Wasting My Young Years, London Grammar

44 2 5
                                        

   Julie se espreguiçou. Os trajes de quarentena do hospital tornavam a tarefa de dormir muito mais difícil do que deveria ser. Levantou-se da cadeira, dando mais uma olhada no pai pelo vidro, ele parecia pacífico, quase descansado, o completo oposto dela. Conseguiu enxergar seu próprio reflexo, mesmo com a quantidade de paramentação que vestia, ainda conseguia ver o quão profunda suas olheiras estavam. Viu o horário pelo celular, quase sete horas da noite, o que significava que já estava lá dentro há mais de doze horas, e que em breve Flynn chegaria para trocar de lugar com ela. Deu um meio sorriso para Ray pelo vidro, fazendo o sinal da cruz antes de seguir em direção à saída. Tia Victoria abriu a porta antes dela, passando as mãos enluvadas pela sua:

   -Vá para casa e descanse, niña.

   Julie assentiu.

   -Achei que a Flynn viria agora.

   -Sara, na verdade.-Victoria suspirou.-Ela tinha finalmente pegado no sono, vim sem que ela soubesse. Sei que ela vai me odiar depois porque queria ficar com seu pai, mas essa mulher merece um descanso.-A tia abanou a mão em frente ao rosto, e caminhou em direção a cadeira que antes era ocupada pela sobrinha.-Agora vá embora, não quero te ver aqui tão cedo.

   Julie riu, e sem protestar saiu da sala, sendo guiada por enfermeiras até o ponto onde sua paramentação seria tirada. Depois de ser instruída a chegar em casa, tomar banho e colocar as roupas para lavar imediatamente, assim como usar o álcool em gel, a escritora seguiu apenas com a máscara cirúrgica de proteção.

   -Finalmente saiu daquele quarto.-Disse Dr. Carter, o médico responsável por seu pai. Ele checava alguns prontuários no balcão agora, mas antes disso tinha ficado pelo menos duas horas com Julie observando seu pai. Talvez porque precisasse, ou talvez simplesmente porque julgou que ela precisava de uma companhia.-Como está se sentindo?

   -Mais calma, obrigada.-Ela deu um sorriso cansado para ele, que começou a caminhar ao seu lado.-Então, como está meu pai?

   -Desde a última vez que você perguntou, ele continua bem.-A escritora assentiu, contendo um sorriso, o médico era atencioso e engraçado.-Vou ser sincero com você, Julie. Não sei como seu pai vai reagir daqui para frente. Por enquanto, comparado com outros pacientes, ele está bem, estável e responde bem à medicação. Mas essa doença é nova, sabemos tanto dela quanto vocês e enquanto não existir uma vacina, toda vez que alguém é internado aqui, o máximo que podemos fazer é torcer para o corpo se recuperar.

   Ela concordou com a cabeça, mas decidiu não dizer mais nada, apenas continuar caminhando ao seu lado. O Dr. Carter era bonito e jovem, moreno, por volta de uns 28 anos e o mais importante: não carregava nenhuma aliança em seu dedo. Os olhos eram de um verde vivo contagiante, mas não tinha os detalhes cinzentos como os de Luke.

   Julie se perdeu em seus pensamentos, era a primeira vez que se pegava pensando no canadense assim, involuntariamente. Ela desviou os olhos do médico, focando no chão onde pisava, estava com a visão meio turva, provavelmente pois não tinha comido nada desde que chegara em Merrill. A verdade é que estava frágil, e talvez todo aquele apreço por Luke fosse para se agarrar no sentimento de conforto que ele havia passado para ela desde que chegaram na cidade. O beijo não a ajudava a se convencer disso. Tinha dito para si mesma que era culpa do álcool e nada mais que isso, embora soubesse que aquela era uma mentira cabeluda.

   -Parece que você vai ter companhia para voltar para casa, afinal de contas.

   Disse o médico, chamando a atenção de Julie e a fazendo subir os olhos para ele novamente.

   -Perdão?-Ele riu.

   -Seu namorado ficou sentado na sala de espera durante todo o tempo que você esteve com seu pai.-Ela franziu as sobrancelhas, não conseguiu raciocinar muito bem, talvez fosse o cansaço, ou a fome. Dr. Carter ficou esperando por uma resposta, talvez alguma coisa como "ah, ele não é meu namorado" mas quando ela não disse nada, o médico colocou a mão em seu ombro, dando um apertãozinho de leve, e olhou no fundo de seus olhos confusos.-Você é uma garota de sorte, Julie.

Pandemic | JukeHistórias para pegar e não largar. Descubra agora