Capitulo 8

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A semana que Olivia e Severus passaram com Arthur, o afilhado dela, foi surpreendentemente tranquila. Severus, que sempre teve uma relação conturbada com crianças, se viu em uma situação incomum, pois a única criança pequena com quem tinha interagido antes era seu afilhado Draco, e mesmo essa interação não era muito próxima. Arthur, por outro lado, era uma criança cativante e cheia de vida, sempre à sombra de Olivia ou cercado por suas colegas bruxas e trouxas, que se encantavam com o pequeno. Elas até pediam que Olivia comesse suas refeições na escola só para ter a oportunidade de vê-lo.
Arthur era curioso, mas também cauteloso. Severus não teve que lidar com a preocupação de que o menino mexesse em suas coisas ou quebrasse algo valioso. Em vez disso, ele observava com uma mistura de fascínio e apreensão enquanto Olivia e suas amigas se revezavam para cuidar do garoto sempre que ela tinha aulas. A dinâmica era harmoniosa, e Olivia parecia brilhar na presença de Arthur, algo que Severus raramente testemunhava.
Certa tarde, ao voltar para o quarto ao fim do dia, ele se deparou com uma cena que o fez parar na porta. Olivia estava cantando e dançando “Dancing Queen” com Arthur, que estava encantado. O aparelho de som diminuto pulsava com a música, e os dois riam, girando e improvisando coreografias. Olivia, vestindo um suéter verde que realçava seu brilho natural e um short que deixava suas pernas expostas, dançava com uma leveza hipnotizante.
Quando Olivia percebeu a presença de Severus, desligou a música abruptamente, seu rosto corando instantaneamente. Ele a observou passar a mão na roupa e no cabelo, tentando recuperar a compostura.
— Por que você desligou a música? — ele perguntou, um toque de frustração na voz.

Naquele momento, uma lembrança involuntária invadiu sua mente: quando era criança, divertia-se em casa com sua mãe bruxa até que seu pai trouxa, bêbado, chegava e a alegria se esvaía como um balão furado. Ele e sua mãe trocavam olhares de preocupação, temendo a explosão de raiva que sempre se seguia. Severus não via nos olhos de Olivia e Arthur o mesmo medo que ele e sua mãe tinham quando seu pai aparecia, mas sentia uma pontada de desconforto ao perceber que Olivia ainda não se sentia totalmente à vontade para ser ela mesma na sua presença.

Tomado por uma mistura de desespero e determinação, Severus se aproximou do aparelho de som e apertou o botão de play. A música voltou a tocar, e um sorriso iluminou o rosto de Arthur, que imediatamente retomou a dança com Olivia, agora um pouco menos frenética, mas ainda assim dançando com alegria contagiante. Severus sentiu uma onda de satisfação ao parar no arco da porta da cozinha, observando os dois. Nesse instante, ele percebeu que talvez estivesse testemunhando algo mais do que um simples momento de diversão. Era uma nova forma de felicidade, uma que ele não sabia se poderia alcançar, mas que se viu desejando profundamente.
Ali, naquele pequeno espaço, ele começou a entender que havia mais na vida do que a dor do passado. Havia risos, dança e a possibilidade de um futuro diferente — um futuro que poderia incluir momentos leves, onde o medo e a tristeza não tivessem lugar. A cena se desdobrava diante dele como um vislumbre de um mundo em que a felicidade não era apenas uma lembrança distante, mas uma realidade que ele poderia, talvez, começar a abraçar.

****

Ao final dos cinco dias, Patrícia ligou para informar que já estava de volta à Londres. Severus e Olivia se prepararam para levar Arthur de volta à mãe. A viagem de trem foi tranquila, embora o dia estivesse cinzento e chuvoso, com o frio se intensificando a cada minuto. Ao chegarem à estação, saíram em direção ao Beco Diagonal e, em seguida, pegaram um táxi até a casa de Patrícia.
Quando chegaram, Patrícia os recebeu com um sorriso radiante, visivelmente feliz por ver Arthur novamente. Ela agradeceu efusivamente a Olivia e Severus por cuidarem do filho e começou a contar sobre sua experiência no Festival de Cannes, onde fez contatos valiosos que poderiam impulsionar sua carreira de fotógrafa. Os três trocaram despedidas e as palavras de gratidão de Patrícia eram sinceras e cheias de alegria. Após um último aceno e mais agradecimentos, Olivia e Severus se despediram e começaram a caminhar de volta para a estação.
Enquanto caminhavam, Olivia apontou para um pequeno edifício de apartamentos.

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