Cinco

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Todos se divertiam, sorriam e brindavam. Por um instante os problemas do mundo pareciam ter acabado. Marcos parecia criança, feliz e se divertindo, não estava tão bêbado ao ponto de cair, mas também não tão sóbrio ao ponto de plantar bananeira. Kevin olhava as pessoas em volta e também fazia o papel de babá dos seus amigos.
  Ele estava ali, mas a sua mente não, por um breve momento ele avistou alguém com o cabelo laranja e pensou ser Samara, mas era apenas um homem com uma camisa laranja na cabeça.

— Ô meu 'gostoiso', você está bem? -Perguntou Marcos, com uma latinha de cerveja na mão.
— Eu tô, porquê?
— Nada, só te achei pensativo.
— Tô com fome, acho que vou ver se tem alguém vendendo algo, vou lá na praça.
— Bora, eu vou com você!
— Não precisa mano, eu vou só. Tá suave. Fica aqui com a galera, eu chego já é coisa rápida mesmo.
— Mas eu não quero deixar você sozinho. -disse Marcos colocando a lata de cerveja do lado do cooler azul.
— Se preocupa não Marcos, ele é cria daqui, conhece cada buraco. -sorriu Jhon, amigo de Kevin.- Fica com nós, ainda temos muito para beber.
— É meu pit, fica aqui com eles, só vou caçar algo pra comer mesmo, é rapídez pow.- continuou Kevin
— Se encontrar a Vitoria por ai, trás ela pra cá, tá? Ela prometeu que viria.
— Tá certo lindão, não entra na água viu!? Vai que você tá devendo pra Iemanjá, e ela te leva . -Eles riram, e Kevin foi andando.

 Kevin saiu da areia e foi caminhando pela parte de paralelepípedo, até chegar na parte asfaltada que era a orla. O caminho esvaziava, pois as pessoas estavam indo para casa, ou saindo para outros lugares.
Ele desviou de algumas pessoas, passou no meio de outras, pediu licença a outras e chegou na praça. Já era por volta das cinco da manhã, e ele adentrou em uma padaria que fica em frente a praça. Ao entrar no estabelecimento ele encontrou a atendente da lanchonete, Vitoria.

— Oi, Vitoria, né?
— Oi, Kevin, né?
— Isso. -disseram juntos e sorriram.
— E aí, saiu do trabalho já? -perguntou Kevin.
— Já, não tava aguentando mais, a noite toda em pé. -levantou a sombrancelha.
— Eu imagino, deve estar muito cansada né. -ela afirmou com a cabeça.- Você ainda vai ficar com a gente lá? Estamos na praia.
— Eu não sei se deveria ir, não quero atrapalhar.
— Eu entendo, eu não vou forçar, mas gostaríamos da sua presença, porém acho que o Marcos gostaria bem mais.. Ele não parava de falar de você.
— É? -ela olhou imaginando o que teria sido.
— Sim, vamos conversar ali na praça? Só deixa eu pegar um lanche. Tô numa fome.
— Toma, se quiser tem essa esfirra aqui, de frango com cheddar, eu não tô a fim de comer, ia dar pra algum vizinho. -ela sorriu.- só deixa eu comprar o pão.
— Opaaaaa, Quero sim. -ele abriu um sorrisão.- Eu vou esperar você aqui na entrada.

Ele ficou aguardando ela do lado de fora, enquanto abocanhava a esfirra, ela demorou um pouco porque estava com algumas pessoas sendo atendida, e quando ela voltou foi com um saco de pão, e um refrigerante com dois copos.

— Cuidado amigo, vai acabar se entalando. -Ela sorriu com o susto que ele tomou, com ela aparecendo do nada atrás dele.- peguei refri pra nós.
— Desculpa, eu tava com tanta fome que nem comprei, eu passo o pix pra você.
— Pelo amor, não precisa. -ela olhou chateada.
— Tá bom, desculpa. Vamos sentar ali debaixo da árvore. -eles foram.

— E então? Vai ficar com a gente? O Marcos está nos esperando. -falou enquanto enchia o copo dela
— Você veio para me buscar? -ela olhou fixamente para ele.
— Não, por favor, não! -ele balançou as mãos em sinal de negação.- Eu vim por quê estava com fome, daí o Marcos pediu que se eu visse você aqui, era pra pedir pra você ir conosco, porquê você tinha "prometido". Ele parece um anão bombado, mas ele é todo sentimental, acaba guardando as coisas. Mesmo sabendo que aquilo pode nem acontecer.
— E você é diferente? -ele olhou reflexivo para ela.- Te vejo igual, exceto pelo tamanho. -ela olhou fixamente para ele.- Agora me diz, por quê ele quer tanto estar comigo?
— Eu acho que ele realmente gostou de você, só não sei dizer de qual forma.
— Se for amizade, acho que até podemos ser amigos. Mas, se for romance, eu não quero, não tenho intenções de me relacionar, nem sei se irei algum dia.
— Eu acho que eu entendo. Na verdade eu nunca namorei.-Ele sorriu- E a única vez que eu me declarei, tomei um fora, e a pessoa já namorava, e eu não sabia.
— E a pessoa nunca lhe falou? -ela olhou questionando.
— Se ela falou eu não percebi. Mas eu não sabia, se soubesse, nem tentaria algo do tipo, por respeito aos dois..
— Se você não reparou, você é muito trouxa, desculpa a sinceridade. Mas, se ela não falou nada, ela é muito safada isso sim. Não digo só no sentido de ela não respeitar o cônjuge dela, mas no sentido de ter te dado esperança. Pelo menos vocês esqueceu ela né?
— Bom, isso aconteceu ontem.
— Eita, desculpa, amigo.
— Veja só, já somos amigos. - ele sorriu.- Por isso eu disse que te entendia.
— Nossos casos são diferentes Kevin. - ela desviou o olhar, destacando sua cicatriz no rosto.- Ninguém tentou contra a sua vida.
— Desculpa.. Não precisa contar caso isso seja muito pesado para você.
— Fica tranquilo, fofo. Eu estou bem, e já superei.. -ela passou a mão na cicatriz.- Ao menos eu acho.. -Ela olhou novamente para ele.- Promete que essa conversa não vai sair daqui, de nós dois. Nem para o seu melhor amigo?
— Eu prometo.
— Mesmo?
Ele segurou a mão dela, olhou nos fundos de seus olhos. -Eu prometo!
— Eu tinha um esposo, noivo na verdade. Ele era muito ciumento e controlador, sem falar que ele era narcisista.
— Entendo..
— Mas nem sempre foi assim. Antes disso acontecer, ele era a melhor pessoa do mundo, um exemplo de homem, respeitador, da igreja. Ainda é, pra quem não conhece o desgraçado. - ela apertou a barra da camisa.- Ele trazia flores, chocolates, essas coisas assim, sabe?
— Sei, parecendo filme americano. -ela confirmou com a cabeça.
— Até o dia que eu fui morar com ele. Eu saí de 'Bastião' e fui morar com ele. Foi aí que a putaria começou. -ela pausou pensando- Eu tava longe da família, tudo era motivo de briga, ele demonstrava agressividade, até aí eu achava normal. Meu pai era assim também às vezes, quando estava estressado.  Mas com ele era diferente, Ele me apertava, me puxava e me empurrava com brutalidade. Começou a me proibir de sair, me controlar, impedir de utilizar as redes sociais. Eu me vi presa naquela casa.
— Vi.. -ele segurou a mão dela.- Tem certeza que está bem para falar sobre isso?
— Eu não sei porque, mas sinto que posso confiar em você.. Então eu vou continuar falando, a não ser que você não queira ouvir.. desculpa te incomodar com isso.
— Não! -ele apertou carinhosamente a mão dela- Somos amigos, eu tô aqui pra te ouvir! Por favor, desabafe. -os olhos dela encheram de lágrimas.
— Quando meus amigos mandavam mensagem, ele ficava dizendo que eram meus amantes, pegou o celular de mim, era ele quem respondia à minha família, e nunca aceitava chamadas de vídeos. -ela começou a tremer de leve.- E foi só piorando, quando eu disse que ele estava louco, ele veio pra cima de mim e começou a me agredir, ele me deu vários chutes na barriga, murros, ele pisou em mim, me cuspiu. E depois de tudo ele pegou uma faca, e disse que ia me marcar, para eu aprender que cadela tinha que obedecer o dono.- a voz falhou- Aí ele fez esse corte na minha cara.
— Desculpa! -Kevin falou olhando para ela.
— Eu estava grávida, Eu perdi o meu bebê, e nunca vou saber se era menina ou menino. Mas sei que Deus está com meu neném no céu, e eu vou encontrar com ele quando eu me for. Eu não sei o que eu fiz pra merecer isso, Eu só queria estar morta, entende? -Kevin afirmou com a cabeça- Depois disso eu consegui fugir do prédio onde morávamos, e consegui vir para  Madre de Deus.. Você acha que eu sou uma pessoa ruim Kevin? Você Acha que eu mereci isso? Acha que eu deveria ter morrido também? Eu sou covarde Kevin, Eu não tive coragem de tirar a minha merda da minha vida. Eu.. -ela foi interrompida com Kevin puxando ela para seus braços, afagando ela por completo, a deixando tão em paz, que ela o abraçou de volta e caiu em prantos.

  Após alguns minutos abraçados, ela se afastou dele. — Desculpa. -falou limpando as lágrimas dos olhos. - Não queria que me visse assim.
— Não precisa se desculpar. Na verdade eu fico feliz que você desabafou.
— É eu estava precisando mesmo. -ela sorriu e se afastou do abraço dele.
Ele estendeu a mão para ela. — E ai, vai passar o dia com a gente?
— Eu acho melhor não. Acho melhor eu ir pra casa.
— Vem, passa o dia com a gente, vamos ficar felizes com sua presença, piveta.
— Eu não estou nem com roupa pra ficar em comemoração. -ela mostrou a roupa do trabalho.
— Não seja por isso. - Ele tirou o colete dele e deu para ela.- Pronto, agora vai ficar style! Veste ai. -ela pegou e vestiu.
— E ai, o que achou? -perguntou dando uma voltinha.
— Deveria estar nas passarelas do mundo todo. -eles riram.- Vamo?
— Bora!
— Quer que eu carregue o pão? -ele esticou a mão.
— Precisa não menino, besteira.
 
Eles foram caminhando, traçando caminho inverso ao que Kevin tinha feito até a padaria.
— Fala mais de você. - ele pensou na pergunta.- Quanto anos você tem? 
— Que delicado, perguntar a idade de uma dama, depois dela chorar em seus braços. -Kevin ficou desconcertado.
— Verdade mandei mal.
— To brincando amigo. Eu tenho 24 e você?
— É.. 19.
— Tão novinho, é um neném.
— Ah véi, nem tanto, vai.
— Porque nenéns se estressam fácil né? É engraçado. - ela riu.- E o pequenino lá, quantos anos ele tem? 17?
— 19, também.
— Perai, então eu vou sair com dois nenéns? Já me disseram que eu tinha cara de professora de creche, mas eu achei que era brincadeira.
— Ih ala, só por quê tem 5 anos a mais, tá se achando a idosa. Tudo bem, que a cara é de 85 e o corpo de 200, mas não tem nada haver isso ai.
— Poxa.. -ela parou e olhou pra baixo- magoou.
— É Brincadeira, desculpa, eu não quis ofender, foi sem querer.
— Eu to brincando menino. Você tem uma mania grande de se desculpar por tudo né? Até de coisas que não estão sob seu controle. Isso não faz bem não sabia? -continuou caminhando.
— É por quê eu não gosto de ver ninguém chateado, piorou se for por minha causa.
— Mas isso é ruim, eu era assim e olha o que aconteceu comigo. Precisei quase morrer e perder muitas coisas pra aprender. Aproveita que você está novo e aprende. não tenta controlar o que não está sobre a porra do seu controle! Coloca isso na sua cabeça, ou você vai se foder muito ainda! -Kevin ficou sem palavras, levando um choque de realidade.

Eles continuaram o caminho conversando sobre coisas bobas e sobre a cidade. até chegar na parte de areia e procurarem pelo Marcos e os outros amigos do Kevin.

Naquele AnoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora