POV RIO
Observo a movimentação ao redor da sala de estar com um misto de curiosidade e cansaço. Meu pai, atento, havia preparado uma sopa quente e servido para mim e para Agatha. Estávamos sentadas no sofá, embrulhadas em edredons grossos, tentando nos aquecer do frio que ainda parecia entranhado em nossos ossos. A TV ligada no jornal local anunciava a previsão do tempo para o dia seguinte: "Tempo claro e sol por todo o dia" . O mesmo sol que brilhara desde que chegamos, mas que, de alguma forma, não conseguira aquecer o que realmente importava.
— Tome enquanto ainda está quente, Rio. — A voz de meu pai ecoa suave, mas carregada de preocupação. Ele se senta à minha frente, segurando um termômetro que logo é colocado sob minha língua. Seus olhos, cheios de cuidado, não deixam de me observar, como se eu pudesse desmoronar a qualquer instante.
Meu olhar se desvia para Agatha, sentada ao meu lado. Ela parece distante, seus olhos azuis fixos em um ponto indefinido à frente, como se estivesse presa em um mundo paralelo, longe dali. Seus cabelos ainda estão úmidos do banho que meu pai insistiu que tomássemos. Um banho que, infelizmente, não foi como eu imaginei. Eu queria compartilhar aquele momento com ela, sentir a água quente escorrendo sobre nossas peles, aproximar-nos ainda mais depois do beijo que havíamos trocado. Mas não foi assim. E a frustração da expectativa não criada ainda ecoa em mim.
Eu quero mais do que um banho com Agatha. Eu quero *ela*. Quero ouvir seus desejos sussurrados em meu ouvido, sentir sua respiração acelerada, ver seus olhos brilhando de paixão. Quero isso de novo. E de novo. E de novo.
No entanto, algo mudou em Agatha desde que nos encontramos após o banho. Ela não queria descer para comer; meu pai praticamente a arrastou até a sala. E desde que se sentou, permanece em silêncio. Seus olhos azuis vagueiam pelo cômodo, observando a movimentação de meu pai e de Eric, mas evitando os meus. Parece não compartilhar dos mesmos desejos que eu. Ou talvez esteja lutando contra eles.
— Você está bem. — Meu pai quebra o silêncio ao retirar o termômetro da minha boca. — Agora você. — Ele se levanta e se aproxima de Agatha, que pisca, confusa, ao se ver diante dele.
— Obrigada, Joe, mas eu estou bem. — Ela murmura, a voz rouca e cansada. Suas mãos apertam a coberta que a envolve, como se fosse uma armadura contra o mundo.
— Precisamos ter certeza. — Meu pai insiste, ignorando sua relutância. — Vamos lá, Agatha.
Ela o encara por um momento, seus olhos azuis levemente arregalados, mas cede. Estende o braço para fora das cobertas, e meu pai coloca o termômetro. Ele se senta ao seu lado, e eu percebo algo diferente: ele a chamou pelo nome, e dessa vez, corretamente. Um detalhe pequeno, mas que me surpreende.
Puxo a tigela de sopa para mais perto de mim e tomo duas colheradas de uma vez. Está deliciosa, mas minhas mãos tremem, o frio ainda persistente em meu corpo. De repente, sinto o olhar de Agatha sobre mim. Viro-me para ela, e nossos olhos se encontram. A tensão no ar é palpável. Ela me observa com intensidade, como se fizesse perguntas silenciosas que nem mesmo ela sabe responder. Seus olhos percorrem meu corpo — minhas mãos trêmulas, meus cabelos desalinhados, meus lábios — e ali se fixam. Um sorriso tímido surge em meus lábios, involuntário. Tomo outra colher de sopa e aponto para a tigela intocada à sua frente. Ela olha para a sopa, hesitante.
— Está tudo certo com as duas. Graças a Deus. — Meu pai interrompe o momento ao retirar o termômetro de Agatha. — Tome um pouco da sopa, vai te fazer bem.
Ele toca o ombro de Agatha com gentileza, e ela o encara, ainda distante. De repente, um burburinho é ouvido perto da porta de entrada. Minha mãe e minha avó entram em casa, ambas com expressões de preocupação estampadas no rosto.
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A Proposta #AGATHARIO
FanfictionAgatha Harkness é uma poderosa editora de livros em Nova York que corre risco de ser deportada para o Canada, seu país natal. Para poder permanecer em Nova York ela se diz noiva de Rio Vidal, sua assistente. A jovem aceita ajuda-la, mas impõe alguma...
