Capítulo 3

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POV AGATHA

A noite passou em um pulo, e eu sinto que mal pude descansar ou refletir sobre as decisões que tomei. Meu corpo estava exausto, mas minha mente parecia ainda mais cansada, aturdida. Neste momento, eu me ajeitava na poltrona do avião. Já havia guardado minha bagagem de mão, mas continuava inquieta, incapaz de encontrar um momento de paz.

Ao meu lado, Rio parecia uma estátua, completamente indiferente à minha presença. Ela folheava um portfólio com atenção quase exagerada, e eu me perguntei se, em algum momento, ela sequer notou que eu estava ali. Peguei a revista oferecida pela aeromoça, junto com uma água com gás. Minhas mãos tremiam levemente enquanto folheava as páginas. As palavras pareciam embaralhadas, mas ainda assim era mais fácil encarar aquilo do que o vazio silencioso entre nós.

O ambiente do avião não ajudava. O ar condicionado soprava levemente frio, carregando o cheiro característico de cabine — uma mistura de tecidos, comida embalada e desinfetante. O som constante dos motores abafava as conversas ao redor, criando uma atmosfera de isolamento.

Horas haviam se passado desde nossa partida de Nova York, e eu já não aguentava mais aquela máquina de metal voadora. Já havia me levantado, caminhado pelo corredor estreito e me sentado mais vezes do que gostaria de admitir. Rio, por outro lado, parecia não ter se movido um centímetro, mantendo-se fria e distante à minha existência. Suspirei alto pela milésima vez, relendo a mesma página da revista. Finalmente, sua voz quebrou o silêncio.

— Bom, a boa notícia... — ela disse, sem desviar os olhos do papel. — É que eu sei responder todas essas perguntas sobre você. — Virou uma página casualmente, como se falasse sobre o tempo. — A má notícia é que você terá cinco dias para aprender tudo sobre mim. Então é melhor começar a estudar.

Sua voz era firme, mas tranquila. Finalmente entendi: ela tinha pesquisado as perguntas do sistema de imigração e estava um passo à frente. Meus olhos pairaram sobre ela, e por um minuto me permiti observá-la.

 Seu braço próximo do meu estava desnudo, coberto por músculos sutis, apoiado relaxadamente no braço da poltrona. Sua blusa preta de alças finas deixava à mostra o início de um ombro marcado, enquanto a calça jeans justa terminava em coturnos estilosos. Pequenos acessórios brilhavam discretamente: uma pulseira fina, brincos de pedrinhas e um colar delicado que se perdia em seu pescoço. Seu cabelo bagunçado caía sobre os ombros, e a franja desordenada dava um ar de desleixo calculado — ou talvez de quem acabara de transar.

Fingi uma risada para disfarçar meu desconforto e agarrei o papel que ela segurava, puxando-o de suas mãos. Passei os olhos sobre as perguntas. Por um segundo, meu coração acelerou.

Ela sabia tudo isso sobre mim? Não podia ser. Era perturbador, principalmente pelo fato de ela ser a única pessoa viva a conhecer tantos detalhes da minha vida.

— Você sabe responder todas essas perguntas sobre mim? — ironizei, levantando o olhar em sua direção.

Sem me encarar, ela desviou os olhos para a janela do avião, como se a conversa fosse apenas mais um incômodo.

— Assustador, não é? — ela respondeu, sem emoção.

— Um pouco... — murmurei, folheando as perguntas. — A que sou alérgica?

— A nozes — ela respondeu de imediato, fazendo uma pausa antes de acrescentar: — E a todas as emoções humanas.

— Haha! Que engraçada. — Ignorei sua provocação, mas comecei a procurar algo que só alguém muito próximo saberia. — Eu tenho alguma cicatriz?

— Não, mas tenho certeza de que tem uma tatuagem. — Sua resposta veio rápida, e desta vez ela virou o rosto para me encarar.

— Tem certeza? — perguntei, minha voz carregando uma incredulidade mal disfarçada.

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