MAYA
Ruas agitadas, pessoas diferentes e o calor da nova estação. Coisas que não me agradam muito. Tento andar sem esbarrar em alguém, enquanto escondo metade do rosto com uma máscara preta. Caminho pelas ruas com a cabeça baixa, cercada por rostos desconhecidos. Sinto uma estranha sensação de estar em um lugar onde todos se movem em uma sinfonia, mas eu sou o único silêncio.
Em frente a galeria, respiro fundo reunindo forças. Empurro a porta de vidro e vejo algumas pessoas já arrumando as obras. Observo com clareza os traços feitos nos quadros. São incríveis. Eu nunca soube explicar o amor que tenho por arte. É algo que faz parte de mim. As formas, as cores, os sentimentos contidos em cada risco. O sorriso impossível de ser controlado se forma em meus lábios ao olhar mais uma tela. Uma mulher linda, de cabelos pretos e traços marcantes. Um quadro que seria comum, se não fosse pelas flores que saem de sua boca, flores tão bonitas quanto ela.
- Maya?- Sr. Chuck diz se aproximando acompanhado de um homem mais novo. Retiro a máscara rapidamente quando vejo meu chefe.- Está atrasada.
- Me desculpe, Senhor.- Faço reverência e fito os sapatos perfeitamente engraxados à frente.
- Resolvemos isso depois.- Levanto a cabeça, já sabendo que esse "resolvemos" significa "vou descontar do seu salário".- Maya, este é Zhi Chan.- O mesmo me olha e sorri gentilmente, presumo ser o artista das obras que segundos atrás estavam tirando meu fôlego.- Sr. Chan, está é Maya Seo. A jovem a que me referia.
Chuck é interrompido pelo toque de seu celular e se afasta, me deixando para trás com o estranho. Ele me olha e nota minha feição ainda admirada pelo quadro a nossa frente. Viro-me rapidamente, varrendo o ambiente com os olhos. Mas tudo que vejo são desconhecidos imersos nas pinturas, o som abafado das conversas e o clique de saltos contra o piso de madeira. Meu coração acelera sem motivo aparente, e por um breve segundo, sinto um perfume suave no ar, algo entre sândalo e chuva de verão. Estranho. Volto minha atenção ao quadro à minha frente, mas o aroma não desaparece.
- Deve estar se perguntando o motivo das flores, não?- Comenta em um tom engraçado e afirmo.- Não adianta. Por mais que eu a veja todos os dias, ainda faz meu coração acelerar, mesmo quando se trata apenas de um esboço.- Para por um instante, mas prossegue quando percebe o quanto estou perdida.- É a minha esposa. Fiz esse quadro antes mesmo de começarmos a namorar. Para ser mais sincero, alguns dias depois de encontrá-la pela primeira vez.
- Ela é linda.- Foco em sua expressão e depois de um tempo ele concorda sorrindo.
- Quando nos conhecemos, fiquei deslumbrado com seu jeito e sua aparência incrivelmente bela. Não era bonita só por fora, era por dentro também. E percebi essa beleza interior somente trocando algumas palavras. É a mensagem que tento passar com esta obra. De que a beleza interior é tão importante quanto a exterior, até mais. Que não adianta ter um rosto e um corpo atraente, se você não floresce por dentro. E ela floresce tanto que chega a transbordar.
MINGYU
Ando pelo lugar. Vejo as pinturas e tenho uma sensação estranha. Nas últimas horas, sinto que não sou mais o mesmo. Nunca havia me perguntado o motivo de não ser humano, ou de ser diferente de tudo ao redor. Nunca nem ao menos soube qual a razão de ser um completo invisível. Fui feito para cuidar dela, para protegê-la. Mas saber apenas isso não está me deixando satisfeito. Nunca precisei questionar minha existência antes. Sou um estranho em minha própria pele.
Encontro-me encostado em uma das paredes. A observo. Não tiro meus olhos dela, nem mesmo deixo a posição ao seu lado. Maya faz cada obra dessa galeria perder a beleza. Cativa atenção por onde passa, se destaca sem esforços, sendo assim a arte mais magnífica. Pessoas caminham entre nós, mas dou passos lentos, já sabendo que não vou perdê-la de vista. Ela sorri e, naquele instante, uma onda quente percorre minha espinha. Algo que nunca senti antes, algo que me faz querer ir até ela e revelar tudo. Mas sei que é impossível.
Penso em sua vida e em como não é como planejava que fosse. Sei que sua única família aqui era sua mãe, sei que não tem amigos, que odeia aceitar o dinheiro que o pai manda, que o maior desejo é ser independente, viver por si só, ser reconhecida pelos seus riscos tão lindos. Sei também que nunca amou ou foi amada, não é compreendida por ter sentimentos tão intensos.
Todos a veem como um livro bonito e chamativo, se aproximam, olham por fora, apreciam sua capa e contracapa, mas a deixam quando notam a quantidade de folhas. Eles não tem o dom para degustar. Essas folhas são o que ela é, suas experiências, sua personalidade forte e seus sentimentos tão puros. As palavras contidas em cada página formam um pedacinho dela. Mas mesmo tendo essa reação dos outros, ela não tem medo de ser quem é. Não tenta criar uma imagem diferente para agradar. É simplesmente o que é. Isso é o que mais encanta.
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Sky. (Mingyu)
FanfictionA vaga lembrança de se deitar sobre a grama com sua mãe, depois de correrem alegremente pelo jardim, e de observar o céu que a encantou mais que as flores do lugar, persiste. Naquele dia, Maya quis desesperadamente ver uma estrela cadente. Em compar...
