Ela responde mensagens

0 0 0
                                        

_Apressadinho..._ Lúcia ofegou.
_Hm.
_Eu juro, prometo, juro pela minha mãe que eu nunca mais vou te embebedar. Isso foi muito melhor que da outra vez!
Não respondi, me levantei e fui beber água, estava suado e morto de sede. Lúcia se levantou também, as luzes do Ap. estavam apagadas mas as luzes da cidade contornavam seu corpo nu. Abri a geladeira e peguei a água. Eu estava relaxado. Sentia meu corpo por inteiro, cada musculo pulsava. Lúcia pegou um copo. Me virei para o relógio na parede e ela puxou meu rosto antes que eu pudesse ver as horas, mais um beijo.
_Mais uma vez, vamos... _Falou manhosa.
Nessa noite fui dormir tarde, e tive companhia. Eu estava bem, quer dizer, eu me sentia bem, mas quando já estava pegando no sono me veio um incômodo. Eu não sei explicar, mas a sensação de estar só era enorme. Não importava se havia alguém ali do meu lado me abraçando, se lá fora eu podia ouvir as pessoas andando e vivendo suas vidas, não importa se havia uma gata ronronando por perto. Eu estava só. E era como se nada fosse mudar.

* * *

Levantei cedo embora Lúcia insistisse para eu ficar. Caminhei até o banheiro pra tomar um banho frio, talvez assim eu acordasse, passei pelo espelho e haviam marcas pelo meu corpo, um leigo diria que fui atacado por um gato, mas as marcas eram grandes de mais pra um gato.
Tomei o banho e vesti uma regata de gola alta, calça jeans over-sized, uma correntinha, tá ok, passei pelo espelho de novo, as marcas ainda estavam aparentes. Quem liga? Fui até a porta mas voltei, melhor colocar uma jaqueta.
Assei uns pães de queijo, o que trouxe Lúcia até a cozinha:
_HM... você que fez?!
_Uhum._ Fiz que sim, enquanto enfiava um pão de queijo fumegante na boca.
_Caramba, com todo respeito, se eu tivesse te conhecido antes de ficar com você..._pausa pra morder o pão de queijo_hm... eu teria pensado que você fosse gay.
_Deixa eu adivinhar, um apartamento cheio de plantas, cabelo rosa, sei me vestir e ainda faço minha comida, kit gay completo.
_Desculpe! _Ela riu._ Mas é difícil achar um cara hetero assim!
_Te entendo, mas vou me explicar. _Servi um pouco de chá._ As plantas são por causa da minha mãe, ela curte plantas, então deixá-las aí me lembra ela. São cactos porque eu com certeza vou me esquecer de regar, e... _ Desviei a mão dela de uma Drosera que ficava na bancada onde estávamos sentados._ ... E tenho plantas carnívoras também, como essa aí. Já a comida, eu sou vegano, então ou eu aprendo a fazer minha comida, ou eu como mal. O cabelo rosa é por causa de um anime, gostei do personagem e resolvi pintar o cabelo.
_E as roupas?
_Ora essa, se me visto mal reclamam, se me visto "normal" sou genérico, se me visto bem sou gay, Qualé!
_Foi mal, foi mal!
O café terminou e fomos. Acompanhei-a até a loja onde ela trabalha e segui meu rumo.
Tinha tanta coisa embolada em mim. Eu me sentia como uma gaveta velha cheia de fios e cabos eletrônicos daqueles que você não usa mas tem que guardar porque não tem coragem de jogar fora, por medo de um dia precisar, aí a gaveta vira um depósito. Uma perfeita bagunça. Eu estava bem, mas estava mal. Eu nunca assumi compromisso com ninguém, mas me sentia um traidor. Eu chorei um pouco numa noite e agora me sinto um crente, mesmo não crendo. Em parte eu queria ficar só, mas nunca me senti tão mal por estar só.
Tenho que admitir, eu sou confuso.
_Uma bagunça...
_Tá falando com quem? _Barba Branca apareceu.
_Ah, com ninguém, é só... Eu sei lá, tô falando sozinho.
_Hm, entendi. Ei, seu amigo esquisito tá aqui.
_O Caio?
_Ele mesmo. _O grandão apontou para trás. Gabriela conversava com Caio. Ele estava rindo e gesticulando muito, como sempre, me aproximei.
_Fala aí, esquisito.
_Olha a minha ilha! _Cara, que apelido ridículo...
_O que faz aqui?
_Ora essa, eu preciso de um motivo pra vir visitar meu amigo no trabalho?
_Sim, ainda mais cedo desse jeito.
_Você tem uma imagem tão errada de mim. _Ele riu e apontou pra mim como se eu fosse uma piada ambulante.
_Vai, qual é? _Passei por ele e acenei para Lua, fui deixar minha mochila nos fundos.
_Tá bom, tá bom. Essa semana tá chata, cansativa. Vamos sair?
_Sem chances.
_Qualé, Island! É no fim de semana! Se você quiser a gente vai naquele barzinho que você curte! Ou sei lá, só pra relaxar!
_Ainda não superei a última saída, Caio.
Gabriela, que só observava, resolveu dizer algo;
_Bem, nesse fim de semana eu e uma turma vamos sair... sabe, uma coisa mais pra espairecer. Um sítio, comida boa.
_Sério? Aonde? Quanto q fica pra cada?_ Caio se debrussou no balcão como uma criança.
_150 reais. A gente vai junto, então alugamos uma van. _Ela apoiou o queixo na mão. _ Vocês tão convidados.
_Hm... _Resmunguei._ Não rola, eu tô sem dinheiro, comprei umas coisas pra Estrela, fora umas tintas de parede e caneta posca, meu dinheiro foi por água abaixo.
_Aargh! _Caio desmanchou e deslizou pelo vidro do balcão. Sem hesitar, B.B. deu um chute no seu traseiro, ele já estava cansado de repetir pra não pendurarem no balcão.
_E se eu arranjar a grana? _Gabriela propôs enquanto encarava as unhas, como se falasse sozinha.
_Não sou de pegar dinheiro emprestado.
_Não vou emprestar, vou arranjar, vou te dar. Eu quero vocês lá.
_Hm, decidida ela! Mas não gosto dessa ideia.
Caio, que me encarava com um olhar malicioso, não aguentou e já soltou:
_Ah, para, Island! Deixa ela. A moça já disse que te quer lá! Para de fazer graça e aceita logo, se ela arranjar a grana, lucro, vamos, se não, não vamos...
_Legal, você também vai precisar do dinheiro, Caio?_ Lua finalmente levantou o olhar.
_Ah, tô aceitando.
_Combinado! A gente vai sair nesse sábado de manhã! B.B., quer ir também?
_Olha... eu acho melhor não, esse sábado é minha vez de cuidar da loja, então não tem como. _Meu chefe alisava o bigode entre os dedos.
_Ok, então... se você arranjar a grana eu vou. E... Caio, o que é isso no seu braço? _Reparei que ele tinha os antebraços enfaixados.
_Ah, isso? _Apontou para as faixas._ São... sabe como é, machuquei ontem enquanto tentava cozinhar... me queimei.
_Eitha, queimou com o quê?
_Miojo..._ Houve um silêncio de 1 minuto inteiro e depois algumas risadas. Caio ficou por lá até a hora do almoço, comemos juntos e Gabriela não parava de falar sobre o tal sítio. O dia foi tranquilo e bem cheio, os clientes aumentaram bastante depois de algumas melhorias que eu tinha feito na loja há 1 mês, pintei a parede de um jeito chamativo, com personagens de livros e animes, e o B.B. começou a postar nas redes sociais sobre a loja, o que têm atraído bastante gente. No final do dia, eu estava louco pra ir pra casa, o horário já tinha até excedido!.
Me despedi de todos e fechei a loja, já estava chegando na rua de casa quando meu celular tocou:
_Fala comigo.
_Oi, apressadinho.
_Lúcia... como vai?
_Vou bem, com... desejo, mas bem. E você?
_Bem também.
_Vai rolar algo hoje?
_Ah, foi mal, mas hoje eu tô meio ocupado. Tenho que treinar e fazer uns desenhos.
_Entendo, é bom que aumenta a vontade... deixa eu só confirmar, tá tudo bem pra você a gente ficar assim? Se ver quando der vontade, ninguém prendendo ninguém?
_Ta bem, sim.
_Ok, vou lá.
_Tchau.

Como Sol e LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora