17, Rastros

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AINDA QUE TIVESSEM CONSEGUIDO escapar, não podiam sorrir. A felicidade de saírem com vida era ofuscada pela culpa de serem os únicos sobreviventes.

Ao chegarem à zona de quarentena, cada um recebeu uma cesta com itens de higiene, mas mal tiveram tempo de cuidar de si mesmos. Foram rapidamente convocados para um interrogatório. A atmosfera era fria e impessoal; as paredes de concreto refletiam o ar tenso da sala desconfortável onde o grupo foi forçado a esperar.

— Conhecia o professor Lee Byung Chan? — indagou a mulher fardada, sua voz firme e sem traço de simpatia.

Hye Ji soltou uma leve risada nasal, um som amargo de indignação. A raiva fervia em seu peito, o peso dos dias de horror esmagando sua paciência.

— Passamos dias vivendo no inferno por causa de vocês, e ainda querem a nossa colaboração? — questionou Hye Ji, sua voz carregada de ressentimento.

A militar manteve o olhar firme, imperturbável:

— Se conhecia ele, alguma vez ele disse algo estranho ou agiu de forma estranha? — insistiu, ignorando a acusação na voz da jovem.

— Oh Joon Yeong, Lee Cheong San e Jang Wu Jin — mencionou a Lee.

— O que? — ela franziu o cenho, confusa.

— Eram meus melhores amigos — continuou Hye Ji, a dor transbordando em suas palavras. — E eles estariam vivos se vocês não tivessem nos abandonado na porra daquele terraço! — esbravejou, levantando-se de sua cadeira, os punhos cerrados de raiva.

O silêncio que se seguiu foi esmagador. A mulher fardada hesitou por um momento, a frieza de sua postura quebrada pelo impacto das palavras de Hye Ji.

— Eu entendo que vocês passaram por momentos difíceis, mas precisamos de todas as informações possíveis para evitar que isso aconteça novamente — disse a militar, sua voz tentando soar mais compreensiva, mas ainda dura como pedra.

— Vocês não entendem nada — murmurou, sua voz quase inaudível. — Nada pode trazer eles de volta.

A militar ficou em silêncio, percebendo que qualquer tentativa de justificar as ações dos superiores seria inútil. Hye Ji olhou para os outros sobreviventes, vendo nos olhos deles a mesma dor e ressentimento que sentia. Eles tinham sido traídos, abandonados quando mais precisavam dos adultos.

— Eu não tenho mais nada a dizer — a Lee disse por fim e foi liberada.

Meses depois, o eco dos passos da pesquisadora reverberava pelo corredor. Seu jaleco branco, impecável, destacava-se entre os demais, envolvendo-a como um manto de autoridade e mistério. Enquanto ela avançava, seus olhos, ocultos por trás dos óculos de aro fino, permaneciam fixos na prancheta em suas mãos, concentrada nas páginas.

Carnage // All of us are dead Histórias para pegar e não largar. Descubra agora