Cap 22 - Quando a Verdade Chega Perto

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Lauren POV

Uma semana.

Sete dias desde que digitei aquelas palavras e apertei enviar. Eu nunca fui.

O escritório do Museum of Art of Miami me encara com sua frieza minimalista. Paredes brancas, mesa de vidro, uma única planta no canto que insiste em viver apesar da minha negligência. A vista pela janela deveria ser inspiradora: a baía de Biscayne se estendendo até o horizonte, barcos deslizando pela água azul-turquesa. Mas tudo que consigo ver é o reflexo fantasmagórico do meu próprio rosto no vidro.

Seis meses.

Seis meses até a exposição mais importante da minha carreira. The Journey of Dante: Inferno, Purgation, and Redemption. Uma retrospectiva imersiva sobre representações artísticas da Divina Comédia ao longo dos séculos. O tipo de projeto que curadores passam a vida inteira esperando.

E meu caderno de esboços está em branco.

Completamente em branco.

Passo os dedos pela placa na porta ao entrar todas as manhãs. Lauren Estrabao — Curadora Chefe. Depois do incidente na recepção, ninguém mais questionou meu nome. Ninguém mais ousou. Mas a vitória tem gosto amargo quando você está vazia por dentro.

Esta semana se arrastou como uma eternidade. Uma semana seguindo os passos dela pela cidade sem que ela saiba. Parando no mesmo café onde ela toma o latte com leite de aveia todas as manhãs. Observando de longe enquanto ela busca o menino na escola: aquele garotinho de cabelos escuros que ri alto demais e gesticula com as mãos quando fala, exatamente como ela costumava fazer.

O filho que não é meu.

Mas poderia ter sido.

A dor é física. Como se alguém tivesse arrancado um pedaço de mim e eu pudesse ver esse pedaço vivo, respirando, existindo sem minha participação. Será que nossa filha, nosso filho, teria aquele mesmo sorriso? Aqueles mesmos olhos curiosos que parecem ver mais do que deveriam?

Talvez tenha sido castigo. Talvez o universo tenha olhado para nós duas e decidido que não merecíamos aquele milagre. Duas mulheres tentando criar vida num mundo que insistia que éramos impossíveis.

Solto um suspiro que parece vir de algum lugar mais profundo que meus pulmões.

O celular vibra na mesa, cortando o silêncio do escritório. O nome na tela faz meu estômago revirar.

Giulia.

Fecho os olhos. Conto até cinco. Atendo.

— Ciao, Giulia.

A voz dela explode do outro lado da linha, aguda demais, desesperada demais.

— Finalmente você decidiu me atender!

Afasto o telefone do ouvido por um segundo. Respiro.

— Faltam cinco semanas para seu filho nascer — ela continua, cada palavra uma acusação — e você me manda dinheiro? Dinheiro? É isso que você acha que eu quero?

Uma risada escapa dos meus lábios. Sem humor. Seca.

— Meu filho? — repito, tirando os óculos e pressionando a ponte do nariz. — Engraçado, Giulia. A conta não fecha. Mesmo na nossa recaída, quando fui levar suas coisas... a matemática não bate.

Silêncio do outro lado. Breve. Pesado.

— Por que continuamos com isso? — pergunto, minha voz saindo mais cansada do que pretendia. — Sério. Me explica.

I Have Questions (Trans version MTF)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora