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- Te assustei?- Quando sua voz chega em meus ouvidos, meu coração se descontrola.

- Não.- Minto descaradamente, ignorando as palpitações, mãos suadas e o arrepio.

- Posso?- Ele aponta para o espaço vazio ao meu lado, e eu afirmo hesitante, ainda sem acreditar na realidade em que estou, enquanto tento não deixar o caderno com seu esboço ficar visível ou acabar caindo na piscina.

Estou sentada aqui há tempos, arrancando páginas e mais páginas de diversos desenhos apenas dele e de seus traços, que nunca pensei poder ver com tanta clareza e sem limite de tempo.

- Achei que era o único que estava sem conseguir dormir, mesmo com o conforto do quarto extremamente luxuoso.- Ele comenta, interrompendo o silêncio constrangedor.

- Estava sentindo inspiração para criar.- Acabo falando demais. Me sinto uma fã abobalhada na frente de seu ídolo.

Os pés descalços dele estão próximos dos meus, pairando sobre a água fresca. Eles quase se movem em sincronia, e acabo me perdendo um pouco. Sua calça de moletom está afastada dos tornozelos, e a pele dourada me fascina.

- Seria invasivo demais se pedisse para me mostrar o que está desenhando?- Rapidamente, olho para ele assustada. Seu rosto está apenas dois palmos de distância. Engulo em seco. É bem mais fácil quando não estou com meus olhos nos seus.

Que tipo de droga você é? Meu olhar grita, mesmo que meus lábios estejam imóveis. Solto um riso e balanço a cabeça, desconfortável.

- Não está pronto.

- Tudo bem.- Sei, mesmo sem estar observando seu rosto, que está rindo de forma inocente. Como só o meu anjo sabe fazer.

- O que foi?- Franzo o cenho por ele não parar.

- Não, é que... a forma como você reagiu foi adorável.- Seus olhos brilham ao falar entre sorrisos. Sinto meu rosto em chamas, e elas queimam tanto.

- Eu posso te mostrar algum que esteja pronto.- Me atrapalho pegando o caderno e colocando rapidamente em uma página com um desenho aleatório para disfarçar todas as reações que gritam em mim.

Ele fica em silêncio por uns segundos. Seus dedos passam lentamente pelos traços feitos no papel. E um sorriso se forma em sua face.

- É lindo.- Me olha rapidamente enquanto diz.- Tão detalhado...

Contenho um sorriso nos lábios, tendo agora o desenho com simples flores e insetos como meu favorito.

- Gosta bastante de criar flores?

- Prefiro desenhar pessoas.- Uma específica, na verdade.- É como capturar uma emoção, eternizá-la. No olhar, na feição.

- Bem... Eu te atrapalhei no seu desenho, e pelo que parece não vai terminá-lo enquanto eu estiver aqui...- Ele sorri sem graça, um pouco hesitante.- Então que tal eternizar esse momento...?

- O que?

- Me desenhando.

Meus olhos se espantam. Não consigo me livrar do sentimento. É como se eu estivesse em um sonho sabendo que estou em um.

Seguro o lápis um pouco trêmula, o observo atrás do caderno, me olhando como se pudesse me ler por inteira, como se visse através de mim. Os rabiscos de seu rosto começam a ganhar forma. Não tenho culpa por olhá-lo. Me demoro em cada detalhe. E ignoro o fato de estar com as bochechas coradas. Seus lábios, os fito. Seus olhos. Não há pressa, não quando essa poderia ser a visão da minha vida inteira.

Hora ou outra fica nítido que não sou só eu que estou sem graça com a situação. Seus dentes quase o tempo todo ficam à mostra, por conta de sorrisos tímidos e puros como os de uma criança que não conhece e nem nunca ouviu falar da maldade e crueldade do mundo.

O sol nasce, e eu estou olhando para você. Os raios pairando sobre cada detalhe. E eu queimo por você, como se tivesse um pecado em mente toda vez que te observo. Se um dia quis que você libertasse minha mente, já não me lembro de tal coisa.

Seus olhos castanhos estão vermelhos com a mistura dos tons do sol. Sei que vou para sempre me lembrar disso sorrindo.

(***)

Às vezes, eu consigo me encontrar nos momentos mais estressantes, cansativos e bobos. Aqueles onde as simples coisas são capazes de arruinar as próximas 24 horas pela frente. Mas eu também tenho aqueles em que os pequenos detalhes fazem todas essas horas valerem a pena. Quando posso sentir meus pés deixando o chão devagarzinho, me fazendo flutuar. E hoje, hoje é um dia desses. 

Os raios de sol passam pelo lustre e refletem pequenos arco-íris. Meu coração se aquece a cada memória revivida. 

Porque não consigo parar de sorrir? 

O desenho em minhas mãos pode ter algo a ver com isso. O olhar reconfortante e o sorriso leve. Estou caindo feito as estrelas. Me apaixonando ainda mais e sem pausa.

- Já está acordada?- Yuna murmura, me fitando da cama onde está.

- Ah, sim.- Fecho o caderno disfarçadamente enquanto escuto Shizuki bocejando.

Yuna vai para o banho e nos deixa enfim sozinhas. Eu me sento próxima da versão sonolenta da minha amiga. E nunca quis tanto que ela perguntasse o motivo de meus olhos estarem quase falando por si só.

- Que cara é essa?- Shizuki se senta, suspeita, e ri. Levanto o caderno com o desenho.- Uau! Como conseguiu desenhar ele assim? Tá tão detalhado e preciso.- Pega o caderno da minha mão.- Os quadros antigos dele também são, mas esse está diferente. Como se...

- Como se ele tivesse posado para mim?

- Exatamente isso que ia dizer.- Ela me fita e, em poucos segundos, seus olhos saltam.- Ele posou para você???- Concordo rindo, mas com medo da euforia dela estar chegando nos quartos próximos.- Como foi isso?!

- Eu estava lá embaixo, desenhando. Não conseguia dormir.- Olho para minhas mãos que não param quietas.- Ele apareceu do nada, e eu... Ele me pediu para desenhá-lo sem ao menos saber que eu já estava fazendo isso.

- Meu Deus!!

- Shizuki, eu subi agora pouco... Nós nos despedimos, e eu não consigo parar de ficar delirando com o que aconteceu. Eu não sei como, mas a gente tem uma ligação extraordinária... e sei disso mesmo sem termos trocado muitas palavras... A coincidência parece ir muito além disso tudo que tem acontecido.

- É como se os sonhos que teve estivessem apenas te preparando para a montanha-russa de sentimentos que vem por aí...

Sky. (Mingyu)Onde histórias criam vida. Descubra agora