Capítulo 2

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"São Paulo é uma droga, vai usar você"
Jão — São Paulo, 2015

Aquela cadeira só poderia ser feita de madeira, pensava Pedro. Soltou mais um suspiro e tentou mudar de posição de novo para poder sentir um pouco menos dor. Ele esperava muito que todo aquele perrengue fosse recompensado na festa amanhã. Os alunos de medicina não iriam fazer uma festa ruim, certo? Pedro contava com isso.

Quando chegou na rodoviária, obviamente, a humilhação não teria acabado. Ele jurava que as oito horas de dor de cabeça com a senhora no ônibus ligando para todos os seus quatorze filhos teria sido o suficiente, mas parece que São Paulo sempre poderia te surpreender — do pior jeito.

O trânsito da casa da Malu até a rodoviária estava caótico naquela sexta-feira, o que fez a amiga atrasar quase uma hora para buscá-lo. Nesse meio tempo, Pedro já estava aceitando que morreria congelado sem um casaco naquela manhã fria de São Paulo, sem ao menos uma lanchonete aberta para ele poder tomar um café e se esquentar. "Isso nunca aconteceria em Minas", pensou revirando os olhos.

O abraço quente de Malu cortou um pouco o frio que estava sentindo e Pedro se sentiu em casa, como não se sentia há muito tempo. Sentir o cheiro de morango no cabelo da amiga o transportava para um tempo em que eles não precisavam se preocupar com muita coisa e a vida era só brincadeiras. Para Pedro, Malu cheirava à paz. Pena que no momento ele ainda estava puto com a amiga.

— Porra, Maria Luisa! Eu quase morri nessa rodoviária te esperando! — exclamou exagerado.

— Relaxa, Pedro. — ela revirou os olhos — vou te recompensar com o melhor café da manhã de São Paulo, você vai ver?

— É você que vai fazer? — perguntou olhando para ela de canto, julgando as habilidades que a amiga tinha na cozinha.

— Óbvio que não, Pedro — ela riu — Vou te levar na cafeteria lá perto de casa, vem!

E, então, Pedro já tinha se esquecido do porque estava irritado com a melhor amiga. Ele sempre foi fácil de conquistar pela barriga.

𖤐

A noite de hoje terminaria em bebida. Era a única certeza que Pedro tinha. Iriam encontrar com os amigos paulistas da Malu e todas as vezes que Pedro saiu com eles...bem, ele não se lembrava muito do que tinha acontecido na maioria delas.

A jaqueta de couro pesava seus ombros e a transparência no tecido da regata branca por baixo era proposital. Ele sempre amou ter os olhares sobre si, por mais que reagisse de forma um pouco tímida quando recebesse.

Quando chegaram no bar, depois de muito atraso e reclamações de Pedro sobre o trânsito de São Paulo, ele finalmente pode pedir sua primeira bebida. Sentir o álcool entrando no seu organismo era uma sensação que ele adorava, e já o deixava ansioso para o próximo drink.

Pouco a pouco os amigos de Malu foram chegando e ele reconheceu apenas alguns rostos. Renan e Gio haviam encontrado-os para almoçar mais cedo e eram próximos de Malu desde que ela se mudou para a capital paulista. Pedro já tinha um afeto por eles e sempre apreciou a companhia dos dois. Era leve e fácil estar com eles.

Outros dois rostos eram desconhecidos para ele. Uma mulher e um homem chegaram juntos, mas não pareciam ser um casal. Ou ainda não eram um casal, porque Pedro conseguia ver os olhares e toques que eles trocavam, achando que passavam despercebidos pelo resto do grupo, mas claramente eles estavam falhando. 'Tava na cara deles o tanto que queriam se beijar. Pedro suspirou pequeno, queria muito ser beijado também naquela noite, mas não parecia ser seu dia de sorte. Renan já namorava e Gio não gostava de homens, mas um comentário entre o grupo chamou sua atenção.

— O João não vem? — era Giovana que perguntava enquanto já pedia sua segunda cerveja para o garçom.

Quem era João?

— Não, ele tem que trabalhar amanhã. — comentou Renan fazendo pouco caso. Parecia que não era a primeira vez que o 'tal João não se encontrava com eles por ter que trabalhar. — Mas ele ainda vai na festa amanhã!

O assunto se encerrou tão rápido quanto a batata frita que eles pediram chegaram. O álcool já fazia efeito no organismo da maioria e não existia mais vergonha em cantar — ou berrar — as piores e melhores músicas no karaokê.

Pedro já estava com a barriga doendo e lágrimas se formavam nos seus olhos, não conseguia respirar de tanta risada que dava para a performance incrível de Renan e Giovana com "Happier Than Ever", da Billie Eilish. Quando chegou no refrão, todos berraram a letra como se não houvesse mais ninguém além deles no bar. Ou no bairro. Eles estavam cantando muito alto. Com direito a Giovana se jogando no chão enquanto dramatiza ainda mais a performance e recebendo muitos aplausos no final.

Algum momento antes do final da noite, Pedro foi ao banheiro para tentar ficar um pouco mais sóbrio. Agradecia muito por Malu não ter pedido para ele dirigir a moto para voltarem para casa, porque ele poderia nem saber muito bem falar seu nome inteiro no momento. O sorriso que deu para o reflexo no espelho parecia desajeitado e tudo já estava mais engraçado, então ele teve outra pequena crise de risos com a própria imagem antes de voltar para a sala reservada que estavam.

Pedro nem precisou pensar qual era mesmo a sala deles, porque com certeza todo mundo ali sabia qual era. E Pedro nem conseguiria pensar no momento também. Mas uma coisa ele tinha certeza: todo mundo ali escutou a performance completamente desafinada dele e de Renan de "Hips Don't Lie" da Shakira. Uma pena que não foram todos que puderam ver a cena dele tentando rebolar como a cantora no clima e arrancando uma risada de todo mundo ali.

O fim da noite foi um borrão para ele. Ele deitou na cama com um sorriso no rosto. Pedro amava São Paulo.

𖤐

Mais um capítulo hoje para vocês conhecerem um pouco mais da história. E me contem, vocês querem que eu crie uma comunidade para interagir e avisar sobre as notificações? 👀

xx Lia

Sina Onde histórias criam vida. Descubra agora