- Aish! Faz esse barulho parar, por favor!- Levo um empurrão de Shizuki e caio do pequeno espaço que eu havia conquistado.
Depois de muito esforço, consigo deixá-la desperta. Como se por um curto período estivesse com amnésia, lembro que ele está na sala.
- Ele já foi?- Sussurro desapontada, porém aliviada.
A roupa de cama dobrada perfeitamente e nem preciso me aproximar muito para sentir o cheiro sândalo e âmbar.
(***)
A calma playlist da cafeteria quase me faz cochilar sobre o balcão. Tento manter o foco todo para a ansiedade de ir para a galeria e entrar naquele lugar como eu almejei desde o primeiro dia de trabalho. Como uma artista.
- Alguém perdeu isso- Shizuki pega o livro que foi deixado sobre a cadeira logo quando estamos fechando o lugar.- Nesse dia entediante, nada como uma leitura.- Vejo seu olhar longe e tenho a mais plena certeza que isso não faz parte da ressaca por conta da noite anterior.- Quem sabe, assim eu crie vergonha na cara e vou ler um livro ao invés de me encantar com o primeiro garoto fofo com cara de nerd que me oferecer um suco de melancia.- Faz careta encarando o objeto em mãos, ignorando totalmente a reação que suas palavras causam em mim.
- Ryeoun?- Minha boca fica escancarada juntando as peças do garoto comprando um suco para Shizuki na noite passada.
Se eu estivesse com a cabeça sem ser em outro lugar, talvez prestasse atenção em como Shizuki ficou com o ato repentino ou no silêncio incomum da minha amiga que havia se instalado.
Ela dá de ombros e por incrível que pareça, está sem graça. Por fim, vejo entusiasmo em seu olhar atrás de mim.
- Acho que essa conversa vai ficar para outra hora, senhorita Maya.- Franzo o cenho e me viro.
As mãos afundadas nos bolsos do casaco, e a expressão de calma enquanto espera por algo, por alguém, faz com que no meu ver, o calor que ele emana se espalhasse e acabasse com o frio da tarde.
Shizuki me entrega minha bolsa e sussurra que eu deveria ir na frente para me adiantar no caminho para a galeria e pisca desajeitadamente. Respiro fundo e saio do lugar com o olhos focados em meus passos. Ele me nota e acena enquanto caminho em sua direção.
- Oii!- Seu timbre me arrepia. Respiro profundamente em frente a ele. Os cabelos escuros caindo sobre a testa.- Queria me desculpar por ter saído tão cedo e sem ao menos lhe agradecer pela noite...- Parece querer dizer algo mais, porém, se limita. Não pude conter o esboço de sorriso que se formou em meu rosto.
Ele me acompanha durante o caminho pela praça. Vez ou outra fito seu rosto descaradamente, uma dessas vezes, me faz perceber a mudança em seu semblante e procuro o que despertou o olhar e o sorriso mais espontâneo que já presenciei.
- Olá!- Mingyu se abaixa perto de um Golden Retriever e sorri para o dono do bichinho.
Me sinto apreciando um quadro no museu. Aquele que todo mundo nota de cara e se destaca com suas cores quentes e aconchegantes. O cachorrinho lambe seus dedos e vejo ele jogar a cabeça levemente para trás enquanto ri, você não sabe o quão fofo é isso, mas eu sei. Faz uma voz diferente ao se comunicar com o bichinho peludo. Não consigo conter o riso. Sua atenção é voltada para mim e ele captura a imagem que nem sempre é tão constante.
Me conta sobre os cachorros que tem e me faz imaginar cenas como as de agora acontecendo frequentemente.
- Como assim você não gosta de cachorros?- Sua indignação me dá vontade de rir novamente.
- Eu não disse que não gosto, é só que em relação a animais, não acho que me identifico com cães ao ponto de ter.- Ele interrompe meu caminho e me fita por alguns segundos. Perto demais. Perco controle da respiração e a prendo.
- Uhmm... E gatos? Você se parece muito com um.- Ele sorri fazendo os olhos virarem linhas.- Não é muito comunicativa, não parece que é porque não gosta, só parece mais acostumada a escutar. Como se fosse acostumada a falar silenciosamente. Se expressar de maneiras diferentes.- Me silencio e o observo falar de mim de forma tão íntima.
Livre das grades da perfeição. Tem tanto que quero lhe dizer e você não sabe. Eu não acredito na beleza que vejo.
Logo que chegamos ao ponto de ônibus, o meu se aproxima. Ele sorri em forma de despedida e eu faço o mesmo, mas antes de me deixar ir, sinto algo em volta dos meus ombros.
- Para não sentir frio.- Me aconchego com o casaco ligeiramente quente.- Está aquecida?
- O cheiro é bom.- Olho para baixo e quando volto a atenção para seu rosto, vejo seu sorriso inocente com os olhos brilhando.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sky. (Mingyu)
FanfictionA vaga lembrança de se deitar sobre a grama com sua mãe, depois de correrem alegremente pelo jardim, e de observar o céu que a encantou mais que as flores do lugar, persiste. Naquele dia, Maya quis desesperadamente ver uma estrela cadente. Em compar...
