Sou atraída por uma força sobrenatural. Abro a porta da minha sala de artes, sentindo o cheiro familiar de tinta e papel. As telas inacabadas encostadas na parede parecem me observar, e o chão está coberto de pequenos borrões de tinta seca. Pincéis esquecidos repousam sobre a mesa, e pontas de lápis espalhadas revelam horas de dedicação silenciosa. Alcanço um dos pincéis que mais uso. E começo a colocar tudo para fora, estampando a tela sem nem mesmo fazer o esboço de costume.
As nuvens são mais escuras de propósito, ultrapassando o tom das que vi algumas horas atrás. As cores vão de cinza a azul, formando um céu turbulento, mas de uma beleza melancólica. As nuvens, fofas e rechonchudas, lembram algodão-doce dos carrinhos da praça. Os pássaros aparecem dispersos, voando em formação organizada, desviando dos raios que cortam o horizonte.
Afasto uma mecha do rosto enquanto mais ideias surgem, invadindo minha mente como um furacão. Uma inspiração magnífica, diferente de tudo que já senti antes. Tanta vontade de dar vida ao branco sem graça. É forte demais para ser contida, e, para ser sincera, nem quero.
O som da campainha me assusta. Meu corpo se sobressalta. Caminho pela casa sem entender. Quando abro a porta, me deparo com uma figura baixinha e sorridente.
- Shizuki?- Tento sorrir, surpresa e sem saber ao certo como ela descobriu onde moro.
- Maya!!- Ela entra sem cerimônias e me envolve em um abraço apertado.- Gostou da surpresa? Trouxe chocolates! Esses aqui são os meus preferidos.
- A-ah, claro que gostei.- Respondo, segurando a caixa. Ela caminha pela sala com a naturalidade.
- Seu rosto está sujo de tinta.- Comenta entre risos
- Isso sempre acontece.- Reviro os olhos.
- Espera... Você pinta?!- Seus olhos se arregalam, e um sorriso animado começa a se formar em seu rosto, como se tivesse acabado de descobrir um segredo precioso.
- Sim.
- Que incrível! Eu sou fotógrafa, a minha área na arte é essa.- Dessa vez meus olhos é que devem estar contendo uma constelação de tão brilhantes.
- Eu amo fotografia! Já foi uma das minhas obsessões na adolescência, mas acabou perdendo para a pintura e o desenho.
- E se a gente trocasse aulas? Você me ensina a desenhar, e eu te ensino fotografia!- Os pulinhos são tão leves que nem fazem barulho no chão. Concordo animada também.- Eu posso ver?
- Ver o que?
- O quadro que você estava pintando.- Ela sorri de um jeito que mistura suplica e entusiasmo.
- Na verdade, já terminei, mas...- Hesito, desviando o olhar para o corredor.
Não adianta. Quando alcanço Shizuki, já é tarde.
- Isso é incrível!- Sua voz sai como um eco fraco, me fazendo sentir exposta.
- Obrigada.- Murmuro, abaixando o olhar.
- E ele? Quem é?- Seu dedo aponta para algo que congela minha espinha. O quadro ao lado de outros. As folhas rabiscadas com cada detalhe de seu rosto.
Meu segredo.
- É só uma pessoa que vi uma vez.- Me apresso a juntar os papéis sobre a mesa, escondendo os quadros atrás de uma fileira infinita de telas.
- Não que eu possa julgar, mas esse trabalho é... diferente. Como se fosse algo muito mais pessoal.- Ela observa os detalhes mais uma vez antes de se virar para mim.- E não parece ser apenas uma pessoa qualquer para você.
O riso escapa dos meus lábios, mas, por dentro, me sinto vulnerável.
Não é bem assim...
Eu gosto do simples. Gosto de olhares honestos e cheios de paixão. Piadas sem graça que acabam causando sorrisos sinceros. Conversas aleatórias que tem o poder de fazer a hora passar voando. Abraços apertados e quentes que são melhores que qualquer remédio. Eu gosto do que é verdadeiro. Eu gosto da gentileza presente em cada gesto, especialmente no menor deles. Eu gosto do altruísmo. E mesmo que esteja em falta hoje em dia, acredito que pessoas repletas de tudo isso e muito mais podem cruzam nosso caminho.
Sempre quis isso. Mas afastei todos. Ou eles mesmos partiram. Talvez eu não seja o tipo de pessoa que alguém gostaria de ter por perto. O medo de me entregar a um vinculo e depois perdê-lo me consome. Ainda assim, olho para os outros e desejo o que eles têm.
Eu cuidaria de um coração partido, dividiria silêncios confortáveis, ouviríamos nossas músicas preferidas e maratonaríamos filmes românticos enquanto comemos sorvete. Trocaríamos segredos e presentes inesperados. Brigaríamos, choraríamos, riríamos, viveríamos e cresceríamos juntas nesse mundo complicado.
Mas também sou teimosa, ciumenta, insegura. Tenho medo da intensidade das conexões. Por isso me afasto, desapareço. Porque pessoas vão embora. Pessoas decepcionam. E eu não quero nada que não dure para sempre e tenho medo de me machucar mais.
Apesar disso, Shizuki ainda está aqui. Ignorando minha estranheza e atravessando minhas barreiras. Sentada na minha sala de desenhos, prestes a descobrir o segredo dos meus sonhos.
E, pela primeira vez, vejo alguém se fazer presente.
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Sky. (Mingyu)
FanfictionA vaga lembrança de se deitar sobre a grama com sua mãe, depois de correrem alegremente pelo jardim, e de observar o céu que a encantou mais que as flores do lugar, persiste. Naquele dia, Maya quis desesperadamente ver uma estrela cadente. Em compar...
