Meu lar

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Brunna nunca soube o que era uma família.

Foi deixada ainda bebê na porta de um abrigo, enrolada em um cobertor fino, sem nenhum bilhete, sem um nome, sem nada que pudesse conectá-la ao mundo. Cresceu ouvindo que deveria ser grata por ter um teto e comida, mas nunca soube o que era amor.

O abrigo não era um lar. Era uma jaula onde crianças e adolescentes aprendiam a sobreviver sozinhos. Brunna viu muitos amigos chegarem e partirem, adotados por famílias que procuravam bebês ou crianças pequenas. Ninguém queria uma menina de olhar sempre desconfiado e triste, que não sabia nem sorrir direito.

Ela aprendeu a se proteger cedo. Sabia que algumas cuidadoras eram boas, mas outras…nem tanto. Aprendeu a não chorar, a não demonstrar fraqueza. Sabia que se fizesse algo errado, poderia ficar sem comida. Se falasse demais, poderia levar um tapa ou ficar de castigo num quartinho escuro.

E, pior do que os adultos, eram as outras crianças. No abrigo, só os fortes sobreviviam. Brunna era pequena e magra, mas não era fraca. Aprendeu a lutar quando precisou defender os poucos pertences que tinha e quando tentaram abusar dela sexualmente. Aprendeu a esconder os machucados para não parecer vulnerável.

Os anos passaram e com eles veio a certeza de que, quando completasse 18 anos, ninguém estaria esperando por ela.

E foi exatamente isso que aconteceu.

No dia do seu aniversário, uma das cuidadoras entregou-lhe uma mochila surrada com algumas roupas velhas e um pouco de dinheiro.

— Agora você já é adulta. Cuide-se sozinha.

E então a porta se fechou.

Brunna ficou parada por alguns segundos, olhando para o prédio onde passou toda a sua vida. O céu estava cinza, como se o próprio universo soubesse que ela estava completamente sozinha. Ela não chorou. Apenas virou as costas e começou a caminhar.

As primeiras noites foram as piores.

Sem dinheiro suficiente para um hotel barato, sem amigos para pedir ajuda, Brunna dormia onde conseguia: estações de metrô, praças, marquises. Aprendeu a encontrar cantos onde o vento não cortava tanto e onde os guardas não a expulsariam.

Fome e frio passaram a ser companheiros constantes.

Ela se encolhia contra as paredes, tentando ignorar os olhares de desprezo das pessoas que passavam. Uma menina magricela, de roupas sujas, parecia invisível para o mundo.

~

Duas semanas depois...
A noite estava cruel.

O vento fazia as folhas secas se arrastarem pelo asfalto. Brunna tremia, encolhida no banco de uma praça qualquer. Seu casaco fino era inútil contra o frio da madrugada e os ossos doíam de tanto dormir mal.

Ela tentava não pensar. Não pensar no estômago vazio, na dor das costas, no fato de que amanhã seria mais um dia sem destino. Mas, acima de tudo, tentava não pensar no medo.

Porque o medo a acompanhava desde o dia em que fora deixada na porta daquele abrigo, ainda bebê.

Desde que se entendia por gente, Brunna sabia que ninguém viria salvá-la. Aprendeu cedo que o mundo era feito de descaso e brutalidade. As cuidadoras do abrigo estavam sempre sobrecarregadas e algumas pareciam gostar de lembrar as crianças de que elas eram fardos.

Ela lembrava do frio das noites no colchão raso, das brigas por comida, dos tapas inesperados quando fazia algo errado. Mas, pior do que a dor física, era o silêncio. O silêncio de uma infância sem abraço, sem um carinho no cabelo antes de dormir, sem ouvir um “eu me importo com você”.

One shot BrumillaOnde histórias criam vida. Descubra agora