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Encaro a parede clara, perdida em pensamentos, até que o som insistente da campainha me arranca do transe. Decido, depois de alguns segundos, deixar o posto de estátua de lado.

Shizuki tenta esconder o rosto com um buquê de peônias, enquanto meu coração se aquece e um sorriso se forma.

- Sabia que iria gostar! Parabéns!- Me envolve em um abraço atrapalhado antes de entrar.

- Não é meu aniversário.- Observo as pétalas rosas, que são quase brancas de tão claras.

- É a sua estreia!- Pula, como de costume, ao se empolgar e pega de volta as flores que acabou de me entregar.- Você tem um vaso para elas, certo?- A fragrância suave das peônias se espalha pelo ambiente, trazendo uma sensação de calma que me envolve.

- Sim.- Vou até o armário da cozinha.- E não sabemos se irei conseguir ainda.

- Por que está dizendo isso?- Dou de ombros enquanto encho o vaso de água até a metade.- Estava tão confiante quando me contou. Nunca te vi tão animada.

- Havia esquecido que minha inspiração tem suas fases.

- Você vai conseguir. Ainda tem seis dias pela frente.

E é isso que me preocupa.

- Tem algo a mais que queira me contar?- Recebo um olhar de indignação ao voltarmos para a sala, sem ao menos saber o motivo.- Vernon me pediu seu número.

Paraliso ao escutar o nome e me lembro do que havia marcado.

- Algo que eu mesma havia esquecido.- Um ponto de interrogação se forma em sua face.- A última exposição na galeria foi do pai dele, acredita? Conversamos um pouco. E acho que houve um certo momento de coragem e ele me chamou para sair.

- ELE O QUÊ?? Como você esquece disso?- Seus olhos quase pulam para fora e sua voz se altera.

- A ansiedade com a exposição me distraiu.- Me jogo no sofá.- Mas, pensando bem... ainda não sei o que fazer. Quer dizer, ele deve ter superado algumas barreiras para tomar aquela atitude e... o olhar dele quando eu disse sim. Até me deu um beijo no rosto.

- Meu Deus! Por que eu perdi uma cena dessas??- As risadas e o entusiasmo começam a competir.- Você precisa ir.

- Eu não sei, Shizuki. Minha mente está tão vazia e, ainda assim, tão cheia nesse momento. Não acho que eu seria uma das melhores companhias.

- Aposto que, para ele, seria. Eu sei que deve estar procurando alguma desculpa para fugir, mas está ciente de que não é necessário, certo? Você não pode viver correndo de tudo e se afastando por medo de machucar alguém ou de se machucar. Só deixa que o que for para ser, será.

- Eu vou pensar no assunto.- Respiro pesadamente.- Enfim...- Alcanço o vaso.- Onde seria o melhor lugar para colocá-las?

- Na mesa de centro, sem dúvidas.- Se acomoda no sofá e agarra uma almofada.- Não pude deixar de trazê-las para você. Notei que, na maioria de suas pinturas e desenhos, as flores são peônias.

- É... são as minhas favoritas.- Fico agradecida pelo gesto.- Não sabia que gostava de flores.

- Eu amo. Lá perto de casa tem uma floricultura incrível. Sempre que posso, compro e enfeito praticamente cada cantinho de casa com elas. Gosto de colocá-las na varanda, porque sei que adoram o fim de tarde. Faz bem a elas e muito mais a mim. De alguma forma, as flores têm esse poder. Elas te acalmam e te deixam com a alma leve, livre. É triste que algumas pessoas não saibam apreciá-las.- Ela suspira antes de continuar.- Assim como a mulher que vi mais cedo, quando escolhia essas para você. Ela estava procurando flores artificiais, mas parecia nunca ter ido lá, já que todos que conhecem a loja estão cansados de saber que a dona não vende. A mulher saiu resmungando que flores artificiais eram a melhor escolha: "nunca murcham, nunca perdem seu esplendor, sua beleza é eterna". Mas que tipo de beleza é essa, que nunca sente o vento, que nunca morre para renascer? A senhora apenas sorriu, e eu já sabia o que se passava em sua mente: aquela mulher de idade não sabe conviver nem mesmo com um ser humano. Não sabe apreciar as fases das pessoas. Não consegue amá-las pelo que elas são, do jeito que são. Tampouco respeitá-las. Porque, se não consegue fazer isso com as plantas, quem dirá com um humano.- Ela faz uma pausa e sorri levemente.- Elas nos ensinam a respeitá-las e amá-las, em seu leito de vida e até mesmo em seu leito de morte. Quando você cuida de uma planta, passa a aceitar que nada é para sempre. Ela te mostra que tudo nessa vida é passageiro, mas que ainda assim é primordial aprender com cada momento que temos em nossa vida não duradoura.

- Parece até que estou ouvindo a minha mãe falar.- Shizuki apenas levanta as sobrancelhas, surpresa e sem saber o que dizer.- Ela tinha a mesma paixão e compreensão por cada coisa existente nesse planeta. Especialmente com as plantas. Me lembro de que, quando eu tinha por volta de sete anos, vi uma flor tão linda caída perto da escola. Eu a guardei e prometi a mim mesma que cuidaria dela para sempre.- Solto uma risada abafada.- Cheguei em casa e me apressei para mostrar a ela. Mas notei que algumas pétalas estavam amassadas e outras até mesmo perdidas entre meus cadernos. Fiquei cabisbaixa, e ainda assim ela me deu um vaso para colocá-la.- Fecho os olhos, imersa na lembrança.- Tinha esperanças de que ficaria tudo bem, mas, quando voltei da escola no outro dia, a flor estava pior, murchando, e mais pétalas haviam caído. A ideia de que ficaria bem, assim como a vi pela primeira vez, permanecia. No dia seguinte, só restou o galho seco, e as lágrimas vieram. Minha mãe me encontrou e, depois de enxugar as gotas frias que escorriam, me levou de volta à sala. Lá, encontrei um vaso repleto da mesma flor que tinha sido o motivo do meu choro. Ela me disse que o nome delas era peônias e que eu precisava me preparar para saber lidar e cuidar de cada uma. Com suas chegadas, partidas, dias secos e dias floridos. Cada etapa dessas era importante, principalmente por serem passageiras. Que apreciar o instante era essencial. Entender que nada é para sempre também. E, de alguma forma, ela me preparou para tudo que estava por vir nos anos seguintes.- Suspiro, sem coragem de olhar para a pessoa ao meu lado.

- Maya... eu não tinha ideia...

- Não faça isso. Esse assunto me ajudou bastante. Na verdade, me libertou falar um pouco dela. Depois do que aconteceu, nunca mais fui capaz de comentar sobre. Ela só permanecia em meus pensamentos.- Um abraço de lado se forma e meus olhos se fecham automaticamente.

- Não foi uma simples coincidência eu ter trazido essas flores. Ela pode estar querendo te ajudar a chegar onde você deseja. Te dando inspiração com essas lembranças, conversas, declarações.

- Obrigada, Shizuki.- Minha voz sai baixa, mas sincera. Encaro seus olhos marejados e, pela primeira vez em muito tempo, sinto que algo dentro de mim floresce de novo.

Sky. (Mingyu)Onde histórias criam vida. Descubra agora