O Dia das Bruxas aconteceu em um sábado, e durante toda a semana anterior os alunos não falavam de outra coisa. A escola estava decorada com abóboras e morcegos — reais! — que davam um ar misterioso aos corredores. Olivia, no entanto, estava um pouco perdida. Ela não fazia ideia de como funcionava o Halloween, seja no mundo dos muggles ou no dos bruxos. Em seu país, a tradição não era comemorada, e o pouco que sabia vinha dos filmes norte-americanos que assistia na TV.
Quando o sábado finalmente chegou, Olivia e Severus começaram a se preparar para a reunião na casa dos Weasley, para a qual haviam sido convidados. Olivia sentia um misto de ansiedade e empolgação, especialmente porque os anfitriões estavam curiosos para conhecê-la e as demais muggles do grupo. Apenas Camila e Sofia, acompanhadas de seus respectivos noivos, poderiam ir; as outras tinham compromissos, mas prometeram conhecer a família Weasley em outra ocasião.
A temperatura estava gelada, e Olivia escolheu se vestir com botas, meia-calça, uma saia, um suéter, um casaco longo e um gorro para se proteger do frio. Severus, por sua vez, colocou seu “disfarce muggle”, vestindo um sobretudo preto sobre um suéter de gola alta — o que sempre agradava a Olivia.
— Quer ir aparatando ou experimentar algo diferente e usar o pó de Flu? — perguntou Severus, arqueando uma sobrancelha em sua direção.
— Vamos tentar algo diferente — respondeu Olivia, curiosa. Embora não soubesse ao certo como era viajar pela rede de Flu, confiava plenamente em Severus e na sugestão dele.
Severus olhou para Olivia de cima a baixo, notando-a pela primeira vez desde que ela havia trocado de roupa. Ela estava especialmente bonita; as cores que escolhera realçavam o brilho dos seus olhos, e o gorro complementava perfeitamente seus cachos que escapavam delicadamente por baixo da lã. Ele não pôde evitar um momento de admiração silenciosa. Algo nela parecia diferente, como se houvesse um brilho novo em sua expressão ou talvez fosse o reflexo da animação para aquela noite.
Ele percebeu que ela havia esquecido um detalhe. Pegou um cachecol que estava pendurado próximo à porta, aproximou-se dela e o enrolou suavemente ao redor de seu pescoço. Seus dedos hesitaram por um segundo, e ele quase levou a mão ao seu rosto, sentindo o impulso de tocar sua pele, mas conteve-se. Ajeitou o cachecol com um leve sorriso e disse:
— Talvez seja melhor irmos aparatando. Se usarmos o pó de Flu, a poeira das chaminés pode estragar sua roupa — sua voz saiu baixa e próxima, carregada de uma intimidade que a fez corar.
Olivia, enrubescida pela gentileza e proximidade, assentiu, quase sem palavras. Ele se dirigiu à porta, abrindo-a para ela passar primeiro. Ela sentiu o ar frio do lado de fora enquanto saía, e Severus a seguiu, fechando a porta atrás de si.
Antes de aparatar, ele a observou por um instante, como se estivesse prestes a dizer algo, mas apenas murmurou:
— Então, vamos para A Toca.Com um gesto sutil, ele estendeu a mão, e Olivia, com um leve sorriso de nervosismo, segurou-a com firmeza. O toque das mãos entrelaçadas aqueceu o breve silêncio entre eles antes de desaparecerem juntos na noite, prontos para a aventura e para os olhares curiosos que os aguardavam na casa dos Weasley.
***
Quando Olivia sentiu seus pés tocarem o solo novamente, precisou de um momento para se recompor da leve tontura causada pela aparatação. Assim que sua visão estabilizou, ela começou a observar, maravilhada, os detalhes do lugar onde estava.
O sol já começava a se pôr, tingindo o céu com tons suaves de laranja e rosa, e banhando a área externa da casa dos Weasley — A Toca — em uma luz quente e acolhedora. A casa exalava uma desordem charmosa, cheia de personalidade e vida. Situada em meio a um vasto campo rural, era cercada por um gramado amplo e irregular, onde ervas daninhas e plantas cresciam desordenadas, como se o jardim tivesse sido deixado à própria sorte. No entanto, isso só aumentava o charme rústico e a sensação de um lar cheio de histórias.
A própria estrutura da casa parecia um amontoado de construções de tamanhos e formatos variados, empilhadas umas sobre as outras de maneira improvável, como se desafiassem a lógica. Suas paredes eram de pedra e madeira desgastadas pelo tempo, e o telhado exibia telhas antigas de diferentes cores e estilos. Pequenas janelas irregulares salpicavam a fachada, com cortinas caseiras que tremulavam levemente, dando à casa uma aparência acolhedora. Olivia percebeu uma coleção de botas velhas e outros itens espalhados pela entrada, deixados de forma despretensiosa, como se a família estivesse sempre saindo às pressas para alguma nova aventura.
No jardim, além de sapos de jardim, havia pequenas criaturas rechonchudas que corriam para se esconder. Olivia franziu o cenho, e Severus explicou em voz baixa que eram gnomos — criaturas travessas que adoravam morder quem tentava capturá-los! Mais ao fundo, Olivia viu um pequeno galinheiro onde algumas galinhas circulavam livremente, e próximo a ele, uma horta simples mas bem cuidada, onde cresciam vegetais e ervas que a Sra. Weasley provavelmente cultivava para as refeições da família.
O ambiente inteiro irradiava uma mistura de magia e calor humano, como se o próprio local estivesse impregnado de uma energia acolhedora. Olivia sentiu-se imediatamente em casa, como se a Toca tivesse o poder de envolver qualquer visitante em um abraço invisível e reconfortante.
Severus e Olivia caminharam lentamente até a porta principal da Toca. À medida que se aproximavam, Olivia sentiu uma mistura de nervosismo e curiosidade, seu olhar vagando de um detalhe para outro — as janelas, o telhado excêntrico, as plantas no jardim, como se cada coisa ali contasse uma história da família Weasley.
Ao chegarem à porta, Severus bateu duas vezes e recuou, aguardando. Olivia, sentindo um friozinho repentino na barriga, agarrou a manga do sobretudo dele com uma mão leve, mas nervosa. Ele notou o gesto e virou-se para ela, seus olhos suaves.
— Eles vão gostar de você, Olivia — disse em voz baixa, tentando tranquilizá-la. Sua expressão, sempre reservada, suavizou-se apenas o suficiente para que ela sentisse um pouco mais de segurança.
Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu, revelando um homem de meia-idade, ruivo, de feições amáveis e um sorriso caloroso. Ele abriu a porta com um entusiasmo sincero, que parecia iluminar ainda mais a casa acolhedora atrás dele.
— Severus! Que prazer vê-lo! — exclamou Arthur Weasley, com uma alegria contagiante que parecia dissolver qualquer tensão. Ele estendeu a mão para cumprimentar Severus e, ao ver Olivia, seu sorriso se abriu ainda mais.
— E você deve ser a Olivia! Finalmente a conheço! Entrem, entrem, a casa é de vocês!
Arthur gesticulou com entusiasmo, dando um passo para o lado e abrindo passagem. O calor que vinha do interior da casa, misturado ao aroma de algo delicioso que parecia ter acabado de sair do forno, envolveu Olivia assim que ela cruzou a porta, trazendo uma sensação de bem-vinda instantânea.
— Sou Arthur Weasley — disse ele, sorrindo calorosamente. — Pai da Gina e de mais seis filhos! — acrescentou com uma risada amigável.
— É um prazer conhecê-lo, Arthur. Sou Olivia — respondeu ela, sorrindo de volta, sentindo-se um pouco mais à vontade diante da hospitalidade dele.
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Entre Dois Mundos
RomanceApós sobreviver milagrosamente à mordida de Nagini, Severus Snape enfrenta um novo desafio: adaptar-se às rigorosas reformas do Ministério da Magia, que busca reconstruir a sociedade bruxa após o término da guerra. Forçado a abandonar a segurança da...