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Frio

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O lugar em que estava era similar a onde tudo começou: espaçoso, com uma infinita quantia de nada e uma agonizante camada de silêncio.

Porém, dessa vez, a vasta quietude não durava uma eternidade imprescindível, mas sim era ocasionalmente interrompida pelos últimos suspiros quebradiços de alguém desfigurado no chão.

O ambiente era frio, escuro e solitário, representando uma verdade negligenciada que ruminava como um erro, e ao mesmo tempo em que era lúcido, parecia febril e irreal.
Seus pecados pesavam sobre suas costas. Não poderia fugir deles. Não poderia fugir do que fez.

- Por que? Por que... fez isso? - A silhueta derretida ao seus pés interrogou com a voz arrastada e falha. Inumana. Irreconhecível.- Você me deu tudo o que era preciso para que eu completasse meu objetivo... e no fim, me traiu igual a todos os outros?

O ar pesado que supria e desmantelava sua caixa torácica era enlouquecedor, como se inalasse fumaça de um incêndio onde toda e qualquer esperança não fosse nada além de cinzas e carbono. Estava exausto. Olhando agora para aquele alguém que pensava conhecer esvaindo no chão, não sabia o que sentir.
Não sabia sequer discernir qual era o sentimento horripilante que estava crescendo em si naquela hora.
Não sabia sequer se estava sentindo alguma coisa naquele momento.

Nada fazia sentido. Seu cerne parecia desconectado da própria existência.

A feição de repúdio daquele que o encarava com tanta firmeza o fez sentir enjoo.

- Está insatisfeito com meus métodos? - A silhueta prosseguiu com a voz arrastada, dolorida. Completamente ciente de seus momentos finais. - Você teve todo o tempo do mundo para me parar... por que logo agora?

Notou uma parte da alma a sua frente esvaziar, tornar-se vazia.

- Eu... - Tentou dizer algo de volta, mas sua voz embargada não possibilitou tal feito.

- O problema é que eu crio com dor?... - Uma risada repugnante saiu daquele monstro derretendo. - Se esse é o seu problema, lembre-se que foi você quem me inspirou a isso. A não ser que você seja tão hipócrita quanto aquele outro empecilho, não deveria se importar.

Mais um pedaço da alma roxa se desfez, deixando uma última pequena fração.

- Ou percebeu que o meu tipo de poder não colocaria você no topo pelo tempo que desejaria?

Seu orgulho se enroscou na garganta queimando como fogo, sua ansiedade fazia parecer que pudesse vomitar. Por mais que quisesse bancar o verdadeiro herói naquela situação, tinha total conhecimento de que esse era sim um dos motivos. Não era estúpido.
Mas, apenas por hoje, queria ter sido o herói que caçou o vilão pelo bem dos outros, não por si mesmo.

Mas não era. Nunca seria. Até porque, isso jamais compensaria pelos erros que cometeu.

Ele lhe deu um olhar sabichão mesmo com a dor agonizante de que sentia. A resposta era óbvia, afinal.

- "De agora em diante, terão milhares de possibilidades." - Ele recitou aquelas palavras que repetiram-se, de novo e de novo, como uma maldição em sua cabeça, desde o momento em que as ouviu. - "Cada uma com uma margem de impacto que vai marcar um antes e depois no multiverso."

Houve uma breve pausa, enquanto recuperava o fôlego gasto em sua tonalidade enfraquecida.

- "Incluindo VOCÊ, como seu "guardião". - Um semblante sarcástico tomou sua face. - Foi isso que aquela criancinha irritante lhe disse, não foi?

O corpo do ouvinte tensionou completamente. Ele sabia. Era claro que saberia. Suas visões eram impecáveis, quando as tinha.

- O que te fez pensar que fosse verdade? Que você não foi enganado por ela, assim como os enganou?

A New Truce - ErrinkHistórias para pegar e não largar. Descubra agora