05 | Arrependimentos me assombram

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COMO O ESPERADO, Jake realmente contou a Heeseung sobre a troca de bilhetes entre Jay e o cara do quarto 237, e o Lee foi rápido em comentar sobre isso no dia seguinte quando viu o americano sair do quarto, curioso para saber mais sobre o garoto misterioso e chorão.

- Nada de mais até agora, ele só se desculpou e eu perguntei se ele precisa de ajuda. - Jay explicou.

O americano esperava receber uma resposta naquela noite, hora em que o garoto chorão costumava atacar.

- Será que ele cometeu um crime e agora vive chorando por se sentir culpado, e é por isso que não sai de casa? - Heeseung teorizou deslizando o indicador sobre o queixo.

- Não viaja, Heeseung.

Jay não estava bravo com Jake por ele ter falado tudo a Heeseung, pois pelo pouco tempo que o conhecia, já decifrou toda sua personalidade, além de ser particularmente gentil não só com ele, mas com todos, e invejava isso nele.

No geral, Jay e Heeseung nunca conversavam sobre outras coisas que não fossem relacionadas àquele prédio e os moradores, ou sobre o trabalho na cafeteria, que sempre interrompia todos os diálogos deles quando o horário do americano se aproximava. A verdade é que Jay tinha um pouco de curiosidade de saber o que Heeseung fazia durante o dia, aparentando sempre estar de bobeira pelo corredor, mas nunca juntava coragem para perguntar. Nem sobre Sunoo e seu namorado patinador, nem sobre Riki. Apesar de que pareça ser difícil saber algo sobre Riki.

Na cafeteria, o mesmo de sempre. A única coisa que mudava de um dia ao outro eram os rostos que entravam e saíam, mas Jake ainda tagarelava enquanto Jay apenas concordava, ambos trabalhavam juntos para oferecer o melhor aos clientes, sendo assim até o final do dia, quando ficava um pouco frio para fecharem o estabelecimento. Isso fez com que desligassem, finalmente, o ar condicionado que fazia Jay bater os dentes, mas, por outro lado, ele tinha uma parcela de culpa por sempre esquecer de levar uma blusa.

De qualquer forma, continuaria não levando apenas para ter algo para reclamar. Sentia-se entediado quando não encontrava algo para julgar e fingir que não era culpado.

As conversas lá se tornaram entediantes a partir do momento em que Jake sempre dava um jeito de enfiar Heeseung no meio, e Jay não suportava mais isso. Era inegável que estava contente pelo amigo, que também estava, mas aturar amigo apaixonado é um dos piores castigos da humanidade. Ele quem foi o principal responsável por ocasionar isso, então teria que arcar com a consequência, pagando por tal pecado.

"Heeseung gosta disso. Heeseung não gosta daquilo. Heeseung diria a mesma coisa"

Era esse nome que Jay começava a se acostumar a ouvir, para lá e para cá, aqui e ali. E não compreendia totalmente a sensação, pois nunca tivera realmente se apaixonado por alguém antes, ou pelo menos não se recordava. O que já tivera sentido foi algumas quedinhas na época de escola quando ainda frequentava o ensino fundamental, daquelas que você escolhe uma menininha ou menininho bonito para gostar, nada além disso.

Não sabia definir se o amor era algo bom ou bonito se baseando apenas nisso, mas ao analisar a relação entre Jake e Heeseung, o jeito que falavam um do outro, aparentava ser, sim. Perguntou-se, por um breve momento, se seria capaz de experimentar algo assim um dia, mas não estava desesperado para que acontecesse. Sabia que se fosse para acontecer, viria naturalmente, com o tempo agindo da maneira como deveria.

Às vezes, não importa o quanto persiga algo, a única maneira de dar certo é esperar que isso venha até você.

Tais pensamentos filosóficos e outros parecidos o perseguiram durante o resto do dia, até o momento em que voltou para o prédio com Jake, mas já tinha parado de dar atenção as coisas que ele falava há um bom tempo, criando uma barreira em sua própria mente.

Quando se despediu do australiano e o assistiu sair do elevador e seguir até seu quarto, o clima pareceu pesar. Algo naquele prédio parecia mais assustadoramente bizarro e Jay não conseguia distinguir o que poderia ser. Não havia barulho em nenhum canto, nem mesmo as músicas altas de Riki, ou os gemidos de Sunoo que Heeseung alegava ter ouvido, ou o choro do cara do 237, nada além de um silêncio cadavérico.

Só conseguiu ouvir algo novamente quando seus pés fizeram o piso ranger e sentiu um arrepio percorrer o corpo inteiro como um choque quando parou em frente a porta de seu quarto. Ele a abriu, revelando um papel dobrado no chão, o que foi impressionante. Significava que o vizinho da direita havia agido mais cedo do que o comum.

Repetiu o ritual da noite anterior, abaixando-se para pegar o bilhete e desdobrá-lo com cuidado.

"Obrigado pela gentileza, vizinho"

Jay procurou pelos papéis e pela caneta que tivera pegado da cafeteria e se sentou no chão, escorando as costas na porta do quarto 237. Ele apoiou um pedaço de papel sobre a coxa e escreveu algo de forma meio desajeitada, tornando a empurrar o bilhete dobrado pela fresta da porta.

"Meu nome é Jay, e o seu?"

Não demorou para ser respondido, vendo o papel escorregar até perto de seu joelho. Achava engraçada aquela forma de comunicação.

"Yang Jungwon"

- Nome bonito. - pensou alto e não esperou que o garoto atrás da porta o respondesse.

E continuou escrevendo bilhetes para passá-los debaixo da porta, nem percebendo o tempo passar rápido enquanto conversava com o menino chorão.

"Seu cabelo é bonito, Jungwon"

Depois dessa mensagem, levou uns minutos a mais até que outro papel chegasse até suas pernas.

"Não gosto muito dele, queria que a cor fosse diferente"

Quando ia perguntar por que o garoto não simplesmente trocava a cor, lembrou-se da vez em que sua mãe tivera pintado o cabelo de vermelho e foi uma praga para fazer a tinta sair, sendo que ela nem havia descolorido, apenas manchado o banheiro inteiro e fazendo parecer que era uma cena de crime. Como o cabelo de Jungwon era um tom infinitamente mais vivo, cogitou que ele tivesse descolorido, e aí, sim, seria impossível de tirar aquela droga de cor.

Já teve vontade de pintar o cabelo de preto, mas dizem que é o mesmo caso, sendo um inferno para se livrar da tinta e poderia manchar absolutamente tudo, assim como sua mãe fizera.

Jay não queria ter a insensibilidade de perguntar em voz alta e magoar os sentimentos de Jungwon novamente, e pensou que seria mais delicado escrever no papel.

"Por que chora tanto, Jungwon?"

Mais um tempo de espera para ser respondido pelo garoto.

"Alguns arrependimentos me assombram, isso não acontece com você?"

Foi pego de surpresa com aquela pergunta e, dessa vez, foi ele quem precisou tomar um tempo para pensar na resposta. Não achava que tinha algo para se arrepender grandiosamente ao ponto de se culpar pelo resto da vida.

- Não. - declarou.

Parecia um louco da cabeça que falava com os próprios botões, e por isso agradecia por ninguém estar presente lá para ver tal cena tão ridícula. Considerou-se mais louco ainda por pensar que a teoria de Heeseung podia estar certa, já que Jungwon se arrependia de algo.

E mais um papel, um que o deixou levemente desconsertado.

"Ouvi você falar sobre mim, você não é nada discreto, sabia?"

Ele acabou deixando um riso soprado escapar quando terminou de ler as palavras escritas a lápis, lembrando que falava consideravelmente alto com Heeseung no corredor toda vez se encontravam, e tanto comentou sobre Jungwon, quando perguntou.

- Desculpa. É que você é... tão misterioso, e eu queria saber mais.

Foi só quando Jay bocejou que ele percebeu que estava tarde e finalmente se levantou, recolhendo as coisas e ouvindo seu corpo inteiro estralar com movimentações tão simples.

- Boa noite, Jungwon. - despediu-se e, então, voltou para seu quarto, esperando que pudesse falar mais com seu vizinho na noite seguinte.

quarto 237 • jaywonOnde histórias criam vida. Descubra agora