-O que você está fazendo aqui?
A mulher saiu do elevador, parecia avoada o suficiente para que seus olhos vagassem por todo o apartamento antes de finalmente perceber Luke parado no meio do corredor. Ele se aproximou devagar, era nítido que havia algo errado, o casaco em seu corpo estava completamente encharcado devido à chuva no lado de fora, mas quando ela olhou para ele e o canadense percebeu o quanto seus olhos estavam inchados, sabia que daquele ponto em diante as coisas não seriam as mesmas. A envolveu com os braços e encostou a cabeça dela em seu peito. Quando um soluço doloroso escapou de seus lábios, Luke percebeu que ela havia segurado o choro por todo o caminho da casa dela até a de Julie:
-Está tudo bem, Flynn.-Ele disse, sabendo que provavelmente não era verdade.-Senta aqui.-O canadense guiou a Molina mais nova até o sofá e buscou um copo de água com açúcar para ela. Sentou-se ao seu lado, esperando ela se acalmar:
-Meu pai escondeu que estava com o pulmão comprometido, ele foi internado há pouco com falta de ar, se a saturação continuar descendo, vão ter que entubar ele.-Ela explicou de uma vez, provavelmente para garantir que fosse passar por essa etapa sem começar a chorar novamente. Suas mãos tremiam. Muito.-Ela fechou os olhos.-Nate está nos esperando lá embaixo, nós vamos para Wisconsin.
Luke precisou de alguns segundos para processar a informação, tinha acabado de acordar e a ressaca de vinho com conhaque não era exatamente uma das mais sutis do mundo. Assentiu devagar para a informação, olhando para o corredor do apartamento. Olhando para a porta do quarto de Julie.
-Você quer que eu conte para ela?
Flynn não respondeu porque parecia injusto demais pedir para Luke fazer isso, mas ao mesmo tempo, não via como ela própria teria condições. Sabia como o canadense enxergava sua irmã: a mulher forte e decidida, impossível de abalar, mas ela conhecia sua verdadeira natureza. Julie era instável, não se podia saber exatamente como ela reagiria com a mensagem, e se visse Flynn tão abalada em um primeiro momento, era capaz de querer ser forte pelas duas. Foi o que aconteceu quando Rose morreu, e todos sabiam onde toda aquela história tinha acabado. O canadense assentiu com a cabeça, procurando em sua mente a forma certa de dar aquela notícia. Infelizmente, ela não existia. Sabia melhor do que ninguém que não acharia nenhuma palavra de conforto para o fato do pai de alguém estar tão próximo da morte. Luke puxou Flynn para outro abraço, esfregando a palma da mão por suas costas com o intuito de confortá-la:
-Vai ficar tudo bem.
Se separaram, e ela lhe lançou um sorriso fraco, passando os olhos pela sala e analisando o restante da bagunça do dia anterior que haviam deixado para trás. Flynn limpou as lágrimas das bochechas, suspirando e se levantando:
-Acho que vou limpar um pouco as coisas por aqui enquanto isso.
Luke concordou, pronto para encarar o inevitável. O estômago revirou no instante em que deu o primeiro passo em direção ao quarto de Julie, precisou respirar fundo algumas vezes para tomar a coragem que precisava e girar a maçaneta. Percebeu naquele momento que durante os meses em que esteve morando no apartamento nunca tinha entrado no quarto dela antes. Era grande. As portas do closet estavam abertas, mostrando que essa parte do quarto também era enorme, e trilhava um caminho para o banheiro igualmente massivo. Infelizmente, ele não tinha tempo para notar os mínimos detalhes do espaço. Luke se sentou ao lado dela na cama king size, seus cabelos estavam esparramados no travesseiro e seu rosto estava tão pacífico que ele se sentiu culpado por ter que acordá-la.
A chuva caía lá fora, e o espetáculo de trovões e raios fazia tudo parecer ainda pior. Encostou levemente em seu ombro. Os acontecimentos da noite invadiram a mente do canadense sem que ele desse permissão, o álcool em excesso fazia com que as memórias parecessem de outra pessoa, mas ele sabia que elas lhe pertenciam, e se lembrava delas bem demais. Tudo isso só aumentou ainda mais o peso em seu peito, não era justo que depois de terem um dia incrível, uma notícia igualmente terrível viesse assolar Julie. A sacudiu de leve:
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Pandemic | Juke
Fiksi PenggemarQuando Luke Patterson, um canadense aspirante a músico, recebe o convite de casamento tardio de Carrie Wilson e não consegue achar vagas de hospedagem em Los Angeles, a noiva o oferece um quarto no apartamento de Julie Molina, uma escritora prodígio...
