A lua estava alta quando Narciso e Oliver finalmente atravessaram os portões do castelo. O ar frio da noite parecia mais pesado, carregado com o silêncio tenso que pairava entre os dois amigos. Narciso, que havia se mantido firme durante a cerimônia, agora se apoiava levemente em Oliver, a exaustão finalmente tomando conta de seu corpo.
— Precisamos ir direto para o seu quarto — sussurrou Oliver, olhando ao redor para garantir que não fossem vistos.
Narciso apenas assentiu, seus passos mais lentos e incertos do que de costume. Ele estava fraco, e cada músculo parecia mais pesado do que o normal. A imagem distorcida de seu reflexo ainda queimava em sua mente, como uma memória que não conseguia apagar.
— Você vai ficar bem, Narciso? — perguntou Oliver, a preocupação evidente em sua voz.
— Não sei — respondeu Narciso, sua voz fraca. — Foi... diferente do que eu esperava.
Os dois amigos conseguiram chegar ao quarto de Narciso sem serem notados, mas antes que pudessem relaxar, a porta se abriu com um estrondo. O rei Haskel estava ali, o rosto tomado por uma mistura de raiva e alívio.
— O que você fez? — bradou o rei, sua voz ecoando pelo quarto.
Narciso ergueu o olhar para o pai, com um misto de desafio e cansaço.
— O que eu precisava fazer — respondeu ele, tentando manter a postura, apesar do cansaço evidente.
O rei deu um passo à frente, os olhos faiscando de fúria.
— Você arriscou tudo, Narciso! — gritou ele. — Você não entende o quão perigosa é essa maldição!
Narciso, cheio de raiva e frustração acumuladas, finalmente explodiu.
— E você nunca me diz o porquê! — ele gritou de volta, os olhos verdes brilhando de lágrimas e desespero. — Você me mantém preso aqui, me obriga a viver como um prisioneiro, e nunca explica nada!
Oliver, percebendo o clima tenso, tentou intervir.
— Majestade, ele só queria entender a verdade...
Mas o rei, tomado pela frustração, o interrompeu.
— Você não entende, Oliver. Essa maldição não é algo que ele pode desafiar impunemente.
Narciso balançou a cabeça, os joelhos começando a fraquejar.
— Eu... não posso mais viver assim... — ele murmurou, antes de desmaiar repentinamente, caindo nos braços de Oliver.
O rei correu para o lado do filho, a preocupação agora visível em seu rosto.
— Narciso! — ele exclamou, com uma voz que misturava desespero e medo.
Oliver, ainda segurando Narciso, olhou para o rei com olhos sérios.
— Majestade, ele está sofrendo de verdade. Ele não pode mais viver assim sem saber o que está acontecendo. Se você realmente quer protegê-lo, precisa confiar em mim. Me diga a verdade sobre essa maldição.
O rei Haskel hesitou, visivelmente abalado pelo desespero de Oliver e pelo estado de Narciso. Ele sabia que manter o segredo por mais tempo poderia custar ainda mais caro. Com um suspiro pesado, ele assentiu.
— Muito bem — disse ele, com a voz mais baixa e cansada do que nunca. — Mas você precisa entender que não é algo simples, Oliver.
O rei se sentou ao lado de Narciso, o rosto marcado por um misto de tristeza e culpa.
— A maldição que recai sobre Narciso não é apenas sobre beleza ou vaidade — começou ele. — É uma magia antiga, lançada pela sétima fada de Smeron, a mais poderosa e vingativa de todas. Ela não foi convidada para o batizado de Narciso, e isso a fez lançar um feitiço de vaidade mortal. Mas há mais do que isso.
Oliver o escutava com atenção, o coração acelerado pelo que estava prestes a descobrir.
— A maldição está enraizada na própria essência de Narciso — continuou o rei. — Ele foi abençoado com uma beleza estonteante, mas essa mesma bênção tornou-se sua maior fraqueza. Se ele se entregar completamente ao reflexo de sua imagem, a maldição o consumirá de dentro para fora, até que sua alma seja aprisionada em uma flor de narciso.
Oliver sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele compreendia, agora, o peso que Narciso carregava e o porquê de seu pai ter tomado medidas tão severas para protegê-lo.
— E quanto à flor? — perguntou Oliver. — A flor narciso é a única esperança de quebrar o feitiço?
O rei assentiu lentamente.
— Sim. A única maneira de salvá-lo é regar a flor, alguém disposto a sacrificar tudo por ele.
Oliver olhou para Narciso, inconsciente e vulnerável, e sentiu um nó na garganta. Ele sabia, com uma clareza dolorosa, que faria qualquer coisa para salvar seu amigo.
— Eu prometo que o protegerei — disse Oliver, com uma firmeza que surpreendeu o rei.
O rei Haskel olhou para Oliver, seus olhos suavizando-se por um momento.
— Eu sei que você faria isso, Oliver. E é por isso que eu confio em você.
Enquanto os dois estavam ali, unidos pelo desejo de proteger Narciso, o príncipe começou a se agitar, mergulhado em um sonho perturbador. Ele estava em um campo infinito de flores de narciso, cada uma com um reflexo distorcido de seu próprio rosto. Ele tentava correr, mas as flores pareciam segui-lo, seus reflexos zombando dele e sussurrando promessas de poder e beleza.
Narciso acordou de repente, com o rosto coberto de suor frio. Ele olhou ao redor, confuso e desorientado, mas aliviado ao ver Oliver ao seu lado.
— Eu tive um sonho estranho — murmurou Narciso, com a voz trêmula.
Oliver segurou sua mão, um gesto simples, mas cheio de significado.
— Eu sei que parece assustador agora, mas vamos superar isso juntos — disse Oliver, com um sorriso encorajador.
Narciso fechou os olhos por um momento, respirando fundo para recuperar o controle de suas emoções. Ele sabia que a jornada para quebrar a maldição seria longa e cheia de perigos, mas agora tinha uma determinação renovada.
— Eu preciso descobrir mais sobre essa maldição, Oliver — disse Narciso, com uma convicção recém-encontrada. — E a única maneira de fazer isso é enfrentá-la de frente.
Oliver assentiu, seu sorriso agora mais largo.
— Então vamos encontrar as respostas juntos, Narciso. Custe o que custar.
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Narciso
Fantasy"Às vezes, é no reflexo de nossas escolhas que encontramos quem realmente somos, e não no espelho que nos encara." No reino de Smeron, um príncipe nasce sob uma beleza deslumbrante - e uma maldição fatal. Condenado a nunca se ver, Narciso vive em um...
