Sabe quando temos aquele pressentimento ruim de que o dia não será agradável, mas, ainda assim, insistimos por fé de que seja apenas algo da nossa cabeça? Era dessa forma que Evelin se sentia ao levantar pela manhã e receber as grosserias do esposo. Tudo estava suportável até o momento em que o homem chegou ao banquete do chefe da família Schramm. No início, ele a tratava bem, mas bastou sentir-se à vontade para começar a atacá-la.
— Não é digna dele. Pode estar vestida como uma dama, mas não passa de uma pobre coitada — declarou com um sorriso cínico.
Ela tentou interromper a dança, mas ele a segurou tão forte que machucou seu pulso.
— Você não tem o direito de me falar essas coisas — proferiu com dor e raiva, embora um sorriso forçado ainda tomasse sua face.
— Quem é você para me dizer o que tenho direito ou não? Ponha-se em seu lugar, sua insignificante — ele sorriu. — Eduardo já tem uma mulher muito mais elegante que você, gostosa, que o satisfaz em tudo.
— E onde está essa mulher, que não se casou com ele? — questionou com alegria fingida.
— Saberá em breve — finalizou, soltando-a assim que a canção terminou.
Ainda sem entender o que ocorrera, ela começou a andar, mas deu de cara com o esposo. A forma como ele a encarava dizia que estava chateado, ela só não sabia com o quê. Eduardo a puxou pelo braço, apertando justamente onde o desconhecido a machucara. Sem conseguir evitar, ela gemeu de dor, chamando a atenção dele, que parou e olhou para o pulso vermelho. Por esse motivo, segurou a mão dela e voltou a arrastá-la. No entanto, algo aconteceu: uma descarga elétrica passou por ambos os corpos, sobressaltando-os. Era como se a terceira lei de Newton fosse aplicada naquele momento. Parecia tão certo!
Ao sentir a corrente passando pelo corpo, Eduardo a soltou rapidamente, sem compreender o ocorrido. Afastado dos curiosos, ele se forçou a esquecer a sensação para interpelar a esposa.
— De onde conhece o Alex?
— Quem? — Evelin inquiriu, ainda absorta. Seu corpo correspondia ao marido de uma maneira que a apavorava.
— Está zombando de mim, sua infeliz? O desgraçado que dançava com você. De onde o conhece?
— Não o conheço! Ele me chamou para dançar e não quis ofendê-lo negando — respondeu, lembrando-se das palavras duras que o homem lançara sobre ela. Antes tivesse o ofendido com a negação do que escutado ofensas gratuitas. Já bastava o seu consorte.
— Acredita que sou otário? Vou avisá-la de novo — deu uma pausa significativa. — Não pode se relacionar com outros homens. Se não cumprir o contrato, vai se arrepender de ter entrado no meu caminho.
Para puni-la, apertou o queixo dela e cobriu sua boca. O beijo deveria ser punitivo, mas tomou outras proporções quando ela o segurou pelo pescoço e aprofundou o contato. Ela gemeu, e isso o fez despertar da loucura que estava cometendo.
— Edu... — Evelin murmurou, desorientada.
— Não me chame assim! — gritou ele.
Ela se afastou, ferida. Após o beijo delicioso, cogitara revelar quem era, mas ao fitar a fúria e o ódio nos olhos dele, recuou. Eduardo nunca pararia para escutá-la. Ele viu a tristeza nos olhos dela e tratou de zombar.
— O que foi? — beijou a bochecha dela com sarcasmo. — Você finge estar triste... Quer mesmo que eu acredite que se apaixonou por mim, um "marido" que só viu três vezes?
— Não ousaria, senhor Schramm! — exclamou, escondendo a dor em um sorriso igualmente frio. Ela queria contar tudo: o quanto o amou esses anos e como cumpriu a promessa feita naquele dia. Mas, olhando para ele, desistiu. Não valeria a pena.
— Vamos, o jantar será servido! — disse ele, saindo na frente.
Evelin sentou-se à esquerda do patriarca da família, enquanto o esposo ocupava o lado direito. Eduardo nem a encarava; apenas conversava animadamente com uma mulher ao seu lado. Observando-a, Evelin notou que ela não lhe era estranha, mas não quis pensar muito; já estava sendo humilhada demais. Ao lado da loira estonteante, o tal Alex estava acomodado e não parava de observá-la. Ela desviou o olhar para o senhor ao seu lado, o avô de Eduardo.
— Tenha paciência com meu neto; ele se acostumará com a vida de casado.
— O mínimo que espero dele é respeito. Não é pedir demais — respondeu amarga, mas ao notar o tom, retratou-se: — Me perdoe, vovô.
— Vovô! — o senhor exclamou, surpreso.
— Não quis chateá-lo — Evelin falou, temerosa.
O senhor pegou a mão dela, chamando a atenção de Eduardo, que observava de longe.
— Oh, gostei! Pode me chamar de vovô Thomas! — disse animado. — Ter mais uma neta me alegra.
— Então, o chamarei assim.
Eles iniciaram uma conversa calorosa, e Eduardo não conseguia parar de olhar.
— O que você olha, Dudu? Está interessado nela? — sua acompanhante indagou furiosa, disfarçando com uma falsa tristeza.
— Já disse que não, Bruna! Pare de insistir nisso, porra — declarou estressado.
Bruna se calou. Assim que a refeição encerrou, Eduardo deu uma desculpa ao avô e avisou à esposa que iriam embora.
— Mas... — ela tentou falar, mas foi cortada bruscamente.
— Despeça-se do meu avô e vamos — ordenou.
Evelin agradeceu pelo jantar e pelo carinho. O esposo foi na frente, sem a cortesia de abrir a porta do carro. Ao entrar no banco do passageiro, ela viu, por acaso, Alex sair com a mulher que estava sentada ao lado de Eduardo. Eles pareciam íntimos. Quem será ela?, perguntou-se.
— Eu a proíbo de chamá-lo de vovô! — Eduardo cortou o silêncio do carro.
— Ele disse que posso fazer isso.
— Porém, estou dizendo para não fazer — determinou.
Ela não respondeu; encostou-se no banco e fechou os olhos. Existem momentos em que o silêncio é a melhor resposta. Enquanto isso, ele analisava cada detalhe dela: a face oval, os lábios perfeitos, o decote que valorizava os seios e a fenda na coxa, instigando sua imaginação.
"Uma tentação desgraçada!", pensou ele.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sou Presa a Você
RomanceEvelin Ferreira, perdeu seus pais aos dez anos e foi morar com seu avós. Eles nunca lhe passaram amor, ou calor humano. Nunca lhe deram o que era preciso, mas exigiram muito quando a forçaram se casar com um desconhecido por contrato. Ela aceitou pa...
