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Mentirosos

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Sentimentos levam tempo para serem processados. Isso era verdade na maioria das vezes, para a maioria das pessoas, na maioria dos universos.
E Ink relembrou naquele exato momento o porquê isso era uma realidade.

As costas, mantidas contra o chão gelado de pedra daquela pequena ilha, descansavam em uma posição perfeitamente reta, enquanto os olhos arco-íris fitavam a distância amarela-alaranjada coberta por alguns papéis.

Não lembrava muito de como era a sensação de estar em sua antiga "casa". De como era ficar lá, cercado por uma quantia tão imensa de páginas que elas sequer cabiam completamente em sua visão, antes de que começassem a borrar na distância, mesclando e escondendo o resto.
O artista forçou os olhos, na esperança de que pudesse testemunhar aquilo uma vez mais, contudo o que recebeu foi a memória de como aqueles fios azuis se enrolaram em cada uma delas, trazendo a fatídica ruína que tanto temeu que ocorresse algum dia, desde aquela maldita primeira trégua que estabeleceram forçadamente.

Entretanto, quando se deu conta, alguns deles estavam lá novamente. Se viu na necessidade de protegê-los, uma vez mais. Talvez por amor, talvez por culpa, talvez por responsabilidade. Talvez... por dívida...

Talvez, por tudo isso.

E assim assistiu, aos poucos, os papéis que trazia trabalhosamente preencherem àquele lugar que brilhava como um pôr-do-Sol vibrante, apesar de ser uma simples releitura de um passado obscuro.

Observando daquele modo, era óbvio que teve muita sorte, embora não entendesse porque eles decidiram confiar em sua liderança mais uma vez, já que havia se demonstrado completamente incapaz disso até mesmo no momento em que precisou derrotá-lo, e deveria estar feliz por ainda ter todas aquelas criações em seu cuidado. Afinal de contas, eram muitas. Embora ao mesmo tempo... eram tão poucas. Se fosse comparar, pesar com uma balança, aquilo era simplesmente triste.
Até que estaria tudo bem, se ao menos cada um desses papéis faltando não significasse seu fracasso e decair.

Mas, se os criadores estavam bem com a ideia de que fosse Ink a os proteger, e queriam que continuasse dessa maneira, se sequer pensavam que aquele simples rascunho abandonado era digno de algo assim, então o artista não tentaria relutar contra sua segunda chance.

E essa ideia fez com que Ink se sentisse ainda mais culpado por ter conseguido reimaginar aquelas linhas azuis cobrindo e rasgando as folhas mais uma vez, relembrando ao guardião o motivo pelo qual se encontrava com aquela mistura angustiosa de emoções e ideais. Se via estendendo a mão para alcança-las, mas sem sucesso. E por isso, se sentia anda mais triste, por estar se sentindo tão... cativado quando as contemplava no rosto de seu rival.

Especialmente porque aquilo não fazia sentido nenhum.

Suas pálpebras, já cansadas, fecharam com remorso e sua mão repousou no rosto, esfregando-o suavemente.
A outra palma, já próxima à faixa que cruzava seu torso, apertou ao tecido, sentindo os frascos que alcançou naquele amontoado trazerem uma sensação gélida para a ponta de seus dedos.

"Qual deles eu preciso?" - Apertou os dentes suavemente.

Apenas tinha que entender isso para se livrar daquela sensação completamente. Somente um frasco. Só mais um pouco de tinta-

- Ink? - Uma voz doce chamou baixo, como se quisesse garantir que não estivesse dormindo.

Suas pálpebras, já fechadas, apertaram-se com ainda mais força perante a presença ao seu lado, deslizando de má vontade o antebraço que descansava sobre seus olhos para conseguir espiar o rosto de quem estava ali, com um olho só.
A expressão cansada acompanhada por vestes amarelas e por uma aura tão fraca que sequer pôde identificar, porém com as pupilas curiosas lhe observando.

A New Truce - ErrinkHistórias para pegar e não largar. Descubra agora