20

367 38 46
                                        

Não sei que horas são. Nem sei para onde estou indo. Me pergunto quando irei acordar. Quando irei mudar e passar a me moldar para, assim, quem sabe, ser uma pessoa normal. O tipo de gente que segue uma rotina e não se enjoa dela. Que faz aquilo que não gosta e, ainda assim, continua. Por que eu não sou assim? Por que sinto vontade de desistir de tudo? Por que esse vazio continua presente?

O aperto familiar no peito se instala, trazendo a dor insuportável na garganta. Por fora, finjo estar bem, talvez na esperança de enganar a mim mesma. Para acreditar que sou forte e que nada me incomoda. Mas, ao simplesmente olhar meu reflexo em um espelho, sou capaz de enxergar o quanto estou sufocada.

Quero ficar só. Me sinto só. Estou só.

Eu menti para mim mesma, achei que a distância destruiria o que ainda resta da vontade de sua presença. Mas ela persiste. Talvez nunca vá embora completamente.

O som de relâmpagos e trovões soa longe. Ao longo do meu trajeto sem destino certo, sinto as gotas pesadas sobre minha pele. Uma ótima maneira de transbordar e, ainda assim, conseguir disfarçar com a chuva, mas tudo continua preso. Sem sinal algum de que irá se libertar.

Com meus passos lentos, diferentes dos das pessoas ao redor, observo as gotas. Seguro as alças da mochila que contém alguns materiais de desenho. Saí na ideia de que conseguiria encontrar algo para me inspirar. O céu contém um tom cinza-escuro e, a cada segundo, sua cor se intensifica. Eu tento me livrar do medo da noite. Porque é quando mais sinto saudades.

Espero o sinal fechar para atravessar. E, aos poucos, uma sensação que conheço aparece. Meu coração acelera como um carro de corrida e minhas mãos começam a suar. As pessoas ao meu redor atravessam rapidamente, e eu as acompanho, ainda que não consiga entender o que está acontecendo.

Todos carregam seus guarda-chuvas, apesar do chuvisco. Menos ele, todo de preto, cabelos molhados. Meu coração dá apenas uma batida quando forço meus olhos para enxergar melhor seu rosto. Com a respiração ofegante, paro sem reação. A visão é atrapalhada. E, como se me empurrassem, me movo depressa para tentar achá-lo, abrindo caminho entre todos. Mas a sensação diminui, e eu já não escuto meus batimentos latejando até os ouvidos. Sorrio, fracassada.

Eu podia jurar que era ele, mas foi apenas minha imaginação se deixando levar.

(***)

- Me desculpe, Vernon... Não vou poder ir hoje. Não estou me sentindo muito bem.- A ligação é encerrada.

A imagem não deixa minha mente. Tampouco a ideia de que fui capaz de criar aquilo com a imaginação. Chega a assustar. Mas não ligo. Não agora. Quero aproveitar pelo menos a lembrança dessa vaga miragem.

Eu tento me apegar à esperança de que não estou ficando louca. Mas também quero me entregar, se ficar louca for dessa forma. Levanto-me no impulso, quando a sensação de inspiração e criatividade me atinge ao repassar várias vezes aquele momento.

O quadro já está pronto em minha mente, enquanto a tela à frente continua vazia. O medo percorre meu corpo. A respiração se torna pesada. Eu vou deixar isso evaporar das minhas mãos? Nego com a cabeça. Suspiro. A tela é tomada pelo preto obscuro. No simples processo de cobrir tudo com a cor, outras ideias me visitam. Talvez eu não saia daqui tão cedo. E, mais uma vez, minha inspiração envolve ele. Minha inspiração é ele.

A cada pincelada desesperada, me pego pensando que o sentimento que tenho é algo extraordinário. Que sou egoísta em achar que é triste pelo fato de ser impossível, sem notar o quão mágico pode ser apenas ter essas sensações e pensamentos em minha mente.

Parece que minha vida é colorida por um amarelo vibrante a maior parte do tempo, e tudo por causa dele. Mas não sei por que eu sempre foco no azul-escuro que preenche apenas um minúsculo espaço. Como se apagasse todo o lado bom de sentir. Sendo que isso é uma das melhores coisas que existem. E agora, de alguma forma, entendo que a liberdade de sentir o que estiver sentindo, independentemente da possibilidade do recíproco ou de acontecer, é a melhor maneira de se sentir, o melhor lado para se ver de todos os lados bons.

Não sei o porquê desses acontecimentos, nem do sentimento, mas, se foi para ser assim, eu me entrego e apago a parte triste... Posso sobreviver sem sua presença. Fiz isso minha vida inteira. Só não posso continuar lutando contra algo que não sou capaz de controlar.

Já sujando o quadro com a tinta branca, eu me entrego completamente. Me entrego ao frio na barriga, à maneira como alguém pode mexer comigo de várias maneiras antes tão distintas e agora tão viciantes e, às vezes, até aterrorizantes. Me dou por inteira. Vibro de inspiração e vivo de coração.

Sky. (Mingyu)Onde histórias criam vida. Descubra agora