No coração da favela, escondida entre becos e vielas, havia uma pequena sala onde o tempo parecia ter parado. As paredes de tijolos descascados manchados de umidade estavam em contraste com o chão de concreto frio, coberto por uma fina camada de poeira e uma pequena poça de sangue. Uma única lâmpada pendia do teto, balançando lentamente, lançava uma luz fraca e amarelada. O clima ali dentro estava pesado, a fumaça de cigarro misturava-se em meio ao desespero e a dor.
No centro da sala, uma cadeira velha de madeira, desgastada pelo uso, estava próxima a uma mesa de metal cheia de marcas de ferrugem. Sobre a mesa, um maço de cigarros, um cinzeiro cheio de bitucas, um revólver e uma faca brilhavam ameaçadoramente sob a pouca luz. Essa sala era onde Diego levava aqueles que quebravam suas regras, o último ponto de parada para quem esquecia que a favela tinha um dono.
Agora, naquele espaço apertado e sufocante estava Formiga, de joelhos, com as mãos amarradas para trás, o rosto coberto de sangue e algumas lágrimas. Ele estava sendo espancado sem piedade por um dos homens de Diego. A cada golpe, ele gemia e suas forças iam se esvaziando. Ele sabia que seu fim estava próximo, mas aquele olhar indo diretamente aos olhos de Diego, como um pedido fervoroso de misericórdia, tentava apelar para algo. Afinal, Formiga e Diego se conheciam desde crianças, mas o destino os levou para caminhos diferentes. Diego chegou ao topo, era dono da maior favela do Rio de janeiro. Já Formiga, se afundou no mundo das drogas e bebidas, e chegou ao ponto de roubar pessoas para sustentar o seu vício.
Voltando para a realidade, Diego estava ali, encostado na parede, com os braços cruzados, observando a cena em silêncio, suas expressões eram neutras, como se estivesse assistindo a um espetáculo já conhecido. Ali, as regras eram claras: quem não as segue, perde o direito de continuar no jogo.
Quando os soluços de Formiga ficaram mais desesperados, Diego finalmente ergueu a mão, ordenando calmamente:
— Larguem ele.
O homem obedeceu de imediato, parando de bater em Formiga. Diego deu alguns passos à frente, agachou-se, ficando cara a cara com o homem que um dia foi seu amigo de infância. Os olhos de Diego penetravam fundo nos de Formiga, que agora chorava, sem qualquer traço de dignidade. — A que nível chegamos hein? — Diego perguntou com sua voz baixa, quase um sussurro, carregada de uma frieza que fazia o ar da pequena sala parecer ainda mais pesado.
— Diego não faz isso comigo cara. — Tremendo e ofegante, implorou por sua vida.
— Você está perdido irmão, olha só para o seu estado. Roubando na minha favela? Desrespeitando as minhas regras? Ta me achando com cara de palhaço?
— irmão, eu juro por Deus que não vou fazer mais isso. Eu só roubei aquela senhora porque eu precisava de grana cara. Entende o meu lado pelo amor de Deus. — Formiga disse, enquanto tossia e engasgava com seu próprio sangue.
— Por falar em Deus, sabe qual a minha diferença para ele? — Diego perguntou enquanto se levantava e andava em direção a mesa. — a primeira diferença é que Deus é amor. Já eu, bom, eu não acredito em amor, acredito em justiça.
Diego pega o revólver que estava encima da mesa, passa a mão no cano, olhando friamente para a arma. Em seguida ele pega alguns cartuchos de pólvora e começa a ingerir no armamento. Nesse mesmo momento Diego volta a ficar agachado na frente de seu amigo de infância, ele olha nos fundos dos olhos de Formiga e fala:
— A segunda diferença entre Deus e eu, é que se fosse Deus no meu lugar, ele iria ter misericórdia e iria te perdoar. Mas, se eu fizer isso, estarei indo contra tudo que já cobrei até hoje. As regras para morar na minha favela são simples irmão. — Disse Diego enquanto colocava o cano da arma bem no queixo de Formiga. — Se você não teve a competência de seguir uma regra tão simples como essa, de não roubar dentro do morro, então você não é digno para estar entre nós.
Um disparo ecoou pela sala. Formiga caiu, e o silêncio pesado tomou conta do ambiente. Diego ordenou: — Limpem tudo e sumam com o corpo.
Enquanto limpava as gotas de sangue das mãos, Diego saiu da sala sem olhar para trás, atravessou a viela com passos pesados e foi direto para o seu QG. Ao chegar, subiu para a laje, seu refúgio particular. Ali ele tinha a vista de toda favela, normalmente uma fonte de orgulho e segurança, que agora parecia carregada de sombras. O vento suave acariciava seu rosto, mas não trazia o conforto que ele tanto buscava. A imagem do amigo de infância, agora perdido para sempre, pesava em seu coração.
Para muitos, Diego era apenas um homem frio e calculista, alguém que fazia o necessário para manter o controle. Mas, o que quase ninguém sabia era que, por trás da postura implacável, ele só desejava uma coisa: paz. Paz para ele, para seu povo, para os que amavam. A morte de Formiga pesava em seu coração como uma lembrança amarga de que, mesmo em seu mundo, a paz era uma ilusão distante.
Diego permaneceu na laje, observando as luzes da cidade que piscavam como estrelas distantes. Ele sentia o peso das decisões que acabara de tomar, mas sabia que uma tempestade ainda maior se aproximava, ameaçando tudo o que havia conquistado. Em sua mente, uma pergunta martelava incessantemente: qual seria o próximo movimento desse jogo perigoso? O que será que Queiroz está tramando?
Quebrando sua linha de pensamentos, seu celular vibrou ao toque de uma notificação. Diego pegou e viu que era uma mensagem de um número anônimo: "A peça chave está se movendo, amanhã será um grande dia, acho melhor se preparar!". O coração de Diego acelerou. Aquela mensagem não era apenas um aviso, mas sim, um desafio direto. Ele sentiu uma onda de determinação e inquietação, ciente de que a estabilidade que ele havia construído estava prestes a ser testada de maneiras inesperadas. A noite estava apenas começando, e a verdadeira batalha estava prestes a ser travada.
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A Linha Entre Nós
RomanceStella, filha de Alberto, um respeitado policial federal, sempre viveu uma vida de luxo e conforto. Apesar de sua riqueza, ela nunca perdeu a humildade e sempre acreditou que não há porta que o dinheiro não possa abrir. Sua vida muda drasticamente a...