Cap. 14 - A descida

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"Às vezes é preciso se perder um pouco para se encontrar de verdade. Entre cartas não entregues e olhares que dizem mais que palavras, descobri que a redenção nem sempre segue o caminho que planejamos."

London POV.

Sessão 1 — Silêncio 

O prédio comercial se ergue à minha frente, simples e discreto, quase anônimo entre as outras fachadas. Paro na calçada, girando o cartão entre os dedos — um pedaço de papel que carrega mais peso do que deveria.

"Elliot Page, Psicólogo", leio pela milésima vez. As palavras parecem pulsar, como se tivessem vida própria.

A voz de Carina ecoa em minha memória, seu tom suave mas firme enquanto me entregava o cartão há dois dias: "London, ele é... diferente. Ele entende coisas que outros profissionais nem imaginam. Talvez seja exatamente o que você precisa agora."

Ela não elaborou mais, mas havia algo em seu olhar — uma compreensão silenciosa que fez meu peito apertar. Como se ela soubesse exatamente por que aquele nome específico poderia significar tanto.

Respiro fundo e dou o primeiro passo em direção à entrada. Minhas mãos tremem levemente enquanto empurro a porta. O consultório me recebe com uma atmosfera serena - cores suaves nas paredes, estantes bem organizadas, uma janela entreaberta que deixa entrar um murmúrio distante da cidade. É reconfortante, de alguma forma.

Me afundo no sofá sem dizer nada, observando discretamente enquanto o psicólogo fecha a porta. Ele tem um ar tranquilo, olhos gentis que não me pressionam. Se acomoda na poltrona com movimentos calmos, o caderno equilibrado no colo. O silêncio cresce entre nós, denso mas não sufocante. Sinto meus pensamentos correndo, tropeçando uns nos outros, enquanto meus dedos encontram o anel - um hábito nervoso que nem percebo mais.

— Você prefere que eu a chame de Lauren... ou London? — sua voz é suave, quase casual.

Levanto os olhos, sentindo um aperto familiar no peito ao ouvir os dois nomes. Quem sou eu, afinal? A pergunta ecoa em algum lugar dentro de mim.

— Tanto faz — murmuro, mas as palavras carregam um peso que contradiz minha indiferença forçada.

Ele faz uma anotação breve, o som da caneta quase imperceptível.

— Costuma escolher o que "tanto faz" pra você... ou pros outros?

A pergunta me atinge como um soco suave no estômago. Sinto meus ombros tencionando, uma defesa automática. Me recosto no sofá, braços cruzados como uma armadura improvisada.

— Às vezes, o silêncio é só cansaço — ele comenta, sua voz gentil. — Outras, é proteção.

Desvio o olhar para a janela, agradecida pela distração de um carro que passa tocando música alta. O som abafado me ancora no momento, me impede de me perder nos pensamentos.

— Não tenho expectativa de que você fale hoje — ele continua. — Mas fico aqui. E escuto. Mesmo que você não diga nada.

Um riso escapa dos meus lábios, meio irônico, meio vulnerável.

— Isso é sua técnica?

— Não. É só presença. — Um sorriso suave toca seus lábios. — Às vezes é o máximo que dá pra oferecer no começo.

Giro o anel mais uma vez, sentindo o metal frio contra minha pele. O nome Lauren paira no ar como um fantasma familiar. Não corrijo, não protesto, não fujo. Apenas... fico. E nesse momento de quietude, meu silêncio carrega histórias que ainda não estou pronta para contar.

I Have Questions (Trans version MTF)Onde histórias criam vida. Descubra agora