Prólogo

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Perder alguém é um sentimento obscuro; há um desamparo em nossa alma com o qual não conseguimos lidar. Se para um adulto não é fácil, imagine para uma criança. Passar pelos cinco estágios do luto é um suplício.

É assim que Evelin Ferreira se sente. Há um mês perdeu seus pais em um acidente de carro. Em um dia, estavam planejando uma viagem em família; no outro, a polícia batia à sua porta contando o que aconteceu. Sem ter a chance de lidar com sua perda repentina, foi empurrada para os seus avós — pessoas com quem ela nunca teve contato. Seus pais nunca a levaram até eles e muito menos lhe disseram o porquê. Para quem morava no Subúrbio Ferroviário de Salvador e foi lançada para a área nobre da Pituba, fora uma mudança e tanto.

Seus avós, Carlos e Joana Ferreira, não ficaram muito felizes, mas aceitaram, visando algo vantajoso no futuro. Tentando livrar-se da menina chorona, mandaram-na para um acampamento de verão no estado do Amazonas.

— Vamos, meninas! Hoje temos tirolesa e banho de rio — uma das responsáveis pelo acampamento falou empolgada. Evelin não queria ir, no entanto, pelo olhar que recebeu da mulher, tudo indicava que essa não era uma opção viável. O lugar era bonito; se fosse em outras circunstâncias, não hesitaria em se divertir. O problema era a miríade de sentimentos com que precisava lidar todos os dias, sendo apenas uma criança.

Ela se arrumou como se estivesse indo para uma sentença de morte; andou cabisbaixa, sem ânimo. No café da manhã não sentiu fome, então se escondeu esperando todos saírem. Na van, notou que, além das crianças menores, os mais velhos também participariam. Encolheu-se dentro de si, ignorando todos ao redor; por isso, não notou que estava sendo observada.

Eduardo Schramm é herdeiro de uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil, com sede principal em Salvador e subsidiárias em mais sete estados. Com o intuito de ter uns dias de paz, longe da pressão de ser o herdeiro de um grande império tecnológico, escolheu o acampamento de verão do Amazonas — quanto mais longe, melhor. Ele não sabe por que está encarando a menina, mas alguma coisa nela o atraía.

— O que tanto você olha, Dudu? — Bruna indagou enciumada. Ela é a filha mais nova da família Simioni, a segunda mais influente do país.

— Do que está falando?

— Está encarando aquela pirralha há algum tempo. Qual é o interesse?

— Não seja ridícula. Não há interesse, estou apenas pensando — respondeu ríspido. Ele não admitiria que uma pirralha lhe chamou tanta atenção. Não entendia o porquê. Seria a tristeza em seus olhos ou sua beleza singular mesmo com pouca idade? Uma pele negra, que lhe lembrava a madeira cedro, e olhos tão negros que o faziam pensar em jabuticabas.

Eles chegaram ao destino, contudo, os olhos de Eduardo não desviavam da menina; isso o irritava profundamente. Dando-se por vencido, continuou observando-a de longe e notou quando ela se esgueirou e fugiu da pequena multidão. Ele olhou para todos os lados e, quando notou que não havia ninguém olhando em sua direção, seguiu a garota. Encontrou-a sentada em uma pedra, chorando. Mesmo de longe, ele podia escutar o som dos seus soluços. Não compreendia por que, mas isso o incomodou.

— Por que está chorando? Se machucou? — perguntou, abaixando-se na frente da pequena.

Evelin, ao ouvir uma voz à sua frente, levantou a cabeça e deu de cara com um garoto lindo. Cabelos negros como carvão, olhos azuis que lembravam duas piscinas, queixo quadrado com uma covinha fofa. Ela não conseguia desviar seus olhos, tampouco ele. A menina, com seus dez anos, sentiu pela primeira vez um friozinho na barriga.

— Quem é você? Um anjo? — perguntou inocente. O jovem sorriu encantado. Além de linda, a menina possuía uma voz melodiosa.

— Ninguém nunca me chamou de anjo — sorriu maroto. — Me chamo Eduardo, pequena Pocahontas. Pergunto de novo: por que está chorando?

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