10

412 69 2
                                        

Eduardo não via a hora de ir embora. Aquele banquete já se estendera demais, mas, como precisava "fazer média" com o avô, escondia sua insatisfação sob um sorriso polido. Ao notar que o patriarca o chamava discretamente, lançou um aviso silencioso à esposa para que se comportasse e foi ao encontro do senhor Thomas.

No escritório, o avô estava sentado atrás de sua mesa de mogno com um documento em mãos, mantendo a costumeira postura aristocrática. Ao ver o neto, largou o papel e sorriu afetuosamente. Thomas observava Eduardo com um misto de orgulho e preocupação; via no rapaz o reflexo de sua própria juventude — a impetuosidade e a imprudência que, muitas vezes, o impediam de enxergar o que estava diante de seus olhos. O velho, contudo, ainda tinha esperança de que o neto mudasse antes que fosse tarde demais.

— Conte-me, como está? — perguntou, paternal.

— Na medida do possível, vovô — Eduardo não escondeu o desgosto. Estar preso a um contrato de casamento nunca fora seu plano; aquela "bomba" jogada em seu colo estragara tudo.

— A convivência está tão ruim assim? Ela me parece uma ótima menina. Você ouviu: gosta de trabalhar, organiza a casa, cuida de você...

— Como sabe disso? — Eduardo interrompeu, intrigado.

— Dedução, meu caro neto. Pesquisei muito sobre essa moça. Ela fez diversos cursos sobre cuidados domésticos; pela aparência, come muito bem — atrevo-me a dizer que engordou uns quilinhos — e olhe para sua roupa...

— O que tem a minha roupa? — inquiriu, descontente.

— Sempre chamei sua atenção para a forma como se veste; você sempre esquece alguma peça. Porém, hoje está impecável, com tudo no lugar. Por que será?

Eduardo bufou.

— Você é muito perspicaz, coroa — debochou.

— Coroa uma pinóia! Sou jovem, envelheço como vinho — o avô recuperou a seriedade. — Falando sério: essa menina é de ouro. Não lhe dará uma chance?

— Tudo fingimento, vovô. O senhor sabe o que penso sobre esse casamento. Já tenho uma pessoa em mente. Se ela fracassar em me dar um herdeiro em um ano, pedirei o divórcio. Esse foi o nosso trato.

— Cabeça dura! — Thomas exclamou, irritado. — Aquela mulher não é adequada para você, Eduardo. Não é apropriada para carregar meu bisneto.

— O senhor não a conhece. Cresci com a Bruna, sei da mulher íntegra que ela é.

— E, pelo visto, você também é — Thomas suspirou. — Dê uma chance a este casamento. Escute a voz da experiência.

— O senhor conhece minha opinião — rebateu o neto, voluntarioso.

O velho senhor deixou o assunto para outra oportunidade; acreditava que, com o tempo, Eduardo cairia em si. Enquanto conversavam sobre a expansão da empresa e uma possível joint venture automobilística, Thomas lamentava internamente: o neto tomava as melhores decisões nos negócios, mas, nos relacionamentos, passava longe do acerto.

Na antessala, Evelin estava sozinha com seus pensamentos. Ninguém se aproximava e ela não fazia questão. De repente, Alex surgiu e sentou-se ao seu lado.

— Você está bem? — perguntou ele.

— Por acaso se importa? Poupe-me dessa farsa, estamos a sós aqui.

— Não quis ofendê-la; apenas mostrei o que muitos pensam.

— Se você está dizendo... — ela deu de ombros. No fundo, apenas a opinião de Eduardo tinha peso, e era por isso que as ofensas dele a feriam tanto.

— Estou sendo sincero, Evelin. Não quis ser grosseiro contigo naquele dia — insistiu ele.

— Por que está aqui, se você e meu esposo não se gostam?

— Independentemente da inimizade, sou noivo da prima dele.

Evelin ficou confusa. Descobriu que Carol era prima de Eduardo e que a relação entre eles era tensa devido à disputa por 25% das ações da empresa. Enquanto Alex falava, ela apenas balançava a cabeça, fingindo escutar. Sentia o sangue escorrendo pela perna e o mal-estar crescendo.

— Quantos anos você tem, Evelin? — Alex perguntou, notando que ela estava distraída.

— Vinte.

— Tão jovem... tem uma vida inteira pela frente — ele sorriu galante. Alex lembrava o ator Chris Evans, mas o gosto de Evelin pendia para o estilo de Henry Cavill — o "Homem de Aço" que tanto lembrava seu esposo.

— Falou o velho! Não lhe dou nem trinta anos — debochou ela.

— Tenho vinte e sete. Estou caminhando para lá.

Ela pediu licença e foi novamente ao banheiro. A situação era alarmante: a ferida estava aberta, inchada, com manchas avermelhadas e uma secreção amarelada. Estava gravemente inflamada. Limpou como pôde, usando papel-toalha para estancar o sangue, sentindo uma tortura a cada toque. Ao sair, sentiu-se vigiada pelos demais membros da família. Voltou ao lugar, sentindo-se abandonada por Eduardo naquele "ninho de lobos". Alex reapareceu imediatamente.

— Você voltou — ele sorriu.

Evelin massageou as têmporas, exausta.

— Alex, não acha melhor ir ficar com sua noiva? Todos podem estranhar.

— Eu não levo este noivado a sério — respondeu ele, aproximando-se. — Você deveria fazer o mesmo.

Os olhos de Evelin dobraram de tamanho. O choque a paralisou. Ele sabe sobre o contrato?, pensou, aterrorizada.

— Do que está falando? — Evelin interpelou, aturdida e surpresa.

Alex não usou rodeios:

— A razão pela qual você casou com Eduardo é a mesma pela qual me envolvi com a Carol. — Ouvir da boca de outra pessoa o motivo de seu casamento a arrasava. Ela entendia que o noivado de Alex também era uma transação, mas ficou magoada ao pensar que o marido não levava o casamento a sério, assim como o homem à sua frente.

— Não fale assim, é rude — pediu. Seu coração doía só de imaginar que todos sabiam o porquê de ela estar casada.

— E como quer que eu fale, Evelin? Há outra forma de dizer isso? Se tem, me diga — ele deu de ombros. — São apenas negócios, não leve para o lado pessoal.

— Vocês são inacreditáveis. Querendo ou não, o casamento é uma coisa pessoal — grunhiu.

Evelin pegou o telefone e a bolsa-carteira para conferir as horas. Já se encaminhava para a madrugada.

— Me passe seu número! — sugeriu ele, com um sorriso brincando nos lábios.

— É melhor não. Prefiro que continuemos assim, não quero arrumar briga com meu esposo — foi sincera, porém ele não levou muito a sério. Tomou o aparelho das mãos dela.

— Não seja tola, é apenas um número.

Ele digitou, salvou e entregou o celular a ela. Evelin arregalou os olhos quando viu o esposo se aproximando, feito um touro. A fúria estampada em seu olhar lhe dizia que ele vira o que acabara de acontecer. Tudo o que ela não queria era brigar com Eduardo, mas aquela briga seria inevitável. Espero que ele me deixe explicar, pensou antes de o esposo parar à sua frente.

Sou Presa a VocêHistórias para pegar e não largar. Descubra agora