de alguns segundos para achar o que queria. Foi questão de tempo até que eu já estivesse fuçando a geladeira, sei que não é educado, mas desconfio que embebedar alguém e levar pra casa no meio da semana, sem consentimento nem nada, também não seja uma das coisas mais educadas.
   _Qualé, cara... vai mesmo sair agora?! _Caio checou as horas no relógio de pulso. _Tá certo que estamos no meio da semana, mas custa faltar hoje?! Você vive falando bem do seu chefe, ele vai te perdoar!
   _Não é sobre perdoar ou ser legal! _Mordi um pão._ Hm... É sobre responsabilidade  e compromisso!_ Abaixei pra pegar um suco que tive que cheirar bastante pra saber se era mesmo o que parecia.
   _É óbvio que é suco...
   _Calado, eu não confio em vocês. E onde tem paracetamol?!  Minha cabeça vai cair...
   _Na gaveta. _Ele sorria, mas no fundo parecia desconfortável. _Cara eu só queria uma diversão. 
   _Uhum.
  Corri pro quarto e peguei a mochila, pelo menos ele tinha trazido minhas coisas. A tal de Ludmila já tinha se vestido e vinha atrás de mim:
   _Não vai ficar?!
   _Tchau, Luciane.
   _LÚCIA! E fica, por favor...
   _Escuta Lívia, eu realmente sinto muito por ter que sair assim, eu não lembro de nada, minha cabeça dói, e eu preciso ir trabalhar. Eu nem gosto tanto assim de festas e after é sempre arrependimento. Se eu não fosse trabalhar hoje, seria para ficar em casa, ver anime, jogar alguma coisa, ou sei lá._Me virei para o Caio._ Agora, faça o favor de me levar pro centro...
    _Hm, não vai dar cara... O carro não era meu. Devolvi ontem mesmo.
    _O que?!
    _Mais um motivo pra... _O motivo vai ficar pra depois, corri pra porta e desci uma escadaria que só pode ter sido feita por um doente, de tão perigosa e íngreme. Metade da minha cabeça já parecia um coração de tanto que pulsava, abri o portão  da casa que, não,  não estava trancado, e me deparei com um lugar que nunca vi antes. Liguei a localização enquanto tentava ignorar o relógio no canto da tela. Eu estava à 3kms de distância da loja... droga. Olhei ao redor desesperado. Uma bike minúscula e empoeirada num canto escuro daquela garagem.
   _Caio! De quem é a bike?!
   _De um tio meu. Ele deixou ela aqui há uns dias. Tem até uma bomba pra encher os pneus. _Sua voz ecoou do segundo andar.
   _Por que ele deixou ela aqui?
   _Ah, eu pedi.
   _Você anda de bike?
   _Não...
   _POR QUE PEDIU?!
   _Porque eu podia jurar que você me ensinaria...
   _Eu vou lalar ela!
   _O quê?! _Ele ficou repetindo isso mais umas 2 vezes, enquanto eu checava desesperadamente os pneus dela. Estavam cheios. Joguei a bomba de encher na mochila, ele não ia precisar dela...  e eu não tinha uma.
   _Tchau, Caio!
  Foi um grito denecessário, afinal Caio já estava tropessando nos degraus em minha direção. Passei pela porta o mais rápido que pude e pedalei com força.  A bicicleta era pequena, quase como uma bicicleta de criança, eu parecia um corcunda em cima daquilo, ou um palhaço,  deixo à escolha de quem viu. De resto, chequei o trajeto no celular, e fui. Dessa vez não tem nada que pode me deter!
   Eu pedalei tanto quanto pude, estava tão rápido e tão eufórico que minha cabeça e as costelas pareciam novas, eu não sentia dor nenhuma.
   A bicicleta estalava a cada segundo, não aguentei e tive que encarar um pedal, o defeito não era visível. Voltei os olhos na pista  direto para um parachoque.
   _Droga! GABRIELA?!
  Eu sou um imã de desastres?!
  Desviei a tempo, plantando a bicicleta do outro lado da rua, porém saltando no lado oposto. Ainda bem que não era minha bike.
  Eu estava cansado de mais pra pensar no que estava acontecendo, minhas pernas estavam pegando fogo e meu rosto pingava. Gabriela saiu do carro, vindo ao meu encontro e a cabeça voltou a latejar. Tenho certeza que ela ia me dar uma bronca, a culpa foi minha dessa vez, mas sinceramente, eu estava cansado de mais pra isso. Apoiei a mão no ombro dela.
    _Olha, só pra informação, eu tirei a carteira de motorista a pouco tempo, isso quer dizer que te atropelar não vai pegar bem pra mim... dessa vez não foi minha culpa.
    _Tudo... bem, eu ... eu... eu me distraí. _Me joguei no chão ainda sentindo um coração em cada parte do meu corpo. Joguei as mãos no rosto e respirei fundo, o máximo que meu pulmão permitiu. Apesar de estar exausto e sentindo minha primeira ressaca(que aliás, eu odiei, só essa sensação já me valeria para não querer colocar uma gota de álcool na boca nunca mais), eu gostava dessa sensação,  não do mal estar, mas do coração batendo forte, os pulmões e pernas queimando, e a respiração descompassada, parece meio masoquista, eu sei, mas chamo isso de lembrar de estar vivo, as vezes me distraio com tantas coisas que esqueço que eu vivo,  aí corro o máximo que posso na bicicleta, lembro que tenho um coração no peito.
Após recuperar as forças e o ritmo da respiração,  vou até a pequena bicicleta e arrasto aquele caco até a entrada da loja.
   _Você bem? _Ela realmente parecia preocupada.
   _Estou, estou sim. Só tive um pequeno azar hoje. _Entrei. Meu corpo ainda estava quente, tirei a blusa de frio e amarrei na cintura, meio incomum, mas do jeito que estou essa é a ultima coisa que eu me importaria. Me joguei numa banqueta e esperei. Não sei o que estava esperando.
   _Ei. _Chamei._ Pode pegar uma garrafa de água pra mim?
   _Claro...
   _Carambola, eu não saio assim há muito tempo.
   _Fez alguma loucura? Vou falar sério..._ Ela riu meio sem jeito._ Está me preocupando assim .
   _Escuta... embebedar um homem, sem que ele saiba, e depois dormir com ele seria estupro ?
   _Hm... eu acho que sim... _Ela me olhou de lado com a boca entreaberta, um misto de medo e preocupação.
   _Hm... esquisito. Não me sinto assim. Mas foi estranho.
   _O que aconteceu?!
   _Fui numa festa é tomei muito suco... só que fui descobrir que não era suco hoje. E tinha uma mina sem roupa perto de mim. Achei estranho. Mas não tão errado assim. Eu não sei o que pensar. Frescura minha.
   _Não,  não é  frescura, uai!
    _Ah, vou ignorar... só achei estranho. Mas vou te contar, meu corpo tá todo doendo, essa tal de ressaca é horrorosa. Eu nem ligo muito para o que rolou, eu não nego que rolou um certo interesse nela quando  a vi. Mas o que me incomoda mesmo é a bebida
    _Fala sério.
    _Vou te contar um caso, afinal, a gente se conhece bem, mas o tempo sem se ver foi muito, não  é? Muita coisa rolou. Quando eu tinha uns 15 anos, teve um churrasco lá em casa, trouxeram vinho e deixaram na geladeira. Quando todo mundo saiu, eu peguei, queria saber só o gosto mesmo, mas depois queria saber quanto eu aguentaria. Quando meu pai chegou ele me viu acabando de beber a garrafa. Eu não fiquei tonto nem nada do tipo. Mas meu pai ficou uma fera, disse muita coisa e me xingou de mais, mas eu reparei que não era o mesmo xingo que se dá na criança desobediente e chata, era um xingo preocupado, assustado. Fiquei com o rosto dele na minha mente por bastante tempo. Decidi que não ia beber. Nunca mais. Se eu não conhecesse meu pai, diria que ele tem um trauma com bebidas. Não é uma história triste com mortes e nem um navio afundando no Atlântico, mas me marcou.
   _Tendi, mas... não fica assim, solzinho.
   _Solzinho?
   _É... hm..._Ela corou._ É  como você disse, o tempo sem se ver foi muito, não é? Muita coisa rolou. E eu peguei umas gírias, haha... chamar pessoas de "solzinho", ou dizer para elas reagirem e botarem um cropped... só um jeito de falar.
   _Solzinho... _Deslizei aquela palavra pela língua._ Gostei... Ei, não chame outras pessoas assim não...
   _Por que?
   _Por que gostei..._Sorri. _Aliás, você que deveria ser o sol, você é loira.
   Ela parou de repente como se tivesse esquecido a própria cor do cabelo.
   _É,  mas eu não tenho um humor de sol. Geralmente ele é forte e sorridente. Eu nem sempre fico sorrindo. Eu até me considerava extrovertida quando criança, mas agora eu acho que sou "trovertida" , foi assim que uma amiga disse que eu era, tem dia que eu socializo bem, e converso muito, tem dia que eu fico com uma bela cara de "bunda" e não é que eu esteja com raiva, só não quero assunto, ou esqueço como é socializar. Aí sou trovertida, a gente deixa um espaço pra colocar "ex" ou "in" dependendo do momento.
   _Aceito ser o sol... apesar de não me sentir forte...você poderia ser a Lua? Afinal, o sol é amigo da lua!
   _Ora, mas não eram namorados ou algo do tipo?
   _O quê?! Quem te disse, Gabriela? O sol é amigo dela. Ele quis namorar a Terra uma vez , mas não deu certo, por causa disso que existem ipês amarelos. _A moça me lançou um sorriso confuso.
   _Não! De onde isso saiu?!
   _De uma professora de artes, ela disse que é uma lenda. Eu gostei. Eles se apaixonam, mas o sol é muito quente, ía matar os seres da Terra, então se separaram, ele chorou e uma lágrima do sol caiu na terra, virou semente e fez um ipê. _Ela gostou da lenda? Está fazendo um rosto confuso, mas parece bem.
   _Que legal! É bem confuso, eu nem lembrava dessa pocibilidade. Tudo bem então, mas eu não garanto que eu não vá esquecer e acabar chamando alguém de solzinho por aí.
   _Ok. _Me levantei e fui até o bebedor, eu li em algum lugar uma vez que água ajuda na ressaca, vou beber água até enjoar.
   Ela passou para atrás do balcão e se apoiou nos braços, como tem feito ultimamente.
   _Odeio festas. _Resmunguei.
   _Dá pra notar o porquê...
   _Mas gosto de sair.
   _Eu também,  inclusive, sempre que temos um tempo depois do culto eu e uns amigos vamos comer um "podrão ", é o hambúrguer mais barato e mais gostoso que eu provei. _ Ela delirou na lembrança daquilo.
   _O colesterol até grita. Eu até não estava precisando esfriar muito a cabeça, mas depois de hoje, sair seria legal. Quer sair no fim de semana? Voltar a ser criança, ir numa área de jogos no shopping. _Direto e reto.
   _Hm, sábado eu tenho um dever com a minha mãe, depois que tirei a habilitação, eu virei motorista particular... mas acho que depois do almoço dá sim.
   _Marcado. _Sorri.
   E o movimento começou na loja.
    
 
  
  

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