Ele abriu o saco e deu de cara com um terno de quatro peças na cor preta. Vestiu a calça, a camisa social preta, colocou o colete, a gravata borboleta e, por último, o paletó. Amou o resultado; sempre gostou de cores escuras. Após se arrumar, deixou o vestido que escolhera para a esposa sobre a cama e saiu, encontrando Evelin sentada no sofá, com o olhar distante e pensativo. Ele não se deu ao trabalho de agradecer, mas saiu sorrindo.— Seu vestido está em cima da cama, não se atrase — ordenou.Quando ele saiu, ela correu para o banheiro e vomitou tudo o que não comera. Passara o dia péssima, com muita dor e febre. Foi até o quarto e viu o vestido que Eduardo escolhera.— Não posso ir com isso, é curto demais! — falou para o silêncio do quarto.Ela sabia que as pessoas notariam os ferimentos e não podia arriscar. Tomou um banho ao som da canção "Take Me Home", de Jess Glynne, e chorou copiosamente.— Desesperada, tão consumida por toda essa dor / Se você me perguntar o porquê, não saberei por onde começar... — cantarolou.Sua angústia era tanta que seu corpo se anestesiou na hora. A dor física foi substituída pelo cansaço mental. Estava casada com um homem que não lhe dava a mínima atenção. Não era assim que imaginara. Sempre sonhara em ter uma família, dividir momentos bons e ruins com a pessoa amada, andar de mãos dadas na rua, tomar sorvete, rir das piadas horrorosas um do outro. Agora, estava presa àquela situação, padecendo em um casamento fracassado.Notou as horas, voltou a prestar atenção na música e arrumou-se simultaneamente.— Raiva, amor, confusão / Não me levaram a nada / Sei que existe um lugar melhor / Porque você sempre me leva lá... — cantou, pensando no homem que amava.Aquela canção falava muito com ela. Após errar a maquiagem devido aos tremores nas mãos, olhou-se no espelho para conferir o visual. Dispensando o vestido escolhido pelo marido, optou por um longo, verde-musgo, com um decote subindo o ombro esquerdo. A maquiagem era simples, apenas para cobrir as olheiras, mas ousou no batom vermelho-vinho. Nos cabelos, fez um coque abacaxi com o palito hashi, soltou alguns fios na testa e os enrolou com os dedos; nos pés, um salto agulha preto de bico fino.— Melhor que isso, só dois disso! — exclamou, suspirando.Desceu e pegou o táxi que pedira. No caminho, seu celular tocou várias vezes com um número desconhecido. Ela não atendeu, pois acreditou ser o marido, já que estava muito atrasada — uma hora, na verdade. O celular tocou de novo, ela olhou e avistou o nome de Louis. Atendeu sem pestanejar.— Oi, primo!— "Oi, pingo! Liguei para saber como está?"— Estou a caminho de um evento — confessou. Sabia que levaria um esporro.— "Está louca, miserável? Você se machucou ontem e já está em cima de um salto?" — ele suspirou. — "Disse a ele que a machucou ontem?"— Não, ele não sabe.— "Estou preocupado com você, Evelin. Isso não é saudável. Falo como seu psicólogo, não como primo e amigo. Cuide-se."Ela desligou com o coração pesado, sentindo-se uma tola por se sacrificar por alguém que não lhe dava a mínima. Pagou o taxista e saiu do carro, dando de cara com um Eduardo furioso. Murmurou uma prece e foi até ele. Com o temor de uma futura briga, não notou o olhar de apreciação que recebeu dele.— Uma hora de atraso, porra! — disse ele, furioso.Ele estava há um tempão esperando-a na porta, escondido no escuro, tentando disfarçar que chegara sem a esposa.— Demorei um pouco para me arrumar — disse ela, calma.Ele analisou a veste, depois a encarou friamente.— Cadê o vestido que escolhi?— É inconveniente usar um vestido tão curto — exprimiu.O vestido que ele escolhera ia até a metade das coxas e tinha um decote muito exagerado para ela.— Não faz sentido expressar sua insatisfação dessa maneira, a menos que queira arcar com as consequências — zombou ele, mas ela percebeu que falava sério.Evelin não teve tempo de se defender, pois a porta se abriu e todos olharam na direção de ambos. "Que eu consiga resistir" foi seu último pensamento antes de entrarem.
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Sou Presa a Você
RomanceEvelin Ferreira, perdeu seus pais aos dez anos e foi morar com seu avós. Eles nunca lhe passaram amor, ou calor humano. Nunca lhe deram o que era preciso, mas exigiram muito quando a forçaram se casar com um desconhecido por contrato. Ela aceitou pa...
