Dopamina

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Pov Ludmilla

O palco ainda pulsa em mim mesmo quando o silêncio finalmente me encontra. Meu corpo está quente, suado e elétrico. A música ainda corre nas veias como se o show não tivesse acabado, como se cada batida tivesse sido tatuada por dentro. Eu sei que cantei bem. Sei que entreguei tudo. Mas, mesmo assim, meu pensamento corre num único sentido. Brunna.

Jogo a jaqueta em qualquer canto do camarim e respiro fundo, tentando desacelerar. Minha mente nunca para. Agenda cheia, decisões, cobranças, expectativas. Todo mundo quer um pedaço de mim. Todo mundo acha que sabe quem eu sou. Mas Brunna… Ela é a única que realmente sabe.

Ouço a porta abrir e não preciso virar pra saber que é ela. Tem presenças que não fazem barulho, elas ocupam o espaço. O ar muda. O tempo muda.

- Você foi incrível, mô - ela diz.

Viro devagar. Ela está ali, encostada na parede, do jeito que sempre fica quando me observa com aquele olhar misto de orgulho e saudade, como se tivesse sentido minha falta mesmo tendo me visto há poucos minutos.

- Eu sempre sou - respondo, brincando, mas meu sorriso denuncia o quanto aquelas palavras me atingem mais do que eu deixo transparecer.

Ela se aproxima. Cada passo dela em minha direção é um lembrete do quanto eu perdi o controle há muito tempo. Do quanto eu me entreguei sem perceber. Do quanto já não sei mais existir sem sentir essa química absurda entre nós. Estamos juntas há quase três anos e ainda é como se fosse o primeiro mês, o mesmo frio na barriga, a mesma ansiedade, o mesmo sentimento. E depois que finalmente a assumi pro mundo, tudo isso triplicou de intensidade.

- No palco, você parece inalcançável - ela diz, parando perto demais. - Às vezes me dá medo.

- Medo de quê?

- De te perder pra esse mundo. Mesmo sabendo que você volta pra mim.

O silêncio que se instala é denso. Não machuca, pesa porque é real demais. Levo minha mão até o rosto dela com cuidado, como se estivesse tocando algo frágil demais.

- O mais difícil foi me entregar -  confesso com a voz baixa. - E você sabe disso melhor do que ninguém. Mas hoje… onde você estiver, é onde eu quero estar.

Ela fecha os olhos com o toque e naquele gesto simples, tudo desacelera. O caos se organiza. A mente lotada silencia. Brunna continua sendo o meu lugar seguro desde a época em que éramos apenas melhores amigas.

Encosto minha testa na dela, sentindo nossas respirações se misturarem. É aqui que eu me reconheço. Não no palco. Não nos números. Não nos holofotes.

- Bru… eu não consigo imaginar minha vida sem você. Nem em outro caminho, nem com outra pessoa. E isso não me assusta mais. Me acalma.

Ela sorri de leve, aquele sorriso que faz meu coração errar as batidas.

- Porque a gente construiu isso - ela diz. - Não foi rápido, mas foi exatamente como tinha que ser.

Seguro suas mãos nas minhas. Elas se encaixam perfeitamente. Penso em quantas noites dividimos, quantas despedidas, quantos retornos. Quantas vezes um simples “cheguei” significou tudo.

- Você mexeu comigo de um jeito que ninguém nunca mexeu. Na verdade, toda vez que te olho, eu sinto o mesmo frio na barriga que senti quando ficamos pela primeira vez. Você aumenta tudo aqui dentro… até quando o mundo tenta diminuir.

Seguro sua cintura com firmeza e a puxo para perto, colando nossos corpos. Sua respiração fica desregulada. Ela passa o polegar devagar sobre meu lábio inferior e fecha os olhos quando seguro sua nuca com uma de minhas mãos.

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⏰ Última atualização: Jan 18 ⏰

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