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MAYA

O silêncio no apartamento é ensurdecedor. Ainda com os olhos fechados, lembro da noite anterior, do pedido quase infantil para que ele ficasse, da forma como deixei escapar meu medo de que fosse apenas um instante passageiro.

Mas quando abro os olhos, o sofá está vazio.

O peso da ausência me atinge antes mesmo de eu racionalizar. No entanto, junto dele, um frio percorre meu estômago. Algo me faz andar pelo apartamento sem rumo definido, como se um fio invisível me puxasse.

Então vejo.

A porta do quarto de pinturas está entreaberta.

E o pior acontece.

Mingyu está no centro do cômodo, cercado pelos quadros e esboços. Pelos seus próprios traços.

Abro a boca, mas o choque me impede de formar palavras. Ele segura um dos quadros, meu favorito, aquele que carrega a imagem de um anjo. Meu anjo.

Seu olhar atordoado me atinge em cheio. Paraliso.

- O que você está fazendo aqui?- Minha voz finalmente sai, mais fraca do que eu gostaria.

Ele se vira para mim devagar. Parece buscar palavras, mas fracassa antes de encontrá-las.

- Isso... sou eu?- Mingyu inclina o quadro em minha direção, e meu estômago despenca. O coração martela em meus ouvidos.

Como posso explicar isso? Como justificar todos esses desenhos de alguém que acabei de conhecer?

O silêncio pesa entre nós, denso, carregado de perguntas que não sei como responder.

Mingyu franze o cenho, me estudando com uma intensidade que me faz prender a respiração.

- Maya... por que você me desenhou tantas vezes?- Sua voz é um fio distante, como se estivesse à beira de uma revelação que não pode alcançar.

Baixo o olhar, apertando os dedos contra a barra da blusa. As lembranças vêm como uma tempestade: as madrugadas desenhando um rosto que só existia nos meus sonhos, a angústia inexplicável de sentir sua falta ao acordar.

Mas agora ele está aqui. Real. Feito de carne e osso.

E isso me assusta mais do que qualquer outra coisa.

- Eu...- Começo, mas não sei como terminar. Como explicar o que nem eu mesma entendo?

Mingyu dá um passo à frente.

- Eu sei que a gente mal se conhece, mas... eu conheço os traços do seu rosto. O brilho dos seus olhos. E eu sinto, Maya. Sinto que aquela noite no restaurante não foi a primeira vez que nos vimos.- Ele hesita, como se a conclusão fosse absurda até para ele.- Eu te conheço, não conheço?- Ele murmura, seus olhos vasculhando os meus em busca de respostas.

Engulo em seco. Algo na forma como ele encara as pinturas me faz estremecer.

Ele sente.

E isso muda tudo.

- Eu não sei...- Minha voz falha. Mas eu sei. Sempre soube. Eu já estive no seu lugar.

Mingyu passa as mãos pelos cabelos, frustrado.

- Por que eu me sinto assim olhando para isso?- Ele murmura, a respiração pesada, os dedos trêmulos.

Antes que eu possa responder, ele volta a encarar o quadro. E então, como um golpe invisível, ele cambaleia para trás. Vou em sua direção, no impulso assustado que faz meu corpo destravar.

- Mingyu?- Seus olhos se arregalam. Como se algo explodisse dentro dele.

E então, num sussurro quase inaudível, uma única palavra escapa de seus lábios

E o mundo desaba ao meu redor.

MINGYU

A luz dourada do sol atravessa as cortinas, iluminando o apartamento com um brilho sereno. Pisco algumas vezes, tentando me ajustar à claridade. O ar carrega o perfume dela. A última coisa que lembro é sua risada baixa, o cansaço pesando sobre seus olhos. E o pedido.

Não consegui ir embora depois disso, ainda que, enquanto a esperava adormecer, tivesse decidido partir assim que o fizesse. Mas, ao observar seu rosto, a serenidade solitária e melancólica que carregava, só conseguia pensar e repensar em seu pedido. E, completamente rendido, cochilei, sentado no chão, encostado no sofá onde ela dormia.

Agora, do mesmo lugar, a observo, me perguntando como alguém pode ser tão extraordinariamente bonita.

Levanto-me devagar, sentindo a tensão nos músculos. O apartamento é pequeno, aconchegante. Cada detalhe parece contar uma história que quero entender.

Vou a procura da cozinha, com a intenção de preparar algo para Maya, mas me deparo com uma porta entreaberta no corredor. A curiosidade me faz empurrá-la com cuidado.

O cômodo é um universo à parte. O cheiro de tinta e papel invade meus sentidos. Há estantes repletas de cadernos, pincéis espalhados sobre uma mesa, telas apoiadas nas paredes.

E então vejo.

Meu coração para.

Meu rosto está em cada traço, em cada sombra e pincelada. Olhares distintos. Algumas pinturas mostram apenas partes do meu rosto: o contorno dos lábios, os olhos que parecem carregar um mistério antigo. Há esboços rápidos, feitos com pressa, e telas trabalhadas com um detalhe minucioso, quase devocional. É como se alguém tivesse tentado capturar minha essência repetidas vezes.

Minhas mãos tremem quando tocam a tinta seca.

Um suspiro atrás de mim me faz virar. Maya está parada na porta. Nosso olhar se cruza. Os olhos arregalados, o rosto tomado por um rubor intenso. Sinto como se cada traço desenhado por ela estivesse impresso em minha alma.

Sei que passei minha vida inteira com um vazio que sempre esteve presente. Perguntas sem respostas, respostas soltas ao vento, noites mal dormidas. Isso me fez buscar incessantemente a origem desse sentimento. Busquei pelo mundo. Acreditei ter vivido muito nessas buscas fracassadas, mas agora já não tenho tanta certeza. Talvez, na verdade, eu não tenha vivido nada... Porque sinto que ainda há toda uma vida a ser descoberta.

E então, num instante súbito e inesperado, uma vertigem me atinge. Uma dor latejante em minha cabeça, como se algo estivesse tentando emergir das profundezas do esquecimento.

E então acontece. Um choque. Uma dor súbita.

Memórias fragmentadas explodem em minha mente.

Uma versão pequena de Maya chorando. Eu ao seu lado, incapaz de tocá-la. A sensação de asas...

Cambaleio para trás e então, como um eco vindo do passado, uma palavra escapa de meus lábios:

- Anjo...

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⏰ Última atualização: Mar 03, 2025 ⏰

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