Eles retornaram à refeição em silêncio, o som suave dos talheres cortando o ar e batendo delicadamente contra a porcelana, preenchendo o espaço entre eles com uma tensão silenciosa, mas palpável. Severus comia com gestos firmes e precisos, quase meticulosos, como alguém acostumado a controlar cada movimento, a cada pedaço de comida. Havia uma tranquilidade aparente em sua postura, como se estivesse perfeitamente à vontade, mas Olivia, atenta aos pequenos detalhes, enxergava algo além. Havia uma tensão sutil em seus olhos, uma espécie de contenção que, por um instante, sugeria que sua distância calculada não era apenas um mecanismo de defesa. Ele parecia absorver cada palavra que ela dissera, cada fragmento de sua sinceridade, como se estivesse formulando algo, pensando sobre a complexidade do que acabara de ser revelado. Ele não dizia nada, mas a mente dele parecia mais inquieta do que sua calma superficial deixava transparecer.
Após alguns minutos, ele finalmente interrompeu o silêncio, sua voz calma e controlada, mas com um leve toque de surpresa.— Não esperava que você fosse ser tão sincera — ele comentou, olhando-a com um semblante neutro, mas sem a frieza habitual. — Acho que temos essa tendência... de manter as coisas simples. Especialmente em uma situação como a nossa.
Olivia não precisou de muito para entender a que ele se referia: o contrato, o casamento arranjado, o objetivo pragmático que ambos haviam aceitado com o tempo, como um acordo mútuo de benefícios. Desde o início, tudo parecia claro, direto, sem espaço para dúvidas ou complicações. Tudo era uma transação, simples e objetiva, onde os sentimentos não tinham lugar. Mas, naquele momento, algo em seus olhos sugeria que essa linha entre o simples e o complexo começava a se tornar tênue, borrada. Talvez o que havia sido planejado como uma aliança sem emoção estivesse começando a ser questionado, se não por ele, então por ela. E essa mudança, ainda que imperceptível, trazia um peso que ela não conseguia ignorar.
— Sim, manter as coisas simples é... seguro — respondeu Olivia, sem tirar os olhos da comida, mas completamente consciente da linha tênue que estava começando a cruzar. Ela sabia que estava tocando em um território delicado, mas algo na leveza com que ele havia respondido a encorajava a continuar. — Mas, às vezes, o seguro pode ser um pouco... solitário, não é?
Severus ergueu o olhar, quase imperceptível, como se a pergunta dela tivesse ressoado mais fundo do que ele imaginara. Surpreso, mas sem recuar, ele respondeu com a mesma calma que o caracterizava, mas havia algo no tom dele que parecia mais ponderado.
— Pode ser — disse ele, pausando enquanto colocava os talheres com delicadeza na mesa. — Mas também pode ser necessário, principalmente quando as expectativas estão tão bem definidas.
Olivia sabia que ele se referia ao contrato, o arranjo que os unia de forma prática, sem promessas além do acordado. A frieza do conceito parecia tão claro para ele, tão aceitável, mas algo no modo como ele agora se dirigia a ela fazia com que a linha entre o “necessário” e o “desejado” parecesse mais turva.
— Você quer dizer o contrato? — perguntou ela, direta, sem rodeios, como se estivesse disposta a colocar todas as cartas na mesa de uma vez.
Severus, que até então parecia tranquilo, deu um leve sorriso, quase imperceptível, que apareceu rapidamente antes de ele se recostar na cadeira e girar a taça de vinho entre os dedos, pensativo.
— O contrato é claro — respondeu, sua voz suave, mas com um leve toque de desafio. — Sabemos exatamente o que cada um vai ganhar. Não deveria haver espaço para dúvidas.
— E se houver? — A pergunta escapou de Olivia antes que ela pudesse contê-la. As palavras estavam fora de seu controle, como se uma parte dela quisesse quebrar a superfície tranquila da conversa e mergulhar em algo mais profundo, mais... humano.
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Entre Dois Mundos
RomanceApós sobreviver milagrosamente à mordida de Nagini, Severus Snape enfrenta um novo desafio: adaptar-se às rigorosas reformas do Ministério da Magia, que busca reconstruir a sociedade bruxa após o término da guerra. Forçado a abandonar a segurança da...