Chego um pouco mais cedo, coloco meu uniforme e me certifico de que está realmente certo. Faço um rabo de cavalo e deixo o banheiro dos funcionários. As outras chegam aos poucos. Vernon já está organizando tudo. Ele tem as chaves, então sempre abre e fecha o lugar. Vou na direção dele e ajudo com as cadeiras e mesas. Passo pano nelas e as deixo brilhando. Shizuki muda a plaquinha, deixando o "Close" virado para dentro e o "Open" estampado no vidro limpo.
Ao terminar minha tarefa, dou meia-volta sem olhar e quase esbarro em Vernon no corredor apertado. O ar entre nós se comprime por um instante. Meus olhos encontram os dele—um mel que dança entre o dourado e o verde sob a luz amena do café. Ele sorri, e eu percebo tarde demais que estou sorrindo também. A pressa em seguir meu caminho não disfarça o leve calor que sobe até minhas bochechas.
Todos conversamos um pouco, mas, quando o primeiro cliente aparece, focamos em nossas áreas, dando fim ao assunto. Um casal atravessa meus olhos. O garoto se senta de frente para a morena, que possui um semblante fechado. Ele tenta fazê-la rir, gesticulando corações no ar, mandando beijos exagerados até que ela, finalmente, se rende. Um sorriso tímido se abre em seu rosto, e o brilho nos olhos dele muda. Como se, por um momento, o mundo inteiro coubesse naquela expressão. É estranho como o amor se esconde nos detalhes. E como eu, parada aqui, me sinto uma espectadora distante de algo que faz trazer memorias à tona. Vou até a mesa deles para anotar seus pedidos.
Depois das inúmeras mesas que atendo, dos diversos pedidos que anoto e das várias bandejas que entrego, a tarde cai. Me despeço dos outros e agradeço pelos elogios sobre o bom desempenho no primeiro dia. Já sem a roupa bege e agora com meu macacão jeans e moletom preto, vejo o sol se esconder finalmente. A noite vem, e eu passo pelas vielas, cortando caminho.
O burburinho do café ainda ressoa na minha mente enquanto caminho para casa. Por algumas horas, sou outra pessoa. Entre pedidos anotados, risadas soltas e o barulho reconfortante da máquina de café, esqueço de tudo. Mas, quando a porta do apartamento se fecha, o mundo silencia de novo. E o que sobra sou eu e um vazio que não sei preencher. Deito no sofá, lutando contra o cansaço, sabendo que terei que ir para a galeria depois de um banho quente.
(***)
- Acho que precisa de uma xícara bem cheia de café.- Shizuki se senta ao meu lado, ocupando uma das várias cadeiras vazias por perto, enquanto eu tento tampar com as mãos os raios de sol que ultrapassam o vidro, vindo de encontro com meus olhos e fazendo a vertigem começar.
- Acho que preciso é dos meus óculos.- Solto uma risada falhada.
- Está ficando pálida. Você comeu alguma coisa hoje?- A pergunta e as pontadas me fazem criar uma careta na face.- Trouxe sanduiches, vou pegar para você.
- Estou bem.- Me levanto rápido, mas, antes de começar a formar os passos à minha frente, me sinto fraca. O suor, que antes era apenas no pescoço, agora escorre frio por todo o meu rosto. A visão fica turva. Ouço uma voz desesperada chamando por Vernon soar como zumbido em meus ouvidos. Uma pressão absurda se espalha a cada latejo de dor em minha cabeça. Minhas pernas perdem a força, e meu corpo desaba.
(***)
A luz branca me cega por um segundo quando abro os olhos. O cheiro forte de desinfetante me faz franzir o nariz. Meu corpo está pesado, e minha mente parece uma névoa. Tento me sentar, mas uma tontura me puxa de volta para o colchão. Estou... no hospital?
- É melhor descansar um pouco, Srta. Seo.- O homem de jaleco impecável e barba mal feita diz com uma voz grave. Olho para o lado com esforço e vejo Vernon e Sakurai com uma feição preocupada sobre mim.
- Como vim parar aqui?
- A senhorita desmaiou.- Flashes do acontecimento começam a surgir em minha mente.- Já tinha acontecido antes?- O doutor, cujo nome não consigo enxergar no crachá, se aproxima, e eu nego com a cabeça.
- Eu tenho enxaqueca, deve ter sido só por isso.- Tento soar positiva e não completamente assustada.
- Sua pressão está baixa. Comeu alguma coisa nas últimas quatro horas?- Não preciso responder. Ele mesmo já decifra minha reação depois de engolir em seco.- Suas olheiras mostram que não tem tido boas horas de sono também.
Abaixo o olhar, me sentindo exposta e com espectadores.
- Pelo que vemos, diversos fatores colaboraram para o desmaio. Tanto a enxaqueca, pressão baixa, desidratação, calor e insônia quanto a falta de minerais e nutrientes necessários no organismo. Você precisa tomar bastante água, comer cinco vezes por dia, de três em três horas. Dormir de sete a oito horas por dia também. Não seria necessário nenhum exame para ter certeza de que está com anemia, mas peço que faça o de sangue por precaução.
O médico deixa o lugar. O silêncio na sala pesa como um cobertor quente demais. Não sou capaz de encarar nenhum dos dois. Antes que a Sra. Sakurai possa dizer algo, Vernon pigarreia, deslocando o peso de um pé para o outro.
- Você... precisa de alguma coisa?- Sua voz sai baixa, quase hesitante, como se não estivesse acostumado a fazer esse tipo de pergunta. Algo no tom dele me faz querer rir, mas apenas balanço a cabeça. Ele assente, desviando o olhar, e percebo que suas mãos estão fechadas em punhos ao lado do corpo.
Meu olhar pousa na ponta do lençol. Se fosse outra pessoa, já teria me demitido por dar trabalho logo na primeira semana. Sussurro dois "obrigada". A Sra. Sakurai diz ter levado um susto e fica feliz por eu estar bem. E Vernon apenas acena com a cabeça.
- Já vi muitos jovens se perderem no peso do trabalho e do mundo nas costas. Não vou deixar isso acontecer com você, querida. Você vale mais do que a sua exaustão.- Sakurai diz de forma maternal e me sinto agradecida.- Descanse e siga o que o médico disse.
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Sky. (Mingyu)
Fiksi PenggemarA vaga lembrança de se deitar sobre a grama com sua mãe, depois de correrem alegremente pelo jardim, e de observar o céu que a encantou mais que as flores do lugar, persiste. Naquele dia, Maya quis desesperadamente ver uma estrela cadente. Em compar...
