Convivência... forçada.

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O cheiro irresistível de café fresco e panquecas quentes pairava no ar, despertando Charlie de seu sono. Ele se espreguiçou, sentindo a leveza do corpo, e uma sensação de alívio o envolveu. Movendo-se com a familiaridade de quem sempre acorda cedo, Charlie se levantou e caminhou em direção à cozinha. Seus pés descalços mal faziam barulho no piso frio, mas a presença de outro ser logo o fez sentir um frio na espinha.

Quando ele entrou na cozinha iluminada pela luz da manhã filtrando-se pelas janelas, aquele brilho suave destacou a imagem de Riley, que estava sentado à ilha. Um prato de panquecas fumegantes à sua frente parecia esperar a chegada do policial.

Riley não disse uma palavra, mas seus olhos vermelhos e penetrantes estavam fixos em Charlie, como se o devorassem. O silêncio entre eles era carregado de tensão, e Charlie parou em frente à ilha, encarando o jovem.

"Você..."

Charlie começou, sua voz firme, mas que quase falhou por acabar de acordar. Riley manteve o olhar, a expressão impassível enquanto tinha os dedos entrelaçados frente a boca, extremamente concentrado no homem.

"Sente-se por favor. Gostaria de esclarecer sua situação."

Charlie separou os lábios para um protesto. Abriu uma, duas vezes, antes de seguir o que lhe foi pedido civilizadamente, e então, decidir sua fala.

"Você me sequestrou..."

 Comentou simples, se baseando em sua situação. Realmente estava trancafiado, já que quando tentou abrir a porta, esta nem se moveu, e as janelas eram apenas vitrines muito bem reforçadas.

"Eu não te sequestraria, Charlie... se não fosse necessário, considerando onde você se meteu..., agora, seria muito perigoso deixá-lo livre quando é um alvo."

"Isso não lhe dá direito-"

"Eu o avisei. O alertei. Mas preferiu ignorar e seguir o joguinho que encontrou. Não entendendo que Victoria apenas queria se divertir com sua curiosidade."

A luz do sol filtrava-se pelas janelas, mas a atmosfera na casa afastada era pesada. Charlie tinha os dedos batendo nervosamente no mármore do balcão, enquanto Riley hesitava em continuar, sabendo que o homem gostaria de expressar sua opnião. Então com uma respiração pesada, o rapaz continuou.

"Você precisa entender, Charlie... Victoria está montando um exército. Ela está treinando uma orda de vampiros para atacar Forks. Você entrou em terras perigosas, e, por acaso, descobriu onde ela os mantinha. Com seu envolvimento, alguns de nossos inimigos descobriram os planos dela. O que a enfureceu."

"Seus inimigos? Eu estava investigando sozinho... ninguém mais sabe do meu envolvimento com o caso que já foi fechado."

Um pouco pensativo, Riley apenas sustentou seu olhar sobre o homem que encarou o prato logo a frente. Aparentemente nem um pouco esfomeado.

"Quem tentou impedi-la carrega o nome da família do namoradinho de sua filha..."

Jogou verde, e Charlie processou lentamente, seus olhos gradualmente se abrindo como se a revelação fosse tardia demais. Sua resposta foi ríspida, quase rancorosa.

"E você acha que me manter aqui vai resolver alguma coisa? Bella deve estar sozinha e preocupada! Eu não posso ficar aqui enquanto ela está em perigo! Meu Deus... eu sabia que aquele garoto não era boa coisa.

"É justamente essa questão. Se você voltar para Forks agora, não só você estará em perigo, mas Bella também. Victoria não hesitará em atacá-la para chegar até você. Ela suspeita que você possa ser o informante dos Cullen, já que foi o único a chegar mais perto de desvendar as intenções dela."

"E quem garante que você não está apenas me manipulando? Os policiais vão me caçar, Riley. Não há corpo ou rastros que prove minha morte."

Charlie desafiou, com seus olhos ardendo em raiva.

"Claro que não tenho direito de pedir para que confie em mim, mas por enquanto, sou o único que não lhe atacou no primeiro suspiro. Então, talvez deva tentar. Apenas quero mantê-lo longe do problema até que essa bagunça se resolva. E não se preocupe com Isabela, com certeza, agora está bem mais protegida com o garoto do que com você."

Charlie sentiu o peso das palavras de Riley, mas a preocupação com Bella o consumia. Ele parou para pensar outra vez, seus olhos se estreitando sob a concentração. Charlie olhou para Riley, que provavelmente viu a batalha interna evidente em seu rosto. A preocupação por Bella e a necessidade de proteger sua cidade estavam em conflito com a raiva e a frustração que sentia por estar sendo limitado ali. Ele respirou fundo, tentando encontrar uma saída.

Riley observou o homem enfraquecido logo a frente, se recusando ao café reforçado da manhã. Se levantou, mas isso não chamou a atenção do outro, Riley tinha seus compromisso, tipo acalmar uma ruiva, e infelizmente teria que abandonar o homem debilitado naquela casa solitária.

 Passando ao lado de Charlie, Riley parou por um curto momento, observando-o com uma intensidade que transbordava preocupação, mas, o cheiro do corpo matinal do homem invadiu o ar, um aroma que misturava a essência da pele quente com o leve toque de adrenalina que emanava de sua agitação. Era um perfume quase intoxicante, como feromônios convidativos, que o sufocou, fazendo seu coração acelerar.

Charlie estava sentado na banqueta, a estrutura robusta de seu corpo contrastando com a fragilidade de sua postura. Ele se perdia no mar de seus pensamentos, com olhos comprimidos em uma expressão de angústia e confusão. Riley notou como a luz da manhã dançava sobre o rosto de Charlie, acentuando as linhas de preocupação e da idade que se formavam em sua testa.

A atmosfera ao redor deles pulsava com um silêncio carregado, onde cada segundo se arrastava, como se o próprio tempo estivesse hesitante diante deles.  Riley sentiu um aperto no peito, uma sensação de urgência que o empurrava a agir, enquanto observava Charlie, um homem que, apesar de sua força, estava à beira do colapso.

Riley notou também que, por trás daquela fachada de bravura, havia um pai preocupado, lutando contra a sombra de uma ameaça que ele mal compreendia e ninguém lhe explicava claramente. Aquela vulnerabilidade do homem o tocou profundamente, e, por um breve instante, Riley se viu refletindo sobre o que significava realmente proteger alguém. Incitado, com uma voz suave, mas firme, ele finalmente falou. 

"Charlie, eu sei que tudo isso é difícil. Mas, não tente fugir."

Eclipse - E se...Onde histórias criam vida. Descubra agora