Capítulo 11

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"Espero que não seja tarde 'pra dizer, nem cedo demais 'pra não me arrepender"

Lagum - Olha Bela

A multidão de pessoas na sua frente quase fez Pedro perder Malu de vista. A amiga foi para Belo Horizonte passar o carnaval com o mineiro, aproveitando para ver seus pais. Essa era a época favorita de Pedro do ano, então ele ficou muito animado quando soube que teria a amiga junto a ele depois de tantos anos. Quando eram mais novos, consideravam a festa boba, banal, e acabaram não aproveitando como deveriam. A primeira vez deles nos bloquinhos de rua fora apenas no penúltimo ano do Ensino Médio e ele só conseguiram curtir o feriado por dois anos juntos, mas eles com certeza curtiram tudo que podiam.

Neste ano, pela primeira vez, Pedro não sentiu vontade de estar com muitas pessoas. Curtir as músicas dos bloquinhos parecia muito mais interessante do que beijar qualquer boca por aí, principalmente quando estava acompanhado.

Lucas estava com as mãos entrelaçadas com as de Pedro enquanto eles tentavam atravessar a multidão de pessoas na avenida até os sanitários. Malu ia na frente alegando estar muito apertada e eles serem muito lerdos, mas Tófani nunca deixaria a amiga fora de vista em um momento como esse, então segurava a mão do outro puxando para caminharem mais rápido e alçarem Malu.

Enquanto a esperavam, os dois compraram bebidas e foram até um local com sombra. Não existia muita conversa entre eles mais, Pedro sabia que Lucas sentia o clima esfriando entre eles, a tensão que dominava a atmosfera ao redor - mas, mesmo assim, ele fingia que nada estava acontecendo. Pedro não aguentava mais.

— Ei, lindo. Tem certeza que não quer voltar para a minha casa comigo? A gente pode terminar esse carnaval de um jeito muito mais gostoso. — comentou Lucas puxando Tófani para perto de si, seus braços rodeando a cintura do mais velho.

— Eu já falei que vou para a casa com a Malu, Lucas. — bufou — E todas as minhas roupas estão na casa dos pais dela, você sabe que seria inviável voltar para lá amanhã de manhã para me vestir.

— Eu posso te emprestar minhas roupas — respondeu tentando dar alguns beijos no pescoço de Tófani, mas, antes que alcançasse a pele do outro, os corpos foram afastados e Pedro recuou.

— Caralho, Lucas! Você não sabe ouvir um não? Porra, você nunca me escuta!

— Claro que eu te escuto, lindo! Mas eu sei que você também quer isso...

— Se eu disse que não quero, é porque eu não quero. — aquela era a gota d'água para Pedro, ele não aguentava mais estar na companhia do outro — Boa sorte em tentar encontrar alguém que te queria.

Pedro teve que sair correndo, pois sabia que Lucas poderia ser muito insistente e ele não aguentaria escutar mais nenhuma palavra saindo da boca dele. Agradeceu por esbarrar com Malu no caminho e puxou a mão da amiga para acompanhá-lo, explicando brevemente o que havia acontecido e conseguindo ver pelo canto dos olhos sua amiga comemorando.

— Finalmente, Pepê! Não aguentava mais esse pé no saco com a gente.

— Nem eu!

— Quer beijar outras pessoas agora? — ela perguntou quando conseguiram um lugar próximo a bateria do bloco, mas distantes o suficiente para que pudessem se escutar.

— Hm, não. Acho que não 'tô no clima 'pra isso.

— Olha, eu sei que você sempre respeitou muito seus parceiros, mas agora você 'tá desacompanhado!

— Eu só não 'tô afim mesmo. — respondeu tomando um gole da bebida — Depois a gente conversa, pode ser?

— Eu não vou me esquecer disso, viu, senhor Palhares!

O resto do dia passou muito mais leve para os amigos. Malu realmente respeitou o pedido do amigo e não tocou mais no assunto e Pedro nunca se sentiu tão grato por isso. Mesmo com toda a bebida no seu organismo, era difícil para ele explicar tudo que estava sentindo, já que nem ele mesmo entendia. Torcia para que, pelo menos, a conversa de mais tarde o ajudasse nisso.

𖤐

Era final da tarde quando Pedro e Malu foram embora da festa na rua. O efeito da bebida já havia passado e ele apenas se sentia mais leve, mas não estava alterado. Enquanto esperava Malu tomar banho, o telefone de Pedro tocou, uma vídeo chamada de João:

— Ei, baby! — a voz do paulista saiu embolada. Seu rosto corado e o cabelo bagunçado denunciavam que João estava longe de estar sóbrio, mas, para o alívio de Pedro, os quadros atrás dele mostravam que o loiro já estava em casa. — 'Tô com saudades — um bico surgindo nos lábios de coração.

— Acho que você 'tá é bêbado, Jão — respondeu Pedro com um sorriso no rosto em um tom divertido.

— Eu 'tô ótimo! — as palavras ainda saiam emboladas, mas o tom de indignação era presente. Pedro estava se esforçando muito para se manter sério, já que o bico nos lábios de João indicavam o quão ofendido ele estava com aquela afirmação.

— Claro, baby. E você me ligou para...

— Ah! Eu senti sua falta no carnaval hoje. — o bico ficando ainda maior, aumentando também a vontade que Pedro estava de beijar a boca de Romania. — Pensei em você o tempo todo, sabia?

— Eu imagino! — Pedro não sabia que acreditava mesmo no que era dito. "João 'tá bêbado, é só isso." — E você pensou em mim enquanto beijava por aí?

— M-mas — um soluço interrompeu a fala de João — Eu não beijei ninguém. Ninguém seria você, ninguém me beijaria tão bem.

O silêncio foi a resposta de Pedro. Ele se sentiu culpado por ter beijado outras bocas durante o dia, mesmo que o paulista fosse a única pessoa que ele queria ter beijado também. Mesmo quando estava com Lucas, era sempre nele que Pedro pensava. Era sempre o beijo dele que estava faltando, nenhum beijo era tão bom quanto o do João.

Pedro agradeceu por João estar tão bêbado que não se incomodou com a sua falta de resposta. O sorriso leve permanecia nos lábios rosados do paulista e seus olhos estavam quase fechados enquanto ele parecia se esforçar para enxergar Pedro com clareza, já que estava sem óculos.

Mais alguns minutos em silêncio. Pedro ainda não sabia o que falar, mas já não estava mais tão tenso. Apenas admirava a expressão fofa do outro através da tela. Tomou um susto com a mudança rápida no rosto de João, que agora se fechava em preocupação.

— Pedro — a pausa na fala quase fez o mineiro ter um ataque cardíaco, ansioso com o que João poderia estar chateado com ele — Você usaria fantasia de casal comigo no carnaval?

Foi impossível segurar a risada. Pedro amava todos os pensamentos de João.

— Sim, baby — respondeu ainda sorrindo.

— E você usaria uma fantasia brega de casal comigo? — perguntou João ainda mais sério.

— Eu usaria qualquer coisa que você quisesse 'pra te fazer feliz.

O sorriso logo tomou conta de todo o rosto de Romania. Mais uma vez, mudando sua expressão como se não estivesse com uma feição séria alguns segundos atrás.

— Eu te amo, Pê!

Mais um silêncio. Dessa vez, a ligação caiu. Pedro foi salvo pelo gongo - ou pelo péssimo sinal da operadora do João. Finalmente pode soltar a respiração.

𖤐𖤐𖤐

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xx Lia

Sina Onde histórias criam vida. Descubra agora